Publicidade

Correio Braziliense

Nos cinemas, 'A odisseia dos tontos' fala sobre a ditadura do consumo

À frente do longa argentino pré-candidato ao Oscar, o diretor Sebastián Borensztein critica a dinâmica de fazer o povo de bobo


postado em 04/11/2019 08:16 / atualizado em 04/11/2019 08:17

O grupo de injustiçados em A odisseia dos tontos tem como mobilizador o personagem de Ricardo Darín(foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação)
O grupo de injustiçados em A odisseia dos tontos tem como mobilizador o personagem de Ricardo Darín (foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Uma consciência política sempre gritou, quando os filmes argentinos conquistaram prêmios na cerimônia do Oscar, como demonstram os casos de A história oficial e O segredo dos seus olhos, ambos com enredos que revolviam o período da ditadura. Filho do comediante Tato Bores, um símbolo das comédias afiadas no teor crítico, o diretor Sebastián Borensztein esteve no Brasil para promover o lançamento A odisseia dos tontos — em cartaz na cidade e pré-selecionado para disputar representação no Oscar 2020 — que, metaforicamente, fala de ditadura: a do consumo.

Concentrado em episódio decorrente da falta de acesso às economias, com o famoso corralito imposto aos argentinos nos anos 2000, A odisseia dos tontos dá sequência à bem-sucedida carreira do mesmo diretor de Um conto chinês (2011), vencedor do prêmio Goya de melhor filme ibero-americano, e de Kóblic (2016), estrelado também por Ricardo Darín, e que tratava dos desaparecimentos de cidadãos nos voos da morte (onde corpos eram arremessados ao mar, na ditadura). Tema do filme de estreia de Borensztein na telona (com O poder da urucubaca), o desemprego também dá as caras em A odisseia dos tontos.

Um dos produtores do longa, Federico Posternack, em entrevista ao Correio, lembrou dos efeitos sofridos com o corralito. Fiquei sem trabalho, mesmo nos meses que precederam o corralito. Meus pais ficaram sem casa, enquanto minha avó perdeu todas as economias. Ainda assim, acho que não foi nosso pior momento: foi uma crise estendida, mas foi antecedida e deu origem a muitos episódios de crises para os argentinos”, defende. Posternack — autor do roteiro do recente A memória e depois, documentário sobre uma das Mães de Maio, torturada ainda pelo regime nazista — ressalta que os argentinos praticamente se acostumaram a viver de crise em crise, como a que assola o país atualmente. “Nos reinventamos e pagamos a conta. Os golpes são duros e deixam rastros”, diz ele, um profissional de extrema importância para A odisseia dos tontos conduzida por Sebastián Borensztein.

Entrevista // Sebastián Borensztein 

 

Sebastián Borensztein: entretenimento movido à política(foto: Cauê Diniz/Divulgação)
Sebastián Borensztein: entretenimento movido à política (foto: Cauê Diniz/Divulgação)
  

Como vê a repercussão do longa e é difícil falar para trabalhadores que atualmente têm dificuldade de frequentar as salas de cinema?
A odisseia dos tontos é um filme que interessa a toda a sociedade. Não se restringe aos operários, ao povão. O filme se baseia numa tragédia coletiva. Foi um acontecimento que atingiu a pessoas das classes mais baixas e, igualmente, à elite. O conjunto de personagens representa muitos estratos que vivem num ciclo rural. Falamos dos ribeirinhos e, ao mesmo tempo, nos interessamos por uma empresária do ramo dos transportes. Quanto à reação do público, o filme segue em exibição na Argentina, com mais de 1,07 milhão de espectadores. Esse dado é revelador: comprova que, para alcançar essa faixa, é necessário atingir todos os espectros de público.

O povo argentino segue investindo no conhecimento dos livros? Digo, pelo fato de A odisseia dos tontos estar baseado em texto de Eduardo Sacheri, autor de roteiros ao lado do vencedor do Oscar Juan José Campanella (O segredo dos seus olhos e Um time show de bola)...
Não sei exatamente como funciona a indústria dos livros atualmente. Digo, em termos de números, não teria a dimensão. Eduardo Sacheri é, sim, muito popular e escreve sobre assuntos de interesse diversificado. Há quem o considere uma espécie de sucessor de Osvaldo Soriano (morto em 1997). Livros me capturam pelo tipo de história que desenvolvem. Gosto de usar os livros como ferramenta de estudo — perpassando o mero entretenimento.

Você fala de reação ao poder, a exemplo do blockbuster Coringa. Há paralelo possível?
Está acontecendo uma coisa muito particular no mundo. Com nosso filme, por exemplo, os personagens se encarregam de dar um basta. Fazem como podem. Ao redor do mundo, cada qual, à sua maneira, tem buscado dar um basta. Em 2001, no auge dos protestos argentinos, as pessoas não saíram ateando fogo no país. As pessoas recorreram aos panelaços e foram, sim, bater na porta dos bancos. Vigoraram protestos e insultos. São realidades diversificadas. O painel é diferente em relação ao do Chile. Em Coringa, acho que prepondera uma metáfora de como os poderosos têm por hábito tratar os mais fracos. O filme revela o resultado de tanto desprezo acumulado. O protagonista tem problemas de dente, problemas familiares, restrições financeiras e distúrbios mentais e de personalidade — e ainda recebe, a todo instante, pontapés.

Qual a grande diferença em relação à mobilização retratada no seu filme?
Nosso filme também fabula. O de Hollywood tem situações irreais, embebidas no gótico. Em A odisseia dos tontos, o retrato é de um grupo que, como visto em O incrível exército de Brancaleone, não está minimamente preparado para afrontar os que pensam que tudo podem. Não passa pela cabeça deles operar na violência e, do mesmo modo, não ambicionam deixar de viver com a simplicidade em que vivem, de modo pacífico. De repente, querem assumir uma ousadia de não se deixaram mais serem colocados para trás. Tomam as rédeas e optam por fazer justiça com as próprias mãos. Cada um se manifesta como pode: cada um tem seu modo de dizer basta!

Como viu a eleição recente no seu país e o que percebeu na ausência de cumprimentos (ao eleito peronista Alberto Fernández) por parte do presidente Bolsonaro?
Não intenciono entrar em controvérsia internacional, opinando sobre os presidentes brasileiro e argentino. Eu não consigo estabelecer o paralelo entre o contexto vivido por Perón e o do nosso atual presidente. Não desejaria ser um analista político. As eleições transcorreram em clima normal. A Argentina deu uma resposta democrática bem interessante. Vi com entusiasmo a fotografia do atual presidente Mauricio Macri estendendo a mão para o futuro. São solidários, democráticos e têm passos que abrem caminho para a transição. Vejo que aqui há civilidade e tudo anda no eixo.

Fale, por favor, do encontro em cena dos atores Ricardo Darín e Luis Brandoni...
É um grande encontro de dois imensos atores. Eles deram muita potência para a história. Trouxeram muito caráter aos personagens interpretados. Espalharam alegria para todos da equipe: conheço e gosto muito de ambos. Bradoni tem a trajetória de quem chegou aos 80 anos. Batalhador, ele demonstra que o cinema não é feito apenas de jovens. Valores e talento independem de idade. Faço questão sempre de criar personagens mais velhos — não podemos dispender o talento e penalizar as pessoas pelo simples fato de que tenham vivido mais.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade