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Correio Braziliense

Em palestras em Brasília, Yuval Noah Harari fala sobre ameaças à humanidade

O historiador e filósofo israelense Yuval Noah Harari fez duas apresentações na cidade


postado em 07/11/2019 19:46 / atualizado em 08/11/2019 10:41

Os maiores desafios do século 21 residem na inteligência artificial e em como ela está revolucionando a sociedade planetária. Como os governos e as sociedades lidam com isso vai conduzir a humanidade a um novo patamar. Ele pode ser catastrófico. Ou não. Em palestra realizada nesta quinta (7/11) no Instituto Serzedelo Correa no encerramento da 5ª Semana de Inovação, realIzada pela Escola de Administração Pública (Enap), o israelense Yuval Noah Harari falou para um auditório lotado sobre os desafios apresentados pela tecnologia no século 21. Mais cedo, ele também falou na Câmara dos Deputados em uma sessão de perguntas e respotas para autoridades e convidados. 
 
Yuval Noah Harari:
Yuval Noah Harari: "a maior luta do século 21 será contra a irrelevância" (foto: Rômulo Juracy)


 
Autor de Sapiens, Homo Deus e 21 lições para o século 21, Harari, que também é professor da Universidade Hebraica de Jerusalém (Israel), se tornou uma celebridade do pensamento contemporâneo ao trazer para a pauta internacional a discussão sobre o impacto da inteligência artificial no futuro da humanidade. 

Esse impacto, ele explica, já chegou e as decisões governamentais tomadas a partir de agora para problemas como a ameaça nuclear, o controle da informação, as mudanças climáticas e a automação vão determinar como a humanidade irá viver nas próximas décadas.

Para começar, Harari retomou uma ideia esboçada nos dois últimos livros de que a tecnologia vai criar uma massa de pessoas sem utilidade. A tecnologia está mudando todas as profissões e criando outras, por isso as capacidades de se reinventar e aprender rapidamente vai determinar quem será ou não relevante no mundo. “Não é que vamos ter uma revolução de inteligência artificial em 2020 e que teremos alguns anos para nos adaptar, ela já está acontecendo agora. E os novos trabalhos que estão surgindo vão mudar constantemente. As pessoas vão precisar se reinventar a todo momento”, explicou, para lembrar que o estresse psicológico dessa dinâmica pode não ser suportável para muitos. 

Esse novo cenário, segundo Harari, vai criar uma massa de pessoas sem utilidade do ponto de vista dos sistemas financeiro e econômico. “Se a maior luta do século 20 foi contra a exploração, a maior luta do século 21 será contra a irrelevância” disse. “Por isso os governos têm que proteger as pessoas.” No entanto, a concentração de riqueza e poder na mão de poucos bilionários pode fazer com que a inteligência artificial crie, também, uma desigualdade sem precedentes no planeta.

Informação, lembra o filósofo e historiador, será portanto o bem mais valioso desta era. Se antes a terra e as máquinas constituíam as maiores riquezas, e por isso o homem passou décadas regulando essas áreas , hoje o valor da informação ultrapassa todas elas. Por isso, ele insiste, é preciso que os governo se debruçem sobre legislações e regulamentos para que os cidadãos não sejam manipulados. Na equação de Harari, a soma do controle da biologia humana com o poder digital e da informação resultará no hackeamento de humanidade. “É possível criar algoritmos que nos conhecem melhor que nós, que podem nos hackear e manipular nossos sentimentos e nossos desejos. E eles não precisam ser perfeitos, apenas nos conhecer melhor. E isso não é difícil porque muitos de nós não se conhece muito bem”, disse o historiador, ao ilustrar com a própria história. Harari contou que, até os 21 anos, não sabia que era gay, mas tinha certeza que o algoritmo certo teria percebido antes dele. Esse tipo de controle pode, ele apontou, ser muito nefasto e resultar em ditaduras digitais fatais para a humanidade. “Se você tem informação suficiente, pode controlar um país”, lembrou.  

Em seguida, ele apontou que a solução para isso deveria ser global, porque a ameaça é global. Em vez das ondas nacionalistas que assolam o mundo e apontam a globalização como um inimigo, Harari defende que é preciso união entre os governos para evitar que as grandes corporações tomem posse das informações, o bem mais valioso do século 21. “Precisamos de um acordo global”, defendeu. “E isso é possível. Não construindo muros, como está na moda, mas construindo confiança. No entanto, estamos na direção oposta neste momento.” O nacionalismo, ele garante, não é o oposto da globalização. Para o historiador, os dois andam juntos porque se trata de sobrevivência. O nacionalismo que divide os cidadãos de um país — e ele citou os Estados Unidos como exemplo, ao dizer que não conhece suficientemente a situação política do Brasil para usá-lo como exemplo —, Harari acredita, não é nacionalismo.  

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