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Correio Braziliense

Milton Hatoum lança 'Pontos de fuga' segunda parte de trilogia

Ao lançar 'Pontos de fuga', o escritor Milton Hatoum faz um alerta: 'O passado não deve ser esquecido'


postado em 26/10/2019 06:04

Milton Hatoum viveu em Brasília nos anos 1970, época de repressão ao pensamento(foto: Ricardo Borba/CB/D.A Press)
Milton Hatoum viveu em Brasília nos anos 1970, época de repressão ao pensamento (foto: Ricardo Borba/CB/D.A Press)

Para Milton Hatoum, escrever é escavar. Lembranças, impressões, imagens fragmentadas vêm à tona no exercício da escrita. Em seus romances, ele revisita sentimentos ilhados, aparentemente mortos, que voltam a assombrar seus personagens (e, provavelmente, também o escritor). Não é diferente em Pontos de fuga (Companhia das Letras), segunda parte da trilogia O lugar mais sombrio, iniciada em 2015 com a publicação de A noite da espera.

Se há uma mudança geográfica no espaço ficcional, com a transferência de Brasília para São Paulo, a excelência da narrativa epistolar sobre um grupo de jovens à sombra da ditadura militar é preservada, talvez até ampliada, no volume que chega às livrarias na primeira semana de novembro. “No fundo, quis fazer uma pesquisa ou sondagem da vida de personagens, num ambiente político truculento”, diz o autor de romances como o premiado Dois irmãos e Relato de um certo Oriente (que acaba de completar 30 anos). A seguir, uma entrevista com o autor, nascido em 1952, em Manaus, e que, como o seu protagonista, Martim, estudou arquitetura na Universidade de São Paulo nos anos 1970.


Quais as principais diferenças entre A noite da espera e Pontos de fuga?

Há, primeiro, uma mudança do espaço romanesco. A noite da espera se desenvolve em Brasília e nas cidades satélites. No Pontos de fuga, a ação é ambientada em alguns bairros de São Paulo, centros simbólicos do romance. A tribo de Brasília se desfez, mas alguns personagens reaparecem em São Paulo, formam um novo grupo numa república de estudantes. As histórias do Pontos de fuga falam dos conflitos particulares dessa república.


Quais os avanços, no novo livro, na educação sentimental e social de Martim?

As relações afetivas do Martim com a mãe (Lina), a namorada (Dinah) e o pai (Rodolfo) são aprofundadas. De um modo geral, Pontos de fuga narra a passagem da juventude à maturidade, e não apenas a do Martim. É quando a vida ultrapassa uma linha de sombra, e muita coisa fica para trás: a ingenuidade, as ilusões, algumas ambições... A vida numa comunidade rompe o isolamento de Martim, mas é na solidão que ele elabora sua escrita, as memórias que está reescrevendo em Paris. Cada personagem reflete sobre si mesmo e sobre os outros. No fundo, quis fazer uma pesquisa ou sondagem da vida de personagens, num ambiente político truculento.

“Eu precisava ler durante a viagem, ler para não enlouquecer.” Também pode ser um caminho para enfrentar o Brasil de hoje? Ler para não enlouquecer?

Sim, para quem gosta de ler... Ou para os que podem ler. A leitura pede tempo, concentração e reflexão. Muitos brasileiros não têm tempo para ler, ou não tiveram uma formação educacional que os possibilite ler bons livros. A leitura depende da educação. Para milhões de jovens de famílias pobres, filhos de desempregados ou de pais que vivem precariamente, a leitura de um bom livro só pode ser feita na escola pública. De certo modo, os dois volumes da trilogia falam da formação de leitores, pois cada personagem expõe suas leituras preferidas, e alguns se amparam nos livros lidos. A leitura pode ser um dos antídotos às adversidades e à miséria do mundo e, ao mesmo tempo, uma possibilidade de refletir sobre isso.


“Até o câmpus, meu único refúgio, era um lugar arriscado, fortaleza frágil.” Como vê a universidade nos dias de hoje? 

Grande parte da melhor pesquisa científica é feita nas universidades públicas, um dos alvos do atual governo, que trata estudantes e professores como baderneiros ou inimigos. É um absurdo. Esse governo se recusa a entender que o crescimento econômico sustentável depende do ensino e da pesquisa de qualidade. Durante a ditadura, a ameaça era física, e isso é abordado nos dois romances. Hoje, o corte de verbas destinadas à educação, as acusações descabidas e acintosas, e as ameaças nem sempre veladas têm como objetivo provocar uma morte lenta das instituições de ensino e pesquisa. Mas a universidade pública será sempre um centro irradiador de conhecimento, de reflexão, de produção de pesquisa e saber. Os estudos e pesquisas científicos, as artes e a literatura são formas de resistência à barbárie, e não apenas no Brasil.

Em passagens diferentes, há reflexões e afirmações sobre o poder da memória:  “A memória é uma voz submersa, um jogo perverso entre lembrança e esquecimento.” A memória é matéria-prima para a criação? A literatura também pode ser vista como um jogo, ainda que não perverso, entre lembrança e esquecimento?

Sim, um jogo de que participam narradores e personagens, peças que se movem num espaço-tempo de conflitos, ou num ardiloso tabuleiro de xadrez, como aparece num grande poema de Jorge Luis Borges: “Que deus detrás de Deus o ardil começa/de pó e tempo e sonho e agonias?”. Aliás, uma das frases citadas na pergunta é um verso de um poema desse escritor argentino, cuja obra é glosada em outras passagens do romance. Certos episódios e cenas do passado são parcialmente esquecidos, mas são justamente os lapsos ou lacunas que dão força à imaginação. O passado não deve ser esquecido. 


“Por que os brasileiros prometem tanto?”, pergunta um estrangeiro. Somos um país de promessas? Frustradas ou cumpridas?

As promessas de quase todos os políticos são armas eficazes do populismo, essa praga tão recorrente na política, e não apenas na América Latina. Brasília foi uma promessa que se cumpriu, ou uma utopia realizada, como diz o personagem Sergio San. Mas foi também em Brasília que aconteceu “o toque militar de recolher”, como afirma o mesmo personagem. A ditadura destruiu o projeto educacional de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, frustrou todas as promessas de um futuro mais civilizado.

“O exílio é uma aprendizagem, uma prova difícil de adaptação, mas qualquer pessoa pode se sentir no exílio em seu próprio país.” Você já se sentiu exilado no Brasil? Quem são os exilados em nosso país?

Milhões de brasileiros que vivem precariamente sonham em viver em outro país. Em 1905, quando Euclides da Cunha fez uma longa viagem à Amazônia, escreveu que os seringueiros eram “expatriados em sua própria pátria”. No romance há personagens que partem, sem desejar ir embora. E há também os que, mesmo constrangidos, preferem permanecer em seu lugar. São temas do Pontos de fuga. A própria literatura é uma forma de exílio.

“A cada 20 ou 30 anos Moloch troca de cara”, diz um dos personagens, o Nortista, em carta datada de 1980. “Serão novos tempos de errância, pesadelos em plena vigília, desonra do corpo e da mente. Ainda assim, háesperança, amargura e euforia, tudo misturado. O eterno ditirambo do Brasil. Violência, sofrimento, risadas. Promessas, imposturas...” A profecia do Nortista se concretizou?

O Nortista escreve em 1980, mas ele intuía, ou sabia que na história da nossa República a democracia é ameaçada a cada 20, 30 anos. Não houve no Brasil uma verdadeira revolução burguesa. A Revolução de 1930 foi uma reforma de setores da elite. Não houve mudanças profundas. As questões estruturais do Brasil não foram resolvidas em nenhum governo. Houve algumas conquistas na área social, na educação, mas os vícios e iniquidades permanecem vivos: o patrimonialismo, a violência, o mandonismo, o conluio vergonhoso entre os Três Poderes, o descaso por uma educação pública de qualidade, a falta de saneamento básico e de um projeto digno de habitação social.


“Como viver num tempo trágico e numa terra trágica?”, pergunta o Nortista. Você tem a resposta?

Não. Suponho que o Nortista tampouco tenha. Mas a ausência de uma resposta pode ser preenchida pela ficção, que não responde a nada, mas sempre indaga, com a perplexidade de quem entra num labirinto e não vê saída.


Pontos de fuga
termina com a chegada dos anos 1980. Quais características da década de 1970 acredita que foram representadas nos dois primeiros volumes de O lugar mais sombrio? E como a década de 1980 será enfocada na terceira e última parte da trilogia?

Os dois romances aludem a uma busca pelo sentido de vida de uma parte da minha geração. Uma parte pequena, porque a maioria dos jovens daquela época não participava do movimento estudantil nem estava ligada na política. O desafio para os personagens era lidar com a opressão do Estado e da família, e como enfrentar ou driblar essa opressão, sem nunca renunciar ao amor, que ocupa um lugar central nos dois romances. Como sempre, era a liberdade que estava em jogo, e isto serve para todo sistema autoritário, de qualquer matiz ideológico. Tentei encontrar uma forma que desse sentido à vida e à experiência histórica. As artes e a literatura sempre traduzem um anseio libertário, são movidas pelo devaneio e pela imaginação solta. A tribo de Brasília era formada por atores e atrizes, como se o teatro fosse a metáfora de um desastre inevitável.  Na verdade, a personagem Dinah é a única verdadeira atriz, no palco e na vida. O último volume é narrado por uma personagem feminina, que aparece no Pontos de fuga. Na história que ela conta, estão latentes o consumismo e o individualismo exacerbados dos anos 1980. É a época da ideologia triunfante de Thatcher e Reagan, cuja versão mais cruel e violenta na América do Sul foi o neoliberalismo do ditador Pinochet. Não por acaso o Chile está em chamas.
 
Pontos de fuga
De Milton Hatoum. Companhia das Letras. Número de páginas: 240. Preço sugerido: R$ 49,90. 

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