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Correio Braziliense

Ópera de compositor italiano do gênero ganha adaptação brasileira

O triângulo amoroso é a base da tragédia do libreto de 'Il Tabarro'


postado em 19/10/2019 06:40

A ópera de Puccini foi adaptada para uma realidade brasileira e conta história de caminhoneiros(foto: Carol Resende/Divulgação)
A ópera de Puccini foi adaptada para uma realidade brasileira e conta história de caminhoneiros (foto: Carol Resende/Divulgação)


Giacomo Puccini gostava muito de histórias de amor com aspecto épico. A célebre cantora de ópera que se apaixona por um pintor, a gueixa abandonada pelo oficial americano de passagem pelo império do Sol Nascente e a princesa chinesa que resiste ao casamento ficaram imortalizados em Tosca, Madame Butterfly e Turandot. Reis, princesas, oficiais e artistas costumavam ser o material de trabalho de Puccini, mas foi em um campo completamente diferente que ele construiu Il Tabarro, a primeira de uma trilogia de óperas intitulada Il Trittico e escrita nos primeiros anos do século 20.

No palco, cantores encenam uma história de amor que passa longe de príncipes e nobres. Um pouco por isso o maestro Ricardo Sousa-Castro e o produtor Hugo Lemos escolheram a obra para a montagem em cartaz até este domingo (20/10) no Teatro Plínio Marcos, da Funarte. “É uma obra que apresenta muito da maturidade do compositor, trazendo as tendências mais modernas do século 20”, avisa o maestro. Um contraponto às óperas tradicionais e românticas que Puccini costumava escrever,

Il Tabarro estreou em 1918, no Metropolitan Opera, de Nova York, e foi recebida com alguma estranheza. “Ele faz muitas alterações rítmicas, com harmonias diferentes e dissonâncias bem típicas do século 20, polirritmia e politonalidade. São coisas bem diferentes, que estavam sendo experimentadas no início do século 20”, avisa Sousa-Castro. Concebida para ser apresentada em um único ato, a ópera é fruto de uma tentativa do compositor de incorporar as tendências musicais modernas que começavam a surgir na música erudita. Puccini junta, em Il Tabarro, a tradição da ópera romântica com as novas tendências do século 20.

O escritor Giuseppe Adami buscou na peça La Houppelande, do francês Didier Gold, o mote para o libreto sobre o romance entre um estivador e a mulher do dono de um barco. A história original se passa em um porto e boa parte dos personagens são estivadores que trabalham nos barcos. Na versão brasiliense, a história é protagonizada por caminhoneiros. Giorgetta é casada com Michele, proprietária de um caminhão de carga, mas ama e mantém um caso com Luigi, um dos empregados do marido. Ciúmes, violência, traição e paixão pontuam o drama que acaba em tragédia, como boa parte das óperas.

No palco, a soprano Janette Dornellas vive Giorgetta e o tenor goiano Hélenes Lopes será Luigi. Michele ficou a cargo do barítono paulista Rodolfo Giuliani. “Nunca cantei nem imaginei que ia cantar esse papel”, conta Janette. “É um papel muito dramático e com temática atual.”

Dramas


A soprano também vê uma certa atualidade na maneira como Puccini trata a história. Giorgetta é casada com um homem mais velho e, depois de perder o filho, entra em depressão e acaba se envolvendo com um dos empregados do marido. O resultado é um assassinato. “A temática é atual porque, hoje em dia, se fala mais disso, as coisas são mais públicas, as pessoas estão trazendo esses dramas familiares, não estão mais escondendo, e a mulher hoje tem instrumentos para se defender, como o movimento feminista, a lei Maria da Penha e grupos de defesa”, diz Janette.

Para Hélenes, viver Luigi foi um desafio. “É um papel complexo, vocalmente difícil, pela escrita e pela textura, requer uma voz mais densa e normalmente é feita por tenores dramáticos. Também tem uma carga emocional muito grande, que deve ser transportada para música. A voz precisa corresponder. É um baita desafio”, revela o tenor, ao lembrar que Il Tabarro é pouco representada por conta, em parte, do desafio vocal representado pela partitura. “O elenco tem que estar muito conciso é não é todo mundo que consegue cantar”, avisa.

Trazer a história para a contemporaneidade brasileira foi um caminho natural para o maestro e para o produtor Hugo Lemos. Além de os figurinos serem mais baratos, a estratégia ajuda a provocar a empatia do público. “É uma história que poderia acontecer em qualquer momento”. repara. Il Tabarro faz parte de um movimento conhecido como verismo, tendência seguida pelos artistas do início do século 20 de colocar pessoas comuns como protagonistas das histórias. “Os personagens são pessoas normais. Geralmente, as óperas estavam associadas a deuses, reis, mas Puccini quebra isso e começa a contar histórias de pessoas comuns”, conta Sousa-Castro, que utilizou uma partitura com versão reduzida da orquestra.



IL TABARRO

Ópera de Giacomo Puccini, com a Orquestra Metropolitana de Brasília e Rodolfo Giuliani, Janette Dornellas e Hélenes Lopes. Regente: Ricardo Sousa-Castro. Sábado (19/10), às 20h, e domingo (20/10), às 16h e às 19h, no Teatro Plínio Marcos (Complexo Cultural da Funarte – Eixo Monumental – Setor de Divulgação Cultural). Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00 (meia). Classificação indicativa: 12 anos
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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