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Correio Braziliense

Filme A vida invisível, de Karim Aïnouz, enfatiza panorama histórico

O longa narra a história de duas irmãs, Eurídice e Guida, que vivem no Rio de Janeiro na década de 1950


postado em 13/11/2019 07:00

(foto: Loic Venance/AFP - 20/5/19)
(foto: Loic Venance/AFP - 20/5/19)

O longa-metragem A vida invisível é mais uma promessa do cinema nacional para correr o mundo. Em ano de destaque no meio cinematográfico, o filme foi premiado no festival de Cannes, na mostra Um certo olhar, principal categoria do festival, ao lado da disputa pela Palma de Ouro. Inspirado no livro A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, a obra retrata a condição de mulheres que viveram na sociedade machista do século passado e que foram limitadas pela repressão do patriarcado.

Roteirizado por Karim Aïnouz, Murilo Hauser e Inés Bortagaray, A vida invisível chega aos cinemas com direção de Aïnouz, direção assistente de Nina Kopko e com a produção de Rodrigo Teixeira, Viola Fügen e Michael Weber. Do elenco, fazem parte do filme as atrizes Carol Duarte, Julia Stockler, Fernanda Montenegro e Bárbara Santos.

A vida invisível narra a história de duas irmãs, Eurídice e Guida, que vivem no Rio de Janeiro na década de 1950. Filhas de um casal português, as irmãs são completamente diferentes. Eurídice é uma jovem tímida, realista e retraída que almeja virar uma reconhecida pianista, enquanto Guida é expansiva, sonhadora e extrovertida que sonha em viver uma paixão avassaladora. Com quereres distintos, as irmãs convergem em um ponto: ambas enfrentam a sociedade machista e patriarcal para viver em prol das vontades, das paixões e dos sonhos, cada uma de uma maneira.

“Quando li o livro eu fiquei meio bobo, pois são mulheres que estão vivas hoje em dia e passaram por muitas coisas e sobreviveram. É importante fazer um retrato daquelas personagens (Eurídices e Guida) e de uma geração de mulheres que nunca tinham tido as histórias contadas. Eu fiz muito com a vontade de falar de uma geração de mulheres, que é a geração da minha avó e da minha mãe”, conta Karim Aïnouz em entrevista ao Correio.

A história que remete a milhares de mulheres, não ficou restrita ao passado. Mesmo ambientado nos anos 1950, é possível traçar um panorama com os dias de hoje, em que os números de violência contra a mulher se mostram preocupantes. “O filme se passa nos anos 1950, mas ele vem para os dias de hoje. Justamente para mostrar que é uma continuidade essa invisibilidade delas mulheres e essa opressão contra as mulheres que sonharam e que são muito mais forte juntas”, afirma ao Correio Nina Kopko, diretora-assistente de A vida invisível.

Esse painel com os dias atuais enfatiza muitas mudanças em relação à postura das mulheres na sociedade, mas também mostra como poucas coisas mudaram em relação às atitudes dos homens. “Me interessava muito falar dessa rede de sororidade que existe entre as mulheres e o quanto isso as tornaram mais forte para resistir pelo que passaram”, analisa o cineasta.

Em A vida invisível, o lugar social e tradicional da família é evidenciado. O amor incondicional entre as duas irmãs é o que conduz o enredo, embora o contexto familiar não seja totalmente amigável, e sim, repleto de relações abusivas e de poder, que ficam perceptíveis nas cenas incômodas de sexo. A família sanguínea dá vez à “família escolhida”, as amizades formadas na trama, são uma segunda família tanto para Guida quanto para Eurídice.

“Eu estou sentindo que o filme toca muito as mulheres de diferentes gerações e raças. Elas saem angustiadas, com raiva, elas saem com uma certa vontade de saber mais do que foi a vida das mães delas, das avós. Sinto que o filme realmente emociona de um jeito ou de outro. As espectadoras não saem como elas entram. O filme ajuda a questionar o papel do machismo e como o machismo pode ser nocivo”, analisa Aïnouz.



Oscar

A vida invisível tenta indicação ao Oscar. Pré-selecionado para representar o Brasil na categoria melhor filme internacional, o longa busca uma vaga ao lado de 92 países. Em 16 de dezembro serão anunciados os 10 filmes selecionados ao prêmio. Já em 13 de janeiro, será decidido os cinco longas-metragens que concorrem na premiação e poderão definitivamente levar o título. “É uma honra poder representar o Brasil e tantos outros filmes nacionais. Minha missão é mais do que isso, a gente também é um porta-voz do cinema brasileiro, e o Oscar traz muito mais visibilidade para o filme, é como se fosse uma vitrine”, pontua o cineasta.

Além de melhor filme internacional, a obra de Karim Aïnouz pode ser indicada em mais duas categorias: melhor atriz coadjuvante, com Fernanda Montenegro, e melhor fotografia, pelas lentes de Hélène Louvart. “Foi uma surpresa enorme e uma grande honra não só representar o cinema nacional, mas representar o cinema brasileiro neste momento. Agora a gente entra em campanha, é um longo percurso, mas a gente está lutando, é uma grande alegria e uma grande surpresa poder concorrer em melhor filme internacional”, relata Nina. 





Respeito à “pátria amada”


Embora o setor do audiovisual brasileiro esteja em um momento glorioso em termos de produções e premiações, muitos são os empecilhos para avançar nesse cenário, principalmente quando se trata de investimento público. O descaso do governo com a produção cultural e os ataques à Agência Nacional de Cinema (Ancine) estão presentes na realidade atual. Centenas de produções estão paralisadas. “É um absurdo um Brasil que tem como lema ‘pátria amada’, não valorizar o que é produzido aqui dentro. É bem controverso”, destaca Karim Aïnouz.

“O que tem de mais bonito sendo falado fora do Brasil este ano é o cinema. Quem está perdendo no jogo é quem não está celebrando essa conquista com a gente. Não somos nós que temos que resistir, são as pessoas que estão indo contra a gente que tem que nos resistir, porque a gente continua produzindo”, enfatiza o diretor.

A situação atual do cinema brasileiro demonstra retrocesso, mas as produções tentam resistir e brilham o Brasil afora. “Quando eu comecei fazer cinema, tive que parar, pois a Embrafilme tinha acabado. Eu considero que o que a gente está vivendo (no setor) é fruto de um acúmulo de conquistas dos anos passados. Este ano é excepcional, pois estamos ganhando muitos prêmios. É fruto de um trabalho longo, é algo que está acontecendo de uma geração que veio antes de mim. Estranho seria se a gente não tivesse sendo reconhecido (no exterior)”, afirma.

“É um sentimento quase contraditório, a gente vivendo em um momento de muitas perdas em diversos setores, e o cinema está nesse momento de glória, mas acho que isso é uma resposta. Mas a gente está aqui forte, mostrando que cultura e cinema é muito maior que tudo isso e que a gente está levando o Brasil para o mundo, uma outra imagem que o governo está levando”, ressalta a diretora-assistente Nina Kopko.



Formação em Brasília

A juventude do cineasta cearense foi em Brasília. Aos 16 anos, Karim Aïnouz saiu da casa da mãe e veio para a capital estudar. Ingressou na Universidade de Brasília (UnB) para cursar arquitetura e urbanismo. “Eu morei cinco anos em Brasília, foi o primeiro lugar que eu morei depois de sair da casa da minha mãe. Frequentava muito o Cine Brasília, o Cine Karim... Foi aí que eu comecei com o cinema, mesmo sem saber. Voltar para Brasília sempre é muito emocionante, rever professores da faculdade, meus amigos, foi bem especial e emocionante”, relembra o cineasta.

O cineasta passou por várias experimentações até chegar ao audiovisual. “Na verdade, eu deixei a arquitetura e comecei a trabalhar com fotografias e vídeos, e daí, aos poucos, eu fui fazendo cinema, e, por muito tempo, fui assistente de montagem. Foi um processo que demorou”, conta.

*Estagiária sob a supervisão de José Carlos Vieira
 
 
 
 
 

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