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Correio Braziliense

Leno Sacramento apresenta 'Nas encruza' no Espaço Cultural Renato Russo

A apresentação é sexta e sábado, às 20h


postado em 06/11/2019 08:25 / atualizado em 06/11/2019 10:18

O ator baiano Leno Sacramento apresenta, desde 2017, monólogos, com poesia, corpo e gestos para falar da violência contra a população negra(foto: Heraldo de Deus/Divulgação)
O ator baiano Leno Sacramento apresenta, desde 2017, monólogos, com poesia, corpo e gestos para falar da violência contra a população negra (foto: Heraldo de Deus/Divulgação)
 
No palco, cadeiras vazias aguardam o público para compor o tribunal das ruas. Organizados em círculos, os móveis voltam a atenção para um banco no centro da roda. Ali, um corpo negro será julgado como réu. A trilha sonora é composta por ruídos do dia a dia, briga de vizinhos, latidos de cachorro, encadeados por poesia e relatos verídicos de moradores negros de Salvador. “O olhar e a língua matam mais que a bala”, resume o ator Leno Sacramento, 44 anos.

Artista baiano reconhecido por trabalhos ligados ao universo da comédia, entre eles a atuação tanto no longa como na série Ó pai, ó, Sacramento volta a Brasília com o espetáculo Nas encruza. Pela segunda vez, o ator entra em cena sem o humor que lhe é tão natural e espontâneo. “Não dá para ficar sem falar das coisas, já que elas estão acontecendo”, justifica. 

Nas encruza dá seguimento à peça En(cruz)ilhada, estreada em 2017, que fala sobre o genocídio de negros. “O Nas encruza também é um monólogo que toca nesse assunto, mas faço um recorte e falo da solidão da bicha preta e da intolerância racial que atinge as religiões de matrizes africanas”, detalha o ator. Em cena, é o corpo expressivo de Sacramento que coloca em debate, cercado pela plateia, questões ligadas ao racismo, à homofobia, à intolerância e ao extermínio do povo negro

Tido como um divisor de águas em sua vida, o espetáculo é intenso, porém poético. Um monólogo que toca em questões humanas e sociais sérias. Em nenhum momento, Sacramento usa a própria voz. Apenas, corpo e gestual para transmitir emoções. “Poesias de pessoas locais, preto e pretas de Salvador e alguns depoimentos verídicos gravados movem meu corpo e as ações”, descreve o artista. “Ele parece um monólogo, mas não é. Não estamos sós. Contamos com a poesia de Maiara Silvia, Roquildes Júnior, Jairo Pinto, a minha e um relato real de Kadan Lopes. Não se esquecendo do figurino de Agamenon de Abreu, grafite e textura no figurino de Marcos Cabuloso”, acrescenta.

Desde que deu início à temporada de Nas encruza, o baiano se apresentou, além de Salvador, por capitais como São Paulo, Belo Horizonte e, agora, Brasília. No começo, ele confessa que sentiu certo receio. Sobretudo um medo de comparação com o primeiro espetáculo que teve uma repercussão positiva. “Quando ligamos as luzes do teatro, vemos as pessoas chorando, negros e brancos, entendo o que estamos abordando e percebemos que subestimamos os símbolos, as vozes. A gente só faz perguntas, a gente não responde”, comenta. “Deixamos que as pessoas imaginem e reflitam”, complementa.

O que poucos — ou quase ninguém da plateia — sabem é como aquela dramaturgia teve início na vida de Sacramento. Era 1996, e o então aluno de capoeira do mestre Jorge Satélite realizou uma audição para o Bando de Teatro Olodum, nas áreas de capoeira e dança. O jovem logo foi escolhido para participar da peça Erê pra toda vida, que traz um relato do massacre da Candelária. “Daí, me convidaram para continuar, e foram 23 anos de bando. Ali, aprendi várias coisas. Entrei ‘moreno’, machista, homofóbico e intolerante às religiões de matriz africana. Aprendi a ser preto de fato, a ter paciência com as pessoas, da mesma forma que elas tiveram comigo. Foi o grande carro-chefe da minha vida. Virou minha família”, conta o ator.

Sacramento atuou em peças como Ópera dos três mirréis, Ópera dos 3 reais, baseadas em A Ópera dos três vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, além de Cabaré da RRRRaça, Ó paí, ó!, Besouro, Cidade baixa e Jardim das folhas sagradas. Durante muito tempo e até hoje, o artista deixou que o lado extrovertido, engraçado, que faz graça no decorrer da entrevista, falasse mais alto. “Tudo o que eu falo é assim”, comenta aos risos.

Contudo, uma reação se fez necessária e falou mais alto, lhe chamando para uma atuação mais incisiva. “Sinto como uma obrigação, uma função de diminuir essas balas em nossa direção. É preciso parar de ver corpos negros no chão”, pontua. Mesmo que mantenha trabalhos na área do humor, usa a linguagem para chamar a atenção das pessoas. “Brincamos para falar a verdade”, explica.

Uma experiência pessoal também foi determinante nesste processo. Em 2018, Sacramento chegou a ser baleado durante uma ação policial no centro de Salvador, após ser confundido com um assaltante. “Ainda fico muito assustado. Não tive muitas sequelas, apesar de a bala ter atravessado de um lado ao outro da minha perna. Sou muito privilegiado pelos deuses e orixás, que me reconheceram. Fico pensando em outras pessoas, onde acabam, como são tratados e vão a óbito. Esse espetáculo passou a ser minha terapia. Costumo dizer que o abraço salvou minha vida, foi o remédio da minha vida. Os pretos me recuperaram”, finaliza.
 
 

Nas encruza

No Espaço Cultural Renato Russo. Sexta-feira (8/11) e sábado (9/11), às 20h. Ingressos: R$ 30. Não recomendado para menores de 14 anos.

Duas perguntas // Leno Sacramento

Em Brasília, o ator apresenta o espetáculo 'Nas encruza' sobre racismo, homofobia e intolerância racial(foto: Alonso Natureza/Divulgação)
Em Brasília, o ator apresenta o espetáculo 'Nas encruza' sobre racismo, homofobia e intolerância racial (foto: Alonso Natureza/Divulgação)

Você tem levado os trabalhos para as escolas, terreiros, praças, comunidades e cidades completamente diferentes. Por que essa iniciativa?

Acho pertinente, é preciso abrir os olhos das pessoas. A arte salva, isso é um fato. É preciso cultuar a arte. Estar em Brasília tem um peso de resistência.


Quais são os principais desafios dos negros no atual momento?

O primeiro desafio é fazer com que o Mês da Consciência Negra não seja suficiente para mostrar toda a nossa cultura. Nem um dia nem 30 dias. É o tempo todo, o ano todo. Acredito que é muito pouco para falar de uma cultura inteira, dos instrumentos, das danças, das comidas. O outro desafio, é fazer os brancos conscientes. O problema não está no preto, e sim no branco. Consciência negra dá uma sensação de que a gente tem que estar consciente, mas eles que têm que estar. Eles que são os donos das empresas, da voz. 

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