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Correio Braziliense

Adolar Gangorra, o homem do balde na cabeça, fala sobre seu primeiro livro

Oculto sob um balde amarelo e o pseudônimo de Adolar Gangorra, redator brasiliense que viralizou com textos fala sobre humor e anonimato


postado em 18/11/2019 19:00 / atualizado em 18/11/2019 19:51

Adolar Gangorra é um personagem de humor que surgiu no final dos anos noventa em fanzines e blogs de brasília, e viralizou na internet do início dos anos 2000(foto: Devana Babu/Esp.CB/D.A.Press)
Adolar Gangorra é um personagem de humor que surgiu no final dos anos noventa em fanzines e blogs de brasília, e viralizou na internet do início dos anos 2000 (foto: Devana Babu/Esp.CB/D.A.Press)
 
Para alguém que preza pelo anonimato e afirma não querer chamar atenção, um humorista brasiliense encontrou uma estratégia paradoxal: enfiar um balde amarelo na cabeça. Com este adereço, e vestido de terno e gravata, o homem de 42 anos, roteirista e publicitário, morador da Asa Sul, se oculta sob o pseudônimo de Adolar Gangorra e prefere omitir a verdadeira identidade.
Vestido à paisana, ou seja, sem o balde, Adolar concedeu esta entrevista ao Diversão e Arte para falar sobre seu primeiro livro, Como tenho certeza absoluta de como o mundo deveria ser, publicado pela editora Tagore com recursos do Fundo e Apoio à Cultura (FAC) e lançado na terça-feira (5/10) no restaurante Carpe Diem.

Trata-se de uma coletânea de textos escritos por Adolar, um velho ranzinza de 79, 89 ou 56 anos, não se sabe, desde o final dos anos 90, quando seu nome começou a aparecer em alguns fanzines e blogs com textos marcados pelo humor ácido e um certo desprezo pelas convenções do politicamente correto. 

No início dos anos 2000, alguns textos ganharam as redes sociais e foram vastamente multiplicados por blogs e listas de e-mails, muitas vezes sem a autoria. O texto Como me f… no show do Los Hermanos, por exemplo, foi enviado em 2005 pelo cantor Evandro Mesquita para atriz Fernanda Torres, que chegou a anunciar no jornal O Globo que queria conhecer o misterioso autor. 

Já o texto Monica e Eduardo foi encontrado casualmente na rede pela atriz e diretora Fernanda D'umbra, que, no ano seguinte, levava a peça Análise comportamental e crítica da música Eduardo e Mônica aos palcos, com Adolar assinando o texto e encarnado pelo ator Fábio Espósito. A peça foi encenada tanto em São Paulo quanto em Brasília. 

O primeiro destes textos é uma sátira ao culto fanático que havia em torno dos barbudos da banda Los Hermanos no início dos anos 2000. O segundo, uma análise debochada da famosa música de Renato Russo, na qual ele subverte a lógica da letra e tenta pintar o mimado Eduardo como um fantoche nas mãos da terrível Monica, retratada como uma megera. 

Ambos os textos exemplificam o estilo de Adolar, causaram alvoroço entre as feministas, compreensivelmente, e entre legionários e fãs dos barbudos, menos compreensivelmente, e estão presentes, junto a textos inéditos, na primeira coletânea do Velho Ranheta que odeia jantinha e autógrafos. Conversamos com ele sobre estes e outros assuntos polêmicos:

Entrevista//Adolar Gangorra

Quem ou o que é Adolar Gangorra?

É uma persona que eu criei, muitos anos atrás, para escrever humor. Eu achava engraçado criar um velho, um velho ranheta, e acho muito legal isso: não querer aparecer. Você cria uma personalidade e ela vai andar ou não. Neste caso, andou, por causa dos textos, que viralizaram. Monica e eduardo, por exemplo, eu mandava pra alguns amigos. Um mês depois, foi parar nas mãos de uma teatróloga de São Paulo, que gostou, mas não conseguiu me achar. Eu não tinha nem site. Não boto meu nome. O mais engraçado é isso. Eu não tenho essa questão de ego. Eu quero não aparecer, botar um balde na cabeça.

Você publica coisas fora desta persona? 

Escrevi um livro com um médico (Prezado doc!: a improvável conversa entre um médico e um humorista, escrito em parceria com o neurologista brasiliense Ricardo Teixeira, em 2013), recentemente escrevi uma série pra tevê, Enredo de Bamba (Canal Brasil). Sabe aquele cara, Bezerra da Silva? Então: um amigo meu lá do Rio quis fazer episódios baseados nas músicas do cara. Mas é uma série séria. Não, pensando bem, é humor sim. 

Qual a diferença entre o que é humor e o que não é?

Humor faz rir. Humor é o que tem graça. É simples desse jeito. Agora, tem nichos de humor, claro. Eu gosto de humor negro e politicamente incorreto. Tem gente que gosta de Patati Patatá. Mas se esse palhaço no circo não faz rir, ele não funciona. Se meu texto não faz rir, ele não funciona.

E se eu contar uma história trágica e fizer as pessoas rirem?

Aí você é um grande humorista! Eu estou tentando desenvolver um argumento chamado O comicida, para a tevê. O que é o comicida? É o cara que é o cara mais engraçado do mundo, mas quer ser levado a sério. Aí você tem um motor eterno pra criar situações. Tem casos de histórias parecidas. Aconteceu isso com um cara chamado Leslie Nielsen. Ele era um canastrão, um ator que fazia só drama. Não era muito conhecido, aí os diretores de humor falaram assim: esse cara tem um jeito engraçado. Já velho, ele fez a carreira toda como humorista. Ele tentou a vida toda. Não foi bem-sucedido fazendo galã. Os caras viram alguma coisa nele e ele virou comediante até morrer, pois já era comediante. Só de olhar a cara dele você já quer rir.

Foi assim que surgiu o Adolar gangorra? De uma tentativa frustrada de fazer algum trabalho sério?

Não. Meus amigos me davam feedback que era legal. Tem texto meu nesse livro que eu fiz há 30 anos. Eu era garoto, adolescente, estava andando lá em casa, tinha uma máquina de escrever e um papel, então eu sentei e escrevi. Eu gostei. Mostrei pros amigos. Dez anos depois lá estava eu. 

Você tem quantos anos hoje?

Eu tenho 42, mas bota 35 (na entrevista). Ah, tem outra coisa: essa coisa do velho, eu sempre fiz questão de colocar ele como um velho mesmo. cada texto eu boto ele com uma idade diferente: 79, 89, 56. Vou criando essa falta de padrão. 

Porque essa questão com a idade? Porque um velho ranheta?

Porque tem um cara chamado H. L. Mencken. É um cara da década de vinte e trinta nos Estados Unidos, que era um jornalista, e ele era tão crítico, e tão engraçado, que o pessoal da arte desenhava ele como um velho — na época não tinha foto nas redações. Quando os artistas liam os textos, eles pensavam: esse cara é um velho! Porque ele era um cara iconoclasta, destruía tudo. Ele tem uma frase que diz assim: "O casamento é a arte de você administrar o circo dentro da jaula dos leões." Então eles achavam mesmo que o Mencken tinha 70, 80 anos de idade. Ele só tinha 27. O cara era superculto, falava grego, latim, alemão. Só que era supercrítico. E eu tento ser crítico, só que do alto da minha mediocridade. Eu não falo grego, não falo alemão, mal falo o português. Eu critico o que me incomoda. Por exemplo, jantinha: eu odeio jantinha, aquele negócio de comer na rua. Então eu vou lá e escrevo. Eu fico puto com isso: jantinha o que, cara!? Só que eu vou lá e escrevo. Só que eu tenho que fazer engraçado. 

Então Adolar Gangorra é você, de certa forma.

Ele é um traço da minha personalidade. Talvez seja meio a meio. Eu tenho esse lance de ser crítico. Eu tento ser engraçado, mas crítico, eu sei que eu sou mesmo. 

Você concorda com tudo que é dito pela voz do Adolar?

Tem muita coisa ali que eu estou exagerando, igual a uma caricatura. Metade das coisas que eu estou dizendo ali eu concordo, mas eu estou exagerando pra fazer a graça. 

O livro é uma coletânea de textos escritos ao longo do tempo, cheio de referências e piadas da época. Quando você foi editar, você tirou essas referências?

Eu atualizei várias coisas, algumas eu adaptei um pouquinho, acrescentei pequenas coisas e escrevi alguns textos inéditos.

Porque resolveu publicar o livro agora, depois de tanto tempo publicando apenas em blogs?

Porque eu escrevi esse livro com o médico e eu gostei da experiência. E eu entrei no financiamento do FAC e fui contemplado. Aí o FAC me deu essa oportunidade de publicar um livro só meu. Eu não queria fazer lançamento, mas vou fazer porque o FAC exige. Eu acho esse negócio de noite de autógrafo um saco. Nem sei se vou aparecer. 

Onde você mora?

Na Asa Sul. Mas o que eu estava falando mesmo? Eu tenho que ir no médico... tenho que ir no Ricardo Teixeira fazer uma consulta.

Por falar nisso, estamos em pleno novembro azul, e você já passou dos quarenta. Já fez seu exame de toque?

Novembro Azul é sobre isso? Eu não sabia. Já passei da época. Não fui, por covardia. Tem uma coisa politicamente incorreta, que eu gosto de falar. "Exame de toque: death before deshonor". Morte antes da desonra. É totalmente politicamente incorreto, mas é engraçado. Algumas pessoas podem entender, outras não. Tem um patrulhamento hoje muito forte. Você não pode falar nada, né, cara. Eu sou terminantemente contra isso, e vou pagar o preço que for, mas eu não vou deixar de falar o que eu acredito.

Mas você não acha que é um pouco fácil falar isso com a cabeça escondida dentro de um balde? Você teria coragem de falar essas coisas de cara limpa?

Teria, porque eu acredito muito nelas. Mesmo. Na época que eu comecei a escrever, não tinha essa coisa. Tinha muito pouco. A coisa começou na Universidade do Canadá, o pessoal de esquerda do Canadá, dos diretórios acadêmicos, e tá chegando aqui. Você não pode ter um cachorro, ser dono do cachorro: você é o tutor do cachorro. Desculpe! Faz sentido? Faz sentido. Mas eu não aceito. E olha que eu não sou contra pela essência, porque a essência é certa. Eu não posso chamar um cara de gordo e humilhar ele por causa disso. Mas não é possível que eu não possa falar em algum momento que tenha graça. É uma coisa complicada, mas eu acho que as pessoas são muito carneirinhos. Elas abaixam a cabeça pra tudo, agem que nem um rebanho. A gente tem que pensar, sempre. 

E qual você acha que é a diferença entre o politicamente correto e o politicamente incorreto? Qual a sua concepção sobre isso? 

Quando eu não posso falar uma coisa porque tem um patrulhamento. O que me incomoda, mais que o politicamente correto ou incorreto, é o patrulhamento. Você não pode patrulhar a minha linguagem. Eu tenho que aprender e quebrar a cara sozinho. Eu tenho que ser processado. Eu tenho que magoar alguém, pedir desculpa e ficar mal. Se você me falar "pô, isso me magoou, Adolar", eu peço desculpas e nunca mais vou fazer. Mas projetar esse negócio, se você não passou pelo processo de tentativa e erro, você não vai aprender. Você vai ser um robozinho, uma galinha. 

Mas quando você faz determinadas piadas que fazem soar como se determinadas identidades ou experiências fossem coisas engraçadas, você não está ridicularizando essas coisas?

Depende do grau. Se eu colocar num grau mínimo, não. E, quando existem várias piadas, você pode só mencionar uma coisa. Por exemplo, outro dia eu fiz uma piada sobre Transtorno Obsessivo Compulsivo; A sigla, TOC, tem uma ordem (alfabética decrescente), porque o pessoal que tem o transtorno prefere que seja colocado em ordem. Se eu fiz você rir, eu te fiz um bem. O humor é um processo de inteligência. Um dia, eu estava assistindo as paraolimpíadas. Eu pensei numa piada mas eu parei na hora e não fiz. Eu pensei: não vou fazer isso porque vai magoar gente. 

Então você pensa duas vezes antes de fazer piadas.

Claro! Eu não sou um maluco. Você tocou em outro ponto muito legal. Esse humor pra chocar é muito perigoso. Você tem que sempre pensar. Por isso que eu falo dos graus. Você não pode chegar assim: "Ô gordinho escroto filho da puta!". Eu não sei o que esse cara passou. Nunca faria isso, chegar e fazer uma piada pra magoar. 
 
Como você se sentiria vendo textos seus endossados ou ovacionados por fascistas?   

Isso é parte do processo da liberdade. as pessoas podem se apropriar de qualquer coisa. Eu não vou endossar, mas eles podem. Isso é libardade. É a mesma coisa que eu te falo: Você nao pode controlar a minha linguagem. Uma vez uma galera pegou e começou assinar meu nome — fascistas. Aí eu disse: "Não façam isso". Vi num site de carecas (neonazistas). O que eu podia fazer na epoca? 

E o que te motiva a escrever humor? 
 
Fazer os outros rirem. Se eu faço vocÊ rir, eu tô te fazendo um bem. Se você tá num dia ruim, ou num dia ótimo, e eu te contei uma piada e você riu, nem que dure um segundo, mas isso é um bem. Eu não ganho dinheiro algum. Na peça, não cobrei direitos autorais. Eu faço humor por fazer. é uma expressão de vida. O humor, pra mim, sempre foi, desde garoto, o que me ilumina. Não sei se eu sou bom, não sei se eu sou ruim, eu sei que eu tenho alguns acertos e alguns erros. Erros que eu digo não é se é politcamente correto ou não: é se foi engraçado ou não. Tem textos que eu não botei no livro porque não achei bons. 
 
*Estagiário sob a supervisão de Igor Silveira
 
 





 




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