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Correio Braziliense

Diretor Bruno Barreto migra do cinema para a tevê com 'Toda forma de amor'

A série do Canal Brasil investe no submundo e nas mais diversas formas do amor


postado em 29/10/2019 09:09 / atualizado em 29/10/2019 13:48

Relações sólidas e outras bastante ocasionais se desenham no enredo da série que traz atores como Romulo Arantes Neto, Daniel Infantini e Gabrielle Joie(foto: Filipe Vasconcelos Vianna/Divulgação)
Relações sólidas e outras bastante ocasionais se desenham no enredo da série que traz atores como Romulo Arantes Neto, Daniel Infantini e Gabrielle Joie (foto: Filipe Vasconcelos Vianna/Divulgação)

O diretor Bruno Barreto, nome indissociável ao marco do cinema nacional Dona Flor e seus dois maridos (1976), definitivamente, tem a habilidade de não se acomodar. Exemplo disso está na série Toda forma de amor que, aos 64 anos, ele comanda para o Canal Brasil. Migrando do cinema para a tevê (e para plataformas alternativas de audiovisual), Barreto flui, abraçando uma série com generoso cardápio de temas: traz de bastidores da politicagem nacional a crimes motivados por ódio a travestis. Muito do burburinho de uma gama de personagens que protagoniza toda a sorte de prazeres sexuais vistos em Toda forma de amor se concentra em dois cenários: a democrática boate Trans World e sessões de terapia.

“A dramaturgia, na essência da palavra — conflito de personagens — migrou para a telinha do streaming. Lá, há personagens bem desenvolvidos e complexos, tramas em nada previsíveis, e há temas mais polêmicos”, explica Bruno Barreto, em entrevista ao Correio. Em meio ao grupo de 10 personagens de Toda forma de amor, as relações íntimas ocupam o pódio. “O sexo sempre está muito presente nas histórias que eu conto. Em todas as suas modalidades. Então, meu encontro com os personagens da série não poderia ter sido mais orgânico”, explica.

Toda forma de amor brotou de ideia do roteirista Marcelo Pedreira, há 11 anos. Àquela época, ele conta que bateu na porta de várias produtoras, com sucessivas negativas dado o tema. Para si, Pedreira reclama dose de pioneirismo no vislumbrar da efervescência das discussões sobre a diversidade sexual e questões de gênero, hoje tão em voga. “As abordagens ganharam centralidade até mesmo na arena política. Penso que foram muitas as conquistas para a comunidade LGBT nesta última década, especialmente para as pessoas trans, que sempre foram as mais estigmatizadas. Isso se deveu em grande parte à luta da própria comunidade trans, que se organizou e começou a reivindicar seus direitos”, comenta o roteirista.

Ao defender retratos de tipos que ressaltem a humanidade das pessoas, Pedreira percebe um ato político, “mas dentro do registro do afeto, e não da confrontação”. Sem ingenuidade, sabe da ameaça de retrocesso às conquistas de pessoas LGBT. Com infinitas representações de sexualidade, Toda forma de amor não tangencia a simplificação. “Diria que a série não veio nem para confundir nem para esclarecer, mas para emocionar e provocar empatia. A intenção não é pregar para os convertidos, mas romper a bolha do público LGBT e sensibilizar aqueles que nunca tiveram um olhar atento ou generoso para esse grupo”, comenta o criador da série.

Num mundo mais áspero e de perspectiva chapada, Pedreira crê que espectadores menos escolados estranharão as personagens trans. “Enquanto a personagem de Gabrielle Joie (a DJ Marcela) é absolutamente indistinguível de uma mulher cisgênera, e faz questão de passar como uma; a personagem de Wallie Ruy se define com uma mulher transgênera não binária, que se recusa a se encaixar nos estereótipos do que é o feminino. Temos ainda o mais singular de todos, que é o personagem do Eucir de Souza (Paulo), que é um homem heterossexual, casado com uma mulher, mas que gosta de se vestir de mulher. Ou seja, é um crossdresser”, comenta.

Toda forma de amor 
No Canal Brasil, minissérie em cinco episódios. Dia 30 de outubro, reprise do primeiro capítulo, às 22h30. Sexta, às 22h30, segundo episódio.


(foto: Filipe Vasconcelos/Canal Brasil)
(foto: Filipe Vasconcelos/Canal Brasil)

Entrevista // Bruno Barreto


No campo da diversida de suas obras, entre as quais Flores raras e Crô: o filme — e, agora, há a nova série Toda forma de amor — têm nuances, sutilezas? Percebe uma escalada, quando aborda temas delicados?
Todo tema é delicado para mim, sobretudo a comédia — o gênero mais difícil. Delicadeza para mim é sinônimo de complexidade. Por isso, sempre dou mais importância ao subtexto, ao que não é dito, às entrelinhas.


Você viveu a época da censura, mas conseguiu proezas de injetar denúncia e erotismo nos anos de 1970 e 1980. Há paralelo possível com o cala-boca econômico ou de desestruturação do modelo audiovisual que atualmente é percebido?
Apesar de haver leitura de algum aspecto inclinado à denúncia, em alguma das minhas obras, essa nunca foi minha intenção, e nunca será. Para mim, a arte deve estar sempre acima de qualquer engajamento ou militância. O erotismo é apenas um dos elementos chave nos personagens que despertam minha curiosidade, e, por isso, quero investigá-los nas histórias que conto. Quanto ao cala boca econômico, acho que ocorreu também nos governos do PT. Um dos meus filmes mais elogiados pela critica internacional, que participou de vários festivais ao redor do mundo, Última parada 174, teve o apoios da Petrobras e do BNDES negados durante três anos seguidos.


Mas haveria padrão de cerceamento?
A única diferença é que eles — no caso, o PCdoB, a quem coube a área cultural dos governos do PT — não declaravam isso. O Última parada 174 só foi feito graças a um investidor privado em São Paulo que leu uma nota na imprensa dizendo que a produção do filme ia parar porque a Petrobras acabava de negar pela terceira vez apoio à produção, e ele resolveu investir a quantia que estava faltando, dado o gosto que tinha pelos meus filmes. Um erro não justifica o outro, mas agora, no governo atual, a justiça pode reverter, porque a tentativa de cala-boca foi às claras, transparente.


Fica parecendo sonho ou subversão adotar um prisma “a favor” das causas e dos impasses da comunidade LGBT, uma vez que articulação e políticas coordenadas parecem longe da realidade?
Sou completamente contra editais temáticos, como sou contra usar causas como tema. Essa postura não tem nada a ver com a atividade criativa. Isso se chama dirigismo cultural, não importa o sinal que está sendo usado — venha ele de esquerda ou de direita. Acho que todos os tipos de temas devem ser contemplados. Quanto mais diversa for a arte, melhor ela será.


Falta entendimento, e prevalece ignorância, quando se investe mais a fundo no entendimento de anseios LGBT?
Toda forma de amor não é de maneira nenhuma uma série LGBT, mas sim uma história sobre as várias formas de amar. Os personagens são complexos, e têm anseios muito convergentes com o main stream: amar e serem amados. Por isso, acho que essa série pode ter uma audiência vasta e diversa, transbordando do nicho no qual os personagens aparentemente se inscrevem.


É temerário meter a mão em cumbuca e “atacar” conservadorismo religioso? Você torce por algum personagem em especial na série? Qual deles incita maior reflexão na sua opinião?
O que eu, como diretor, mais me preocupei, foi com que espectadores sentissem empatia com todos os personagens, em diferentes momentos. Para mim e o Marcelo Pedreira — criador e roteirista da série — era muito importante que o espectador “liberal”, em algum momento, até concordasse com alguma coisa que o personagem “conservador” — o pastor evangélico — dissesse. Essa postura de humanizar, até os personagens aparentemente desumanos, está sempre presente nos meus filmes. O personagem do torturador no O que é isso, companheiro? — interpretado pelo Marco Ricca — era humanizado. Acho desonesto manipular o espectador, tomar partido. Sempre tento mostrar todos os personagens dos mais variados ângulos para que pessoas façam seus julgamentos.

 
(foto: Canal Brasil/Divulgação)
(foto: Canal Brasil/Divulgação)
 


Duas perguntas // Marcelo Pedreira



A terapia ocupa boa parte do enredo da série Toda forma de amor. Por que você acredita que os espectadores estejam tão interessados?
Como cantou Caetano Veloso, “de perto, ninguém é normal”. Quanto mais complexo o ser humano se percebe, e se permite assim existir, mais desafiador se torna a integração desses novos aspectos, que ameaçam suas já estabelecidas identidades. Na série, duas mulheres trans, um homem crossdresser e uma drag queen fazem terapia de grupo com uma psicóloga lésbica, que também lida com suas próprias questões de gênero. O que acontece hoje em dia é que cada vez mais pessoas se recusam a viver em camisas de força identitárias, e procuram uma expressão mais legítima de suas individualidades. E a terapia se torna um local quase alquímico para a construção dessas novas subjetividades.


Quais os ganhos de ter artistas trans na tela?
Para mim, era fundamental que as personagens trans fossem interpretadas por atrizes trans. Não porque acho que uma atriz cisgênera não possa interpretar uma personagem trans. Mas acho necessária uma espécie de reserva de mercado. A sociedade tem uma grande dívida com as pessoas trans, pois durante décadas seu preconceito empurrou essas pessoas para a prostituição como única forma de sobrevivência. Precisamos ver pessoas trans nos bancos escolares, nas universidades, no mercado formal de trabalho e também como protagonistas na cultura. Fico imaginando como deve ser importante para jovens mulheres trans verem a Gabrielle Joie protagonizando uma série de tevê e brilhando em Bom sucesso, pois até pouco tempo essas jovens não tinham nenhuma referência positiva para nortear suas vidas. Em Toda forma de amor, temos também a talentosíssima Wallie Ruy, que é integrante do Teatro Oficina em São Paulo; há Daniella Glamour Garcia que rouba a cena na novela A dona do pedaço, e podemos sublinhar o destaque de Renata Carvalho, com êxitos teatrais.

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