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Correio Braziliense

Comédia internacional enche o palco da Caixa Cultural com talento de Nani

Em cartaz no teatro da Caixa Cultural, 'The letter' é uma comédia das facetas humanas interpretadas pelo ator italiano Paolo Nani


postado em 20/10/2019 06:10 / atualizado em 18/10/2019 20:02

A peça 'The letter', criada em 1992, foi apresentada mais de mil vezes em mais de 30 países (foto: Tato Comunicação/ Divulgação)
A peça 'The letter', criada em 1992, foi apresentada mais de mil vezes em mais de 30 países (foto: Tato Comunicação/ Divulgação)

 

Italiano, naturalizado dinamarquês, o ator Paolo Nani poderia ser definido como poliglota. Ele fala inglês, francês, espanhol e italiano. Apesar do domínio linguístico, é na ausência da palavra que ele se desdobra em possibilidades. Há 27 anos, o ator percorre o mundo com o espetáculo The letter. No palco, o homem escreve uma carta — talvez aos espectadores. No lugar da escrita que falha, entra em cena a rica e múltipla expressão corporal de Nani. “Eu, que não sou bom em falar, desenvolvi uma espécie de acrobacia do rosto, por isso que sempre fica claro, durante os 70 minutos da peça, o que estou pensando”, afirma.

A peça foi criada em 1992 por Paolo Nani e Nullo Facchini, inspirada no livro Exercícios de estilo, do novelista francês Raymond Queneau. Na obra literária, não há um acontecimento especial, como explica o italiano. “O fato se repete 99 vezes na mesma quantidade de jogos ou estilos literários”, complementa. É justamente a capacidade de variar a forma escrita como narra uma história que torna o livro de Queneau tão singular.

Assim também faz Nani nos palcos pelo mundo. Munido de ruídos, alguns gritos e muitas expressões corporais, o ator interpreta a alegria, a tristeza, a raiva, o terror, a surpresa, o medo e as várias facetas da experiência humana. Tudo isso a partir de um enredo genuíno: um homem entra no palco e se senta à mesa com a intenção de beber um líquido, aparentemente desconhecido, e escrever uma carta. Entretanto, percebe que a caneta que tem em mãos não tem tinta. A partir desse ponto, as ações se tornam complexas e, sobretudo, cômicas, à medida que o ator insiste na ação cotidiana. 

De trás para frente, sem as mãos, bêbado, ao estilo faroeste ou à la Chaplin, Nani interpreta a história de maneiras completamente diferentes. Carregada de emoções e múltiplas expressões, The Letter revela a potencialidade do ator e, principalmente, o protagonismo da expressão humana. 

Apesar do roteiro fixo e pré-determinado, o espetáculo funciona, nas palavras do italiano, como notas musicais. Elas flutuam e dançam conforme a cumplicidade entre ator e público, que cresce a cada momento e a cada apresentação. Com piadas originais e universais, o riso não tem brecha. Se faltam palavras em cena, sobra espaço para gestos em uma peça que alçou o monólogo ao sucesso e, mesmo tendo sido apresentado mais de mil vezes, é sempre uma novidade, para o ator e para o público.

(foto: TatoComunicacao/Divulgação)
(foto: TatoComunicacao/Divulgação)

Entrevista// Paolo Nani


Criada na década de 1990, por que a peça é tão atual?  

Parece que sou bom em manter os espetáculos vivos. Acho que uma das razões está na minha mania perfeccionista. Ao longo dos anos, continuei inserindo novos detalhes e mais detalhes. E eu nunca parei, continuei a suavizar o ritmo e os maxilares. Outra razão é que a estrutura da peça é realmente uma máquina de guerra para fazer as pessoas rirem. Finalmente, há o timing. O espetáculo é fixo, mas o ritmo não, como o jazz. O que eu faço se transforma em música nova para mim. E isso se percebe. Como eu mudo, assisto a filmes, séries, shows etc., também o ritmo da peça muda comigo, mantendo-se atualizado e moderno. 


Por todos os países pelos quais passou, qual audiência mais te intrigou ou marcou? 

É um pouco difícil lembrar de todos os espetáculos durante os 27 anos. Não digo isso por hipocrisia, toda vez que venho à América Latina, a peça é uma festa. E, você quer saber onde eu lutei mais? No Japão. A educação do público e a extrema cortesia significavam que eles não riam alto, mas em um sussurro.


Tem alguma história ou recordação que mais te marcou?

Sou o primeiro a ficar surpreso com o sucesso que essa peça continua tendo em todo o mundo, desde 1992. Outra é que quebrei uma perna no final do espetáculo e ninguém percebeu. 

Qual o maior desafio de fazer um espetáculo inteiro sem falar, só com expressão corporal?

Depende muito do talento que você tem. Para determinadas pessoas, é difícil. Para outros, é fácil. Eu, que não sou bom em falar, desenvolvi uma espécie de acrobacia do rosto, por isso que sempre fica claro, durante os 70 minutos da peça, o que estou pensando.


Não é cansativo apresentar a mesma peça tantas vezes?

Não. Exatamente porque, para mim, é sempre uma música nova. Se você vir a peça mais de uma vez, verá as pequenas variações que eu inventei a cada apresentação.


Tem vontade de fazer algo que não seja o cômico? O cômico é mais difícil?

The letter é apenas um dos espetáculos que tenho no repertório. Eu também tenho Jekyll on ice e El arte de morir. O último, no qual somos dois atores no palco, é, ao mesmo tempo, uma comédia e um drama. Também acho importante cultivar a parte cômica e a dramática de um ator. Todos os grandes comediantes foram ou são atores dramáticos: Chaplin, Keaton, Jerry Lewis, Jim Carrey, Robin Williams, etc.


Qual emoção mais te representa? Qual a mais difícil de interpretar?

Como disse, como ator, você precisa conhecer todas as suas cores. Do mais cômico ao mais dramático. Às vezes, alguém diz que The letter é uma espécie de aula de teatro. É certo. No final, toquei em todas as cores.


O espetáculo nos ensina a ver uma história sob outro ângulo?

Na peça, uma cena é apresentada em diferentes variações da mesma história. Então, sim, pode-se dizer que é como você diz. E quando você sabe que a mesma cena é apresentada no estilo de terror, cinema mudo, sem mãos, circense, também quero ver a vida assim. 

 

 

The Letter

No Teatro da Caixa Cultural Brasília. Neste domingo (20/10) às 19h. Com Paolo Nani. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada). Não recomendado para menores de 10 anos.

 

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