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Correio Braziliense

'Dogville' está em cartaz no CCBB com Larissa Maciel e Fernanda Thurann

Abuso, intolerância e falta de empatia são temas da peça, em cartaz até o dia 24 de novembro


postado em 06/11/2019 07:00 / atualizado em 06/11/2019 08:53

Em 'Dogville', os habitantes perdem o controle de seu lado sombrio(foto: Renato Mangolin/Divulgação)
Em 'Dogville', os habitantes perdem o controle de seu lado sombrio (foto: Renato Mangolin/Divulgação)

É possível desconfiar da bondade de Grace desde o início, mas o fato é que logo nos adaptamos e aprendemos a admirá-la. A protagonista de Dogville, como diz seu próprio nome, é a dádiva, uma espécie de salvação. Ou, pelo menos, é nisso que o público acredita durante quase duas horas. Mas há um ciclo a ser cumprido por Grace, e essa trajetória fascinou Larissa Maciel desde o início. Na pele da personagem, ela se deparou com as dualidades da alma humana e, sobretudo, com a pergunta “o que você faria?”. “Grace é a graça, o ideal de bondade, uma pessoa que tem uma empatia extrema, que se coloca no lugar do outro, que se pergunta por que a pessoa fez aquilo e descobre sempre um jeito de aceitá-la e perdoá-la”, conta a atriz. “E isso vai tomando proporções além dos limites. Para mim, ela é isso, e a peça é um ciclo: ela sai de um lugar de onde queria fugir, tem uma trajetória extremamente dolorosa e difícil para acabar voltando para o mesmo lugar.”

Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de quinta a domingo até 24 de novembro e com direção de Zé Henrique de Paula, Dogville também tem produção e atuação de Fernanda Thurann. Responsável por Liz, a mulher mais jovem da cidade e também a mais assediada, Fernanda conta que, quando soube da ideia de Zé Henrique de adaptar para o teatro o longa de Lars von Trier, lembrou-se imediatamente do filme e costurou uma relação com a contemporaneidade. “Ele lida com o ser humano sem ser taxativo, de ‘isso é certo ou é errado’. Ele te dá o panorama: isso pode acontecer, isso acontece. Você sai de lá pensando ‘eu poderia ser essa pessoa’. Dependendo da situação que tivesse, poderia agir dessa maneira”, diz.

No palco, as duas mulheres interagem em situações de admiração, ciúme e competição, comportamentos que, pouco a pouco, tomam dimensões cada vez maiores e catastróficas. Depois de chegar a Dogville como forasteira, Grace precisa enfrentar os habitantes da cidade para convencê-los a aceitá-la. Aparentemente, ela foge de alguma ilegalidade que nunca é revelada. Aos poucos, oferece seus serviços à população e passa a conquistar a amizade de todos, mas as coisas saem de controle à medida que a personagem se entrega. Quando isso acontece, é o lado sombrio da alma humana que passa à frente da bondade de Grace, abusada e violentada de todas as maneiras.

A intolerância e a violência psicológica se instalam em Dogville e impedem seus habitantes de enxergar em perspectiva. A empatia se dissolve, a cada um mergulha em seu próprio lado sombrio. Na visão de Larissa e Fernanda, a cidade fictícia de Lars von Trier pode não existir de fato, mas há reflexos dela por todos os lados e em todos os tempos da história humana.

Se o filme é de 2003, a história se passa nos anos 1950. “Quando pensamos em transpor para o palco, o que me veio foi que a gente precisava falar da luz e da sombra”, conta Fernanda. “A Grace traz isso à tona. É fácil falar ‘o planeta está assim por causa de fulano’, ‘a economia, por causa de beltrano’. Espera aí! Eu também tenho parte nisso. Enquanto sociedade, ninguém faz nada sozinho, a gente tem que parar de apontar o dedo e ver onde pode consertar e ajudar.” Em Rogéria, senhor Astolfo Barroso Pinto, do diretor Pedro Gui, Fernanda vive a mãe da travesti, uma mulher muito religiosa, mas também muito aberta às opções do filho. “A Rogéria não levantava nenhuma bandeira, ela era a bandeira. E calhou de ser um momento perfeito para lançar o filme no cinema. Ela exercia a liberdade dela e a maneira de contagiar as pessoas era exatamente sendo quem era. Se achavam bom ou ruim, ela não se importava”, diz a atriz.

No caso de Larissa, Grace se junta a uma miríade de personagens que ela vem interpretando nos últimos anos e que a fazem refletir sobre a postura individual de cada um e a empatia. Em 2018, a atriz encerrou um contrato de sete anos com a Record. Foram cinco novelas e uma minissérie, boa parte delas com histórias bíblicas. Durante esse tempo, Larissa se afastou dos palcos e do cinema.  “Fiquei sete anos na Record, fiz muita coisa legal, mas acho que fechei um ciclo. Estava sentindo necessidade artística de fazer outras coisas. E a Record está num caminho que tem feito mais novelas bíblicas. E eu estava com muita vontade de voltar a fazer teatro”, revela a atriz.


Dogville
Direção: Zé Henrique de Paula. Com Larissa Maciel, Fernanda Thurann, Alexia Dechamps, Blota Filho, Eric Lenate. De quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 19h, até 24 de novembro, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB - SCES, Trecho 2). Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)



Três perguntas // Larissa Maciel


Larissa Maciel: o poder revela o comportamento das pessoas(foto: Ale Catan/Divulgação)
Larissa Maciel: o poder revela o comportamento das pessoas (foto: Ale Catan/Divulgação)

Você viveu Maysa, depois todos esses personagens bíblicos nasnovelas da Record e agora a Grace. Sente saudades da Maysa depois de tanto tempo fazendo papéis bíblicos?
Vou falar por mim, porque cada ator tem seu processo e sente de um jeito. Sinto muita saudade de cada personagem que faço, para mim parece uma amiga. Ainda mais novela, porque é uma pessoa com quem fiquei dividindo meu tempo. Você passa oito, nove meses, dois anos, no caso de Os dez mandamentos, vivendo uma vida. É diferente do teatro, em que você faz um pedaço da vida. Tenho sempre a impressão de estar com uma amiga que ficou em algum lugar do mundo, do universo. Quando acaba tem um luto, dou uma sofrida, passo uma semana bem difícil. Sou de escorpião, sou uma pessoa intensa, vou fundo no negócio.


Que atualidade há na peça?
Acho que a questão do poder é muito forte. Quando você tem poder, como se comporta? O que você faz quando o poder está na tua mão? Você pode olhar por vários prismas, mas essa questão em relação à Grace e aos moradores, para mim, é o eixo mais forte do poder. Você tem o poder na mão e escolhe respeitar a outra pessoa. Ou você tem o poder na mão e resolve ultrapassar limites porque o poder é seu. Até onde você ultrapassa limites porque o poder está com você? O mundo gira, né? O poder, uma hora, está na mão de um; outra hora, na mão de outro. E como você se comporta quando está com o poder vai dizer muito sobre o que vai acontecer com você quando não estiver, porque esse momento vai chegar.


E o que a Grace te diz sobre o ser humano?
Que o ser humano é complexo. Eu tenho muita empatia e vivo minha vida assim, educo minha filha assim, na minha família somos assim, a gente lida com o mundo desse jeito. Não aguento ver uma injustiça, procuro sempre olhar de fora, não julgar as pessoas sem conhecer a circunstância, mas tenho, dentro de mim, o que acredito ser o certo e o errado. Não significa que seja o certo e o errado. Vivo de acordo com o que acredito. E não tem nada melhor que fazer o bem. Não entendo as pessoas que escolhem fazer o mal. Vamos falar de internet: não consigo entender as pessoas que escolhem usar o seu tempo, que é o que a gente tem de mais precioso, que é o que acaba, para ir à internet atacar alguém.

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