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Correio Braziliense

Fotógrafo Arno Fischer ganha exposição no Museu da República

Ele é um dos fotógrafos mais importantes da Alemanha Oriental


postado em 17/11/2019 06:15

O Tiergarten em 1959: um dos parques centrais de Berlim ocidental(foto: Museu Nacional da República)
O Tiergarten em 1959: um dos parques centrais de Berlim ocidental (foto: Museu Nacional da República)

Arno Fischer tirou a primeira fotografia em 1944. Berlim estava destruída pela guerra e logo o então jovem fotógrafo, também aspirante a escultor, se tornaria um cidadão da parte oriental da cidade. Foi ali, em uma capital dividida, que Fischer se tornou uma das referências da fotografia na Alemanha Oriental, especialmente no campo da moda. Pouco conhecida na América Latina, a obra de Fischer desembarca em Brasília para uma mostra no Museu Nacional da República sob curadoria de Andreas Rost, que foi assistente e aluno do fotógrafo nos anos 1990.

Arno Fischer ficou muito conhecido na Alemanha por causa dos ensaios de moda. Nos anos 1950, ele fotografou para a revista Sibylle, mas com um olhar diferente daquele formatado em estúdio e protagonizado por modelos. Fischer preferia a rua aos ambientes fechados e pessoas comuns a manequins. Um de seus ensaios mais célebres nessa área foi uma série de fotos de Marlene Dietrich realizada em 1964, em Moscou. Nessa mesma década, ele fez parte da criação do grupo Direkt, que reunia uma pequena comunidade de fotógrafos da Alemanha Oriental em torno da ideia de uma fotografia de estética realista muito exigente.

Uma das características dessa produção, detalhe marcante nas imagens de Fischer, está na forma como os fotografados olham diretamente para a câmera. “Arno Fischer desenvolveu, após a Segunda Guerra, uma linguagem visual independente e distinta, e ele foi uma importante personalidade da área acadêmica, que influenciou várias gerações de fotógrafos”, explica Andreas Rost. “Ele defendia uma linguagem visual que se voltava contra o abuso ideológico da fotografia pelas ditaduras fascistas e comunistas, contando histórias poéticas do homem. Também foi o fotógrafo que trouxe a fotografia de moda para as ruas pela primeira vez na década de 1960, examinando assim sua adequação ao uso diário. Ele nunca trabalhou com modelos ou maquiadores profissionais.”
 
(foto: Daniel Warkentin/Divulgação)
(foto: Daniel Warkentin/Divulgação)
 

Entre os ensaios mais significativos da produção de Fischer, Rost elenca três. Situação Berlim, um retrato da cidade logo após o fim da Segunda Guerra e antes da construção do muro mais emblemático do pós-guerra europeu, Nova Iorque, uma investigação da vida na metrópole em tempos de capitalismo turbinado e O jardim, ensaio mais pessoal, calcado numa reflexão sobre a transitoriedade inerente à condição humana. Mas, se for para eleger a série mais importante, Rost aponta para o ensaio com Marlene Dietrich. “A série que mais se aproxima do termo ‘fotojornalismo’”, diz. “Caso contrário, ele (Arno Fischer) se afastou do fotojornalismo porque queria criar uma fotografia artística, e não uma fotografia utilitária.”

Situação Berlim tem um lugar especial na trajetória de Fischer, já que ele estava vivo quando o muro foi derrubado, em 1989, e fotografou, sobretudo, o clima resultante do fim de uma divisão dramática que marcou profundamente a vida da sociedade alemã. “Mais importante do que a questão da queda do Muro de Berlim foi a questão de como a reunificação ocorreu. Ele conseguiu, de maneira poética, demonstrar a alegria e a tristeza das pessoas nesse processo”, aponta Rost. Arno Fischer morreu em setembro de 2011 e ainda fotografou neste início de século 20. Na exposição, uma série de Polaroids de naturezas-mortas e detalhes do próprio jardim fazem parte da produção mais recente do fotógrafo. No total, o Museu Nacional da República recebe 92 imagens de uma coleção organizada pelo Institut für Auslandsbeziehungen (Instituto de Relações Exteriores), uma espécie de agência para a promoção da cultura alemã.

Para o curador, Arno Fischer passava ao largo do desejo de documentar uma era, um país, uma sociedade ou um momento, por isso não podia ser chamado de fotojornalista. Sua fotografia ia além do registro factual e flertava com outro tipo de linguagem. “Arno Fischer não documentou nada. Ele queria criar um clima poético, por exemplo, sobre a vida em uma cidade dividida. Suas fotos fogem de categorias simplistas, como ‘bom’ ou ‘ruim’, e fazem as pessoas pensarem”, garante Rost, que atribui o pouco conhecimento que se tem no Brasil sobre o fotógrafo ao isolamento da Alemanha Oriental durante parte do século 20. “Infelizmente, é muito complicado e caro trazer livros e exposições da Alemanha para o Brasil, e inversamente isso também se aplica. É por isso que muitos fotógrafos de destaque no Brasil, infelizmente, também são pouco conhecidos na Alemanha. Além disso, o Arno Fischer vem de um país fechado até 1989”, lamenta.


Arno Fischer – Fotografia Curadoria: Andreas Rost

Visitação até 5 de janeiro, de terça a domingo, das 9h às 18h30, no Museu Nacional da República (Setor Cultural Sul Lote 02 – Esplanada dos Ministérios)


“Arno Fischer não documentou nada. Ele queria criar um clima poético, por exemplo, sobre a vida em uma cidade dividida. Suas fotos fogem de categorias simplistas, como ‘bom’ ou ‘ruim’, e fazem as pessoas pensarem”
Andreas Rost, curador da mostra Arno Fischer - Fotografia
 
 
 
 
 
 
 
 


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