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Correio Braziliense

Autor de Desamparo, Fred di Giacomo analisa a literatura brasileira

'A não-ficção (jornalística, histórica, filosófica e sociológica) é fundamental para entendermos com profundidade o caos em que vivemos', avalia o escritor


postado em 16/11/2019 09:50

(foto: Bruna Brandão/Divulgacao)
(foto: Bruna Brandão/Divulgacao)

Na pequena novela Cabra rachado, tenente Galinha é um soldado que percorre o interior paulista em busca de ladrões de gado. Real, o personagem integrava a Captura, uma violenta tropa de elite da polícia militar paulista no início do século 20. O escritor Fred di Giacomo se interessou pela história de Galinha por razões históricas, mas também contemporâneas. “É uma alma gêmea do Bolsonaro”, explica o autor, que idealizou a novela Cabra rachado para concorrer ao Prêmio Kindle de Literatura. “Após conflito com um bando de assaltantes, Cabra é mutilado e passa a questionar, vazio, a violência com que tenta pacificar o sertão. Dá pra dizer que Cabra Rachado é um conto de Guimarães Rosa cantado por Mano Brown”, avisa o autor, que também encara o texto como produto de um fenômeno de produção independente que tem gerado os melhores frutos da literatura brasileira contemporânea.

Foi sobre essa produção que Di Giacomo falou em mesa dividida com o também escritor Alexandre Ribeiro na Feira de Frankfurt, em outubro. Para ele, a literatura independente publicada por editoras pequenas e premiadas tem revelado o que há de melhor na produção brasileira. “Especialmente a poesia e a prosa que, nas palavras do escritor Krishna Monteiro (ele mesmo um contemporâneo, negro, vindo do interior e finalista do Prêmio Jabuti), contam ‘histórias de um Brasil profundo, com uma dimensão épica’ e que ‘não se prendem apenas no universo das grandes metrópoles e em problemas individuais’”, diz.

Essa nova literatura, ele acredita, passa ao largo da autoficção sobre pessoas brancas de classe média alta e urbana que tem povoado o romance brasileiro nos últimos 30 anos e reflete um Brasil gigante e polifônico, “um dragão de muitas cabeças”. Para Di Giacomo, a literatura brasileira passou por um processo de descolonização no qual perdeu a vergonha dos sotaques, dos cabelos e das raízes. Com isso, acredita o escritor, ela se reconectou com o que se fez no Brasil até a década de 1970, mas sem abandonar as influências contemporâneas. 

Giacomo aponta alguns autores que, segundo ele, estão mergulhados nessa nova estética, uma tendência que flerta com o regionalismo e o fantástico. São nomes como Mailson Furtado, que ganhou o Jabuti no ano passado com uma publicação independente, Itamar Vieira Jr., Mariana Basílio, Micheliny Verunschk, Bruno Ribeiro, Deborah Dornelas, vencedora do Casa de las Américas com Por cima do mar, e outros. “Existe uma tendência ao épico e ao romance histórico”, aponta. “Uma literatura que é pujante e premiada, protagonizada por personagens LGBTQ+ (Cristina Judar, Alexandre Rabelo, Paula Fábrio, o já citado Raimundo Neto, Leonardo Tonus); a literatura que parte de questões identitárias e é escrita por negros e indígenas (Bianca Santana, Jarid Arraes, David Kopenawa, Ailton Krenak) e a literatura periférica que já vem dos anos 1990, mas se consolida e multiplica com os saraus e slams. E vale lembrar que, quando se fala em novo na literatura, muitas vezes esse novo é produzido por autores que estão há anos labutando nas letras, como Conceição Evaristo e Maria Valéria Rezende.”

Tudo isso combinado com o momento político do país e um engajamento por parte dos autores, que Di Giacomo acredita ser real e contundente, gerou um interesse especial durante a feira alemã. Intitulada A arte nos tempos do Bolsonaro, a mesa acabou por atrair o público. “Havia um grande interesse por entender o Brasil de Bolsonaro, por entender o novo populismo de direita que também assola a Europa, por entender como aquele Brasil que brilhou no globo nos anos 2000 tinha se tornado vanguarda do obscurantismo. Por isso, acho que eu e o Alexandre fomos pertinentes em propor nossa mesa e não falar apenas de nossos romances”, explica. Jornais estrangeiros se interessaram pelo tema, especialmente temperado por Alexandre Ribeiro, natural de Diadema e autor de Reservado, romance com mais de 2 mil exemplares vendidos no boca a boca, pelas ruas. “O Alexandre é um ultrajovem carismático de 21 anos, acostumado a vender livros nas ruas e fazer performances poéticas nos slams e saraus. Em dois dias, ele já tinha conquistado todo mundo em Frankfurt”. 

Entrevista / Fred di Giacomo


Há alguma tendência que você identifique na literatura brasileira desse início de século 21?

Sim, mais de uma, na verdade. A primeira diz mais sobre a forma de produção e distribuição do que sobre a estética. FNAC, Leya e Cultura quebraram, as editoras grandes têm feito apostas em nomes seguros e perderam a conexão com o novo – exceção feita à Todavia, que é uma editora com estrutura, mas com espírito independente e lançou, por exemplo, os excelentes livros do Carlos Eduardo Pereira e do Itamar Vieira Jr. Ao mesmo tempo, ficou mais fácil para uma editora pequena publicar um livro com a qualidade gráfica e acabamento de uma grande e distribuí-lo pela internet, feiras, saraus e livrarias de bairro. Não é à toa que as pequenas Patuá e Reformatório têm sido premiadas ou finalistas em prêmios importantes como o Jabuti e o São Paulo.

Como a literatura brasileira contemporânea tem reagido às crises brasileiras? 

Olha, sinto que a literatura brasileira está muito engajada na reação ao conservadorismo que se alastra, especialmente porque é um conservadorismo anti-intelectual, emburrecedor e que procura erigir um novo cânone que parece saído do livro A literatura nazista na América, do Bolaño. Este ano, tivemos o lançamento da coletânea Contos brutos com textos sobre autoritarismo organizada pela escritora Anita Deak e também o jornal Morre Bolsonaro, organizado pelo Ronaldo Bressane. Ano passado o escritor Julián Fuks lançou o Manifesto da Literatura pela Democracia com assinaturas de peso de gente como Chico Buarque e Mia Couto. Djamila Ribeiro, eu, Alexandre Ribeiro e Luiz Ruffato estivemos na Feira de Frankfurt e fizemos falas que discutiam as crises brasileiras de maneira muito crítica e procuravam expor essa realidade para os europeus. Acho que a crise também se reflete nas temáticas dos livros e dos poemas contemporâneos, em sua violência, e numa certa depressão geral que se alastra pelo país e por quem tem alguma sensibilidade. Os artistas são como antenas da humanidade, capturam essas frequências pesadas e precisam ressignificar isso em arte.


E há um movimento conservador também nessa cena?

Por outro lado, você tem uma literatura de extrema-direita que é best-seller. Olavo de Carvalho é só a ponta do iceberg de um bando de escribas que difundiu lendas urbanas como o nazismo ser um movimento de esquerda, Zumbi ser escravocrata, os indígenas brasileiros não terem sido dizimados pelos portugueses, mas, sim, se miscigenado por vontade própria e a Pepsi usar fetos humanos abortados para adoçar seus refrigerantes.

Estamos vivendo um momento excepcional de produção/pulsão literária na periferia e na margem? Por quê?

Bom, acho que a pergunta correta a se fazer seria “por que não antes?” A maior parte da população brasileira é pobre, preta e periférica. Proporcionalmente, nossa literatura deveria ter mais Limas Barretos e Machados de Assis e menos Olavos Bilacs e Monteiros Lobatos. Nossa Tróia é a Favela, nosso Mefisto é Exu e nosso Inferno de Dante, o Carandiru. Agora, difícil dizer se este é o momento excepcional da literatura periférica. A Carolina Maria de Jesus foi uma gigante há, sei lá, 1960 anos. A produção de literatura marginal vem sendo exaltada regularmente no Brasil desde os anos 1990, quando Paulo Lins publicou Cidade de Deus e nomes como Ferréz, Sergio Vaz, Sacolinha, Buzo, etc foram aparecendo. Ela teve uma ligação muito forte com a explosão do movimento hip-hop no Brasil que revolucionou as periferias do país – vale lembrar que o Sobrevivendo no inferno, dos Racionais Mc’s, é leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp. 

Por que, na tua opinião, a literatura brasileira vive seu  melhor momento em 50 anos?

É como quando o punk surgiu depois do rock progressivo ou quando o rap nasceu varrendo a disco music. Nossa literatura estava como o rock nacional dos anos 1980, antes da chegada de Chico Science e cia. Tudo muito careta, tudo centrado num clubinho, onde o pessoal das grandes editoras, das grandes feiras literárias, das revistas, etc. vinha dos mesmos colégios construtivistas da zona oeste paulistana e da zona sul carioca. A literatura brasileira estava concentrada em uma bolha que não representava o Brasil. Além de ter vergonha de ser brasileira, essa literatura tinha perdido a pretensão épica, a vontade de contar histórias grandes e universais; estava muito focada no “pé na bunda que o escritor tinha tomado e o levava a encher a cara pelas ruas da cidade grande” sonhando que Porto Alegre era Londres e São Paulo, Paris. É importante a literatura brasileira ser arejada pelos ventos que sopram no norte-nordeste, nas periferias, nas florestas, nas zonas rurais.

Como a representatividade está espelhada na produção contemporânea? 

Acho que a representatividade nas grandes editoras, na programação oficial da Flip, nos destaques das revistas literárias maiores do Brasil ainda tem muito que melhorar. Onde estão as grandes editoras comandadas por negros? Os curadores de grandes festivais literários que sejam periféricos? As escritoras trans nas grandes editoras? Por que a Cia das Letras não tem um selo que lance, com estrutura, os autores premiadíssimos que só encontram casa nas editoras menores? É por isso que não se vende livro no Brasil. 

Qual a importância de escrever – ficção e não-ficção – em tempos de autoritarismo e conservadorismo?

A não-ficção (jornalística, histórica, filosófica e sociológica) é fundamental para entendermos com profundidade o caos em que vivemos, o buraco em que nos metemos e como povos que passaram por coisas semelhantes voltaram a ser livres. A ficção, e especialmente a poesia, é um antídoto pro fascismo e para a depressão que ele incendeia na alma. Ela é terapêutica para o escritor e balsâmica para o leitor. Ela nos ajuda a refletir sobre o que vivemos, ela nos transporta para um oásis quando precisamos de paz; ela é capaz de simular saídas e catástrofes sem que tenhamos que vivenciá-las.  Ainda mais sabendo que esse governo só foi possível graças ao trabalho, na última década, de escritores, astrólogos, roqueiros falidos, youtubers e humoristas que emprestaram seu talento artístico para criar um clima de ódio e obscurantismo no Brasil. Não se assuste se tivermos livros sobre o terraplanismo sendo adotados pelas escolas brasileiras.

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