Publicidade

Correio Braziliense

Exposições em cartaz na cidade relacionam expressões e espaços públicos

Saiba mais sobre 'Arte para uma cidade sensível' e 'Teoria dos conjuntos'


postado em 27/10/2019 06:02

Berna Reale integra a exposição Arte para uma cidade sensível(foto: Berna Reale/Divulgação)
Berna Reale integra a exposição Arte para uma cidade sensível (foto: Berna Reale/Divulgação)

A obra de arte se relaciona com o público de uma maneira que extrapola, muitas vezes, a racionalidade. Contudo, mesmo atuando pelas percepções e sensações, as expressões artísticas também são políticas e revelam questões sociais e individuais; perfis coletivos e peculiaridades individuais; e se relacionam, direta ou indiretamente, com o espaço que ocupam. “A nossa sensibilidade é construída socialmente e politicamente e a arte atua nessa produção da sensibilidade urbana. Não são lugares só de passagem, de relações de pertencimento, de questões políticas e sociais, é simbólica”, afirma a curadora e artista Brígida Campbell.

Depois de uma pesquisa de doutorado que investiga a arte nos espaços públicos, Brígida apresenta em Brasília, no Centro Cultural TCU, um recorte de trabalhos de artistas e coletivos na exposição Arte para uma cidade sensível. Nome também de uma publicação sobre o assunto feita pela curadora. Da mesma forma, o fotógrafo carioca Bruno Veiga evidencia, em meio a padrões arquitetônicos do subúrbio de Budapeste, ocupações e expressões da individualidade humana na mostra Teoria dos conjuntos, em cartaz na Caixa Cultural.

Entre fotografias, vídeos, cartazes e instalações, Brígida selecionou um conjunto rico e diverso da produção artística contemporânea com nomes reconhecidos, inclusive, em premiações. Berna Reale, Grupo Empreza, Opavivará, Paulo Nazareth, Breno Silva e Louise Ganz e Ronald Duarte são alguns dos integrantes da exposição. “Comecei a questionar como a arte faz parte do fluxo da cidade e vai atuando nesses espaços simbólicos e nas diferentes realidades do Brasil. Como em cada cidade, como os artistas estão pensando e reagindo de maneiras distintas”, detalha. São obras de Belém, São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia, Salvador e Brasília, por exemplo, representada pela poesia urbana do Coletivo Transverso.

A partir da estética e da proposta artística de cada um, os trabalhos dialogam com o contexto dos espaços que ocupam e reverberam, de algum modo, ali. “Mais do que só fazer o trabalho no espaço público, como uma escultura que foi colocada em uma praça, por exemplo, é pensar ações que aconteçam pelo espaço e para o espaço, que englobem as dimensões de vivência na cidade, os modos de vida e as culturas urbanas. É pensar a cidade de uma maneira bem ampla”, diferencia a curadora. Analisando as obras expostas, é possível perceber como cada um entende, percebe e, principalmente, imprime sob um filme de fotografia, um vídeo ou uma instalação o ambiente.

Para exemplificar, ela cita o trabalho Cozinhas temporárias, feito por Louise Ganz e Ines Linke, a dupla Thislandyourland, a partir do mapeamento de comidas de quintal. A proposta coloca em debate o acesso à terra e aos meios de produção e distribuição dos alimentos, tanto no contexto urbano quanto rural. “É um trabalho simples, mas que fala da vida em comunidade, da dependência ao sistema de distribuição de comida. Uma ação poética e simples, mas que traz várias questões sobre como vivemos na cidade e como o artista pode, por meio do seu trabalho, provocar essas discussões”, conclui.

Teoria dos conjuntos

Fotos do carioca Bruno Veiga em cartaz na Caixa Cultural até 15 de dezembro(foto: Bruno Veiga/Divulgação)
Fotos do carioca Bruno Veiga em cartaz na Caixa Cultural até 15 de dezembro (foto: Bruno Veiga/Divulgação)


A relação do carioca Bruno Veiga com a rua, os contextos urbanos e a vida que cruza semáforos é longa. Tudo começou em 1984 quando atuou como fotojornalista para jornais como O Globo e Jornal do Brasil. Ao transpor as lentes para um viés mais artístico, anos depois, Veiga não perdeu o exercício de olhar a realidade. “Não é a forma como estou fotografando, mas o que estou fotografando, observando. Como repórter, fotógrafo, a gente entra na casa das pessoas muitas vezes por semana, isso é uma sorte. Nunca me desvinculei nem quero me desvincular da fotografia documental, do fotojornalismo, me formou, sou fruto disso. Então, saio andando, buscando o que fotografar. Tenho apenas uma vaga ideia de algum tema que me interessa”, conta.

Depois de percorrer os subúrbios da capital carioca, revelando nas imagens a religiosidade, o colorido e a singularidade de casas desconhecidas pelo público, Veiga dedicou-se a descobrir, entre tantos padrões, a delicadeza da vida humana. O fotógrafo estava em Budapeste, na Hungria, e encontrou na periferia da cidade conjuntos habitacionais populares construídos em meados do século 20. “A partir dali, me chamou a atenção naqueles prédios enormes, naquela proposta de arquitetura padronizada, muito árida, a expressão da diferença, da individualidade, da identidade. Coisas que são características humanas e necessidades que temos de mostrar quem somos”, relembra.

Em cada clique, é como se o fotógrafo congelasse o retrato de uma família ou de uma pessoa. A relação com a natureza, os objetos de decoração, as fotografias ao lado das xícaras. Mesmo quando retrata as portarias, Veiga mostra a relação daquelas pessoas com ambientes até então padronizados. Tem vida em cada foto. “As pessoas pensam que a expressão artística é um privilégio dos artistas. Os artistas apenas fazem disso uma profissão. Expressar o que você sente, o que você gosta, a sua hierarquia de valores éticos ou estéticos é inerente de todo ser humano”, afirma.

Com curadoria de Eder Chiodetto, a exposição Teoria dos conjuntos apresenta 32 fotos, sendo alguns múltiplos, montadas em formatos e suportes variados. Para Veiga, além da manifestação individual, ao trazer para uma galeria de arte as expressões encontradas em um subúrbio, ele reconhece os valores estéticos ali presentes. “Não é que todas as casas da periferia são iguais, mas existem características que se reproduzem em função de educação, de possibilidades econômicas. Perceber isso é importante, é sutil, é muito delicado”, pontua. Por fim, ele destaca que alguns olhares podem parecer banais, sobretudo, para aqueles em busca da luz perfeita e da fotografia incrível. “Depois de algum tempo, você começa a cansar disso e passa a buscar a essência das coisas. Quer desconstruir, limpar a coisa acrobática da foto. Faz muito sentido no conjunto”, finaliza.

Arte para uma cidade sensível
Curadoria de Brígida Campbell. No Centro Cultural TCU. Visitação até 14 de dezembro. De segunda à sexta, das 9h às 19h, e sábados, das 10h às 18h. Entrada gratuita.

Teoria dos conjuntos 
Do fotógrafo Bruno Veiga com curadoria de Eder Chiodetto. Na Caixa Cultural. Visitação até 15 de dezembro. De terça a domingo, das 9h às 21h. Entrada gratuita.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade