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Correio Braziliense

Programa de rádio leva mensagens de força e promove artistas locais do rap

'Liberdade Hip-Hop' comemora neste sábado (9/11) uma nova fase a partir das 14h, no ginásio do bairro São Francisco, com uma programação extensa de shows


postado em 09/11/2019 11:21 / atualizado em 09/11/2019 16:44

Jota Mix comanda o programa 'Liberdade Hip-Hop', focado na cultura da quebrada(foto: Nanah Farias/Divulgação)
Jota Mix comanda o programa 'Liberdade Hip-Hop', focado na cultura da quebrada (foto: Nanah Farias/Divulgação)

Enquanto a música de um artista independente de hip-hop toca ao fundo, um letreiro colorido pulsa na tela com as palavras “Liberdade, a rádio show da cidade”. Acaba a música, e a voz do rapper de São Sebastião Negro A anuncia um evento para o fim de semana, seguido de mais duas agendas semelhantes dos rappers Gonagas (Imagem de rua) e Siddim (Alfa Rap). Essas imagens fazem parte de um vídeo disponível na página do Facebook que destaca a ação desses comunicadores para entreter e informar o ouvinte, que pode estar em casa, no carro, ou mesmo grudado em um radinho numa cela da Papuda, ali perto. O programa de rádio é aos sábados e domingos entre as 18h e as 22h.

Ao sintonizar a frequência 98,1, o ouvinte se depara com mensagens como: “Pai. Tô morrendo de saudade do senhor. Tô bem graças a Deus, se preocupa não que tá tudo bem. Semana que vem vou te visitar. Já deu tudo certo. Te amo”. A mensagem enviada para o radialista, via WhatsApp, é da filha de um dos milhares de homens presos no Complexo Penitenciário da Papuda, situado a poucos quilômetros do perímetro urbano de São Sebastião, onde funciona a rádio comunitária que transmite o programa. Em outra mensagem, uma filha conta para o pai como anda o processo dele. Outro participante, um rapaz, manda “um salve pros manos” e oferece para eles um som do rapper ceilandense Hungria.

Quando o programa começou, lá pelos idos de 2003/2004, ainda não se chamava Liberdade Hip-Hop nem era apresentado pelo locutor Jota Mix. As coisas foram acontecendo por acaso. Jota foi conhecer, por mera curiosidade, o estúdio onde outro locutor comandava um programa semelhante. Pouco tempo depois, o colega acabou saindo do programa e, a convite do proprietário da emissora, Jota assumiu o programa. “Na época, eu era apenas um tocador, conta”.

Casualmente, também, começaram a surgir os primeiros pedidos, de moradores de outas cidades, para mandar recados aos parentes detentos. “O apenado ouve o programa, acha interessante. Tô mandando um alô pra ele’”, conta. “A princípio, fiquei meio receoso, mas depois vi que era uma coisa natural, positiva pra eles”, conclui.

Jota conta que já chegou a receber entre 40 e 60 recados por programa, e, numa situação, até 200. Para as famílias, é uma maneira de expressar amor e saudade. Para os internos, às vezes, é única comunicação com o mundo exterior. E para os artistas locais, que tocam suas músicas e dão entrevistas, é uma forma eficiente de divulgação e pertencimento comunitário.

A rádio, até este ano, não contava com qualquer apoio financeiro. “O que me mantém apenas é o gosto, o prazer de ajudar as pessoas, relembrar canções antigas e mostrar as canções atuais do movimento hip-hop. Financeiramente, eu não ganho nada. Apenas o carinho e o respeito das pessoas às quais o programa ajuda bastante, que, no caso, é o apenado. Isso contribui bastante, com um programa social”, conta o locutor que também é um antigo militante das causas sociais da cidade.

Se fosse uma rádio comercial, não daria pra fazer esse tipo de trabalho. Mas como é uma rádio comunitária, que fala a linguagem da comunidade, a gente tem essa liberdade. Tem apenados que já saíram e entraram em contato comigo agradecendo. Lá dentro, ele não tem muito que fazer, então uma palavra amiga, um som que marcou a vida dele, e que possa dar alguma orientação de vida naquela questão que ele tá passando por lá, ajuda muito”, afirma.

Nova Fase

Este ano, o programa foi contemplado pelo último edital do FAC (Fundo de Apoio à Cultura), e além de produzir 40 programas ao longo do ano, dá as boas vindas à nova fase neste sábado (9/11), a partir das 14h, no ginásio do bairro São Francisco, com shows de Vera Verônika, Markão Aborígine, Donas da Rima, Negro A, Sidimm Alfa Rap, Diga How e Imagem de Rua. Tudo com entrada franca e transmissão ao vivo pela rádio e pela Web TV S2 News.
 
 

*Estagiário sob a supervisão de José Carlos Vieira 

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