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Correio Braziliense

Conheça Daniel Gonçalves, cineasta brasileiro

Pioneiro no autorretrato para a telona de um diretor brasileiro com deficiência, Daniel Gonçalves combate discriminações


postado em 21/10/2019 07:50 / atualizado em 21/10/2019 07:50

O cineasta está em cartaz com o documentário 'Meu nome é Daniel'(foto: Marcelo Santos Braga/Divulgação)
O cineasta está em cartaz com o documentário 'Meu nome é Daniel' (foto: Marcelo Santos Braga/Divulgação)

Aos 35 anos, o diretor de cinema Daniel Gonçalves contabiliza inúmeras experiências em neurologistas, ressonâncias, investigações genéticas, mas — com deficiência física — até hoje, desconhece diagnóstico preciso para otimizar, na saúde, o dia a dia. “Acham que é um tipo de distonia muscular muito raro; talvez nunca descrito na literatura médica”, comenta o cineasta, morador da Zona Sul do Rio, capital em que cursou jornalismo na Puc e concluiu pós, pela Fundação Getulio Vargas. No currículo, o profissional carrega temporadas no contato com o público televisivo, tendo assinado obras veiculadas no canal Viva, na TV Globo e no GNT.

Primeiro realizador com longa-metragem feito no Brasil, Daniel é bom de conversa — gosta de escutar as pessoas, como sublinha — e traz entre as qualidades a vontade de ser uma pessoa justa, nunca adepta de prejulgamentos. Posturas que são quase uma retribuição ao que tem recebido do mundo: “Acho que dei muita sorte de não sofrer preconceito ou bullying, por parte dos amigos, por causa da minha deficiência. Se aconteceu, foi algo tão velado e que nem ficou claro para mim”. Ao falar dos caminhos que o levaram à criação do documentário Meu nome é Daniel, em cartaz na cidade, ele, inevitavelmente, afunila definições sobre sua condição. “Usar a expressão ‘pessoa com deficiência’ pode parecer nuance, mas não é. Ter uma deficiência é somente mais uma das minhas características, mas a deficiência não me define”, explica.

Quem assistir ao longa Meu nome é Daniel dificilmente, não assimilará um ponto-chave na experiência do cineasta que desvia do campo da superação e detesta ficar no plano do “coitadinho”. “São lugares comuns para os que retratam quem tem deficiência. É um discurso limitador: fica parecendo que as pessoas com deficiência devem se tornar exemplo para os outros. Não é por aí”, avalia Gonçalves. Exemplo mesmo, para Daniel, está nos pais Rosângela e César. “Se tivesse um modelo ideal de como pais devam lidar com deficiência, talvez seja o que fizeram: nunca me compararam com outras crianças; eles percebiam meu desenvolvimento do modo como vinha. Tanto nos tratamentos médicos quanto no trato me sinto privilegiado. Eu não teria jeito de estudar se, por exemplo, trinta anos atrás, meus pais não tivessem comprado uma máquina de escrever para mim”, conta.

Reconhecimento


Se viu descartada a possibilidade de ter paralisia cerebral, até hoje, Daniel busca incrementos na qualidade de vida. “Desde bebê, notaram que o que eu tinha afetava a coordenação motora, e sabiam o que fazer para melhorar; coisas que faço cotidianamente: reabilitação, fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia”. Carismático, Daniel Gonçalves celebra a receptividade do longa em 16 festivais, com alcance em países como Holanda, Colômbia, Austrália, Alemanha, e prêmios no Festival do Rio (menção honrosa), em Tiradentes (eleito pelo júri popular) e ainda Cartagena de Indias (no qual se habilitou a tentar vaga para a lista do Oscar de 2020).

Poucos estímulos tocam, entretanto o meio da representação de deficientes, no audiovisual. “Acho que mais pessoas poderiam ou deveriam ter feito filmes. De acordo com o último censo, 24% da população apresenta algum tipo de deficiência. Todas as variantes estão neste número. No Brasil, inexiste uma linha específica. A empresa pública da prefeitura de São Paulo (Spcine), que fomenta audiovisual, pela segunda vez, lançou edital para realização de filmes nos quais diretores devam ter algum tipo de deficiência. É ação única, no Brasil. Por meio da RioFilme e do BNDES, conquistei editais, mas sempre no segmento reservado a novos diretores”, observa Daniel. Novidades não têm faltado na vida do diretor: na prática da escalada, investiu num enorme paredão de rochas, no Cantagalo (RJ) em agosto, tomou parte de palestra de alcance mundial, pela plataforma do TEDx (Tecnologia, Entretenimento e Design), e, na realização do longa, encarou até a montagem, aos moldes drag queen.

“A decisão de me montar para o filme veio de uma experimentação para tornar o discurso mais impactante, até mesmo como imagem. Montado e caminhando pela Lapa, não conseguia detectar exatamente que olhares dos estranhos eram aqueles. Me olhavam pela deficiência? Por ser drag queen? Quis dar uma cutucada para a galera pensar na questão do preconceito”, explica o cineasta. A cena convida o espectador à dose de transformação interna. “Tudo veio de inquietação minha com a atitude de pessoas, até próximas, que tinham pessoas com deficiência na família e, ainda assim, eram super-racistas e muito homofóbicas. O preconceito que um gay ou uma pessoa negra sofre tem a mesma origem da que cerca pessoas com deficiência: vem da construção sociocultural de uma coisa ser tida como normal e, a outra, não. Percebo, sempre, como isso é incongruente”, conclui.

» Curtas 

Tem bala aí? (2008)
“Olhando em retrospecto, meu primeiro curta foi um trabalho de conclusão de curso da faculdade em que, de alguma maneira, tento me colocar no ambiente das festas rave. Vem aquele lance de as pessoas acharem que estava doidão, na rave, sem eu ter tomado nada”
  
Como seria? (2014) 
“Se Tem bala aí? foi a minha primeira reflexão sobre a minha condição: a relação entre o mundo e eu; Como seria? (de 2014) mostra como seria a minha vida, caso eu não tivesse a deficiência. Deste curta é que nasce o longa Meu nome é Daniel

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