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Correio Braziliense

Fortes raízes culturais do cinema brasileiro se destacam no Oscar

Em defesa de valores culturais, na telona, Brasil se destaca no panorama criativo internacional, com prêmios e boas chances de alcançar o Oscar, vitrine para filmes que projetam tradições estrangeiras


postado em 19/11/2019 06:40 / atualizado em 19/11/2019 08:29

As irmãs Guida e Eurídices no filme 'A vida invisível', grande aposta brasileira no Oscar 2020(foto: Bruno Machado/Divulgação)
As irmãs Guida e Eurídices no filme 'A vida invisível', grande aposta brasileira no Oscar 2020 (foto: Bruno Machado/Divulgação)
 
Num ano em que o Brasil conquistou prêmios importantes em festivais fundamentais da indústria audiovisual como o de Cannes (França), às vésperas da entrada em cartaz de A vida invisível (o filme pré-selecionado para representar o Brasil no Oscar), fica clara a projeção do país, por levar ao mundo (via coproduções), os talentos nacionais. Até 9 de fevereiro, data da festa dos premiados da estatueta hollywoodiana, o caminho é longo e inclui duas paradas: dia 10 de dezembro, os representantes de 93 países candidatos às vagas do Oscar são afunilados para apenas 10, enquanto a lista dos finalistas chegará em 13 de janeiro de 2020.

Como aposta forte ao Oscar — inclusive respaldada por especialistas da indústria, como críticos do The Hollywood Reporter —, A vida invisível tem data de estreia nos Estados Unidos (20 de dezembro), com distribuição da Amazon. O filme coloca em cena, ao longo de anos, os desencontros de irmãs que sofrem as consequências de uma visão intransigente de um patriarca, durante os anos de 1950. Com histórico de indicação ao Oscar, como melhor atriz (por Central do Brasil), Fernanda Montenegro tem breve participação na fita.

O passado do Brasil das décadas de 1970 e 1980, a partir da figura do contraventor Tommaso Buscetta, é tema de outra coprodução nacional (O traidor), estrelada por Pierfrancesco Favino e Maria Fernanda Cândido. Com produção sustentada por Itália, Alemanha e França, o longa tem a assinatura do politizado Marco Bellocchio, sendo o representante italiano na corrida pelo Oscar. Vale enfatizar que o título será mostrado pela primeira vez no Brasil, sexta-feira, na abertura do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
 
'O tradutor': Rodrigo Santoro é o protagonista do filme cubano(foto: Gabriel G. Bianchini/Divulgação)
'O tradutor': Rodrigo Santoro é o protagonista do filme cubano (foto: Gabriel G. Bianchini/Divulgação)


O tradutor, que já foi exibido em Brasília, pode, indiretamente colocar o Brasil em relevo nos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, dado o fato de o concorrente cubano trazer Rodrigo Santoro como estrela. Na fita dos realizadores de origens canadense e cubana, Rodrigo e Sebastián Barriuso, Santoro vive um professor de literatura russa que vê a vida transformada ao ser deslocado como facilitador de comunicação entre crianças russas em tratamento em Cuba, depois de serem vítimas de acidente Chernobil.

Um ano depois de o México ver reconhecido o talento do diretor Alfonso Cuarón, no Oscar — a partir da história de vida de uma doméstica, em Roma —, o longa-metragem A camareira está escalado para mais um embate, visando a posição de melhor filme estrangeiro. Novamente, pesam na trama do longa — em cartaz na capital — aspectos de solidão e de singeleza extrema de uma personagem que, para muitos, leva uma vida invisível.

Na mesma linha de decifrar sofridas existências femininas, Adam (o pré-candidato marroquino para o Oscar), também em cartaz em Brasília, desponta como primeiro filme de Maryam Touzani. Igualmente alinhavado por crises nos posicionamentos radicais islâmicos, o longa da argelina Mounia Meddour Papicha traz a dedicação de uma moça à moda, com vestimentas que tanto podem perturbar conservadorismo extremado.

Enquanto contrastes e injustiças sociais se afirmam em filmes como o argentino A odisseia dos tontos e Parasita (vindo da Coreia do Sul), ainda nas telas de Brasília, com a conjuntura machista avalizada pelo peruano Retablo (leia crítica), o circuito de cinema da cidade ainda ganha bastante do colorido e da cultura nacional com filmes (independente da possibilidade de Oscar) como o pernambucano Azougue Nazaré (de Tiago Melo — confira entrevista), premiado no exterior.

Cena do filme 'Retablo'(foto: Siri Producciones/Divulgação)
Cena do filme 'Retablo' (foto: Siri Producciones/Divulgação)

Crítica // Retablo

Delicadeza máscula


Um filme sobre artesanato, feito aos moldes artesanais. Com representações de folclore e urdido no ciclo de tradições e preconceitos, o diretor estreante Álvaro Delgado-Aparício trata do repasse da herança da violência, em solo andino. Noé, na trama, tem tudo para ser um pai exemplar: esforçado e amoroso, toma conta do filho Segundo, parceiro na confecção de retablos, estruturas de arte que projetam bonecos (acondicionados em caixas). São vencedores de um dia a dia áspero, até que um segredo vem à tona. Pré-selecionado para concorrer ao Oscar, Retablo poderia muito bem encorpar as minguadas indicações ao prêmio para o Peru, não por acaso, rendida, há 10 anos, para a diretora Claudia Llosa (por A teta assustada) que examinava excessos contra as mulheres. Retablo mostra o açoite a homens, igualmente, fragilizados.


Três perguntas // Tiago Melo
 
'Azougue Nazaré' é primeiro longa de ficção do diretor Tiago Melo(foto: Inquieta Cine/Divulgação.)
'Azougue Nazaré' é primeiro longa de ficção do diretor Tiago Melo (foto: Inquieta Cine/Divulgação.)
 

Como acha que foi sua apropriação do maracatu, a fim de desenvolver Azougue Nazaré?


Surgido no interior de Pernambuco, na Zona da Mata (área canavieira), vindo dos escravos empregados nos engenhos de açúcar — nesta forma, falamos da vertente rural, autêntica, ainda que haja manifestação similar na África. O maracatu é uma arte de pura resistência: de imediato, foi proibido. Então, ele está resistindo até hoje. Superou a intolerância religiosa, quando, a exemplo do samba, foi marginalizado. Na ditadura militar, foi proibido, mas ficou até mais forte. Eu acho que nesse desmonte todo que está acontecendo na cultura do Brasil, nós artistas temos que olhar mais para as bases e justamente ver o pessoal da cultura popular, o pessoal da raiz — eles são inspiração para a gente. Fazem o que amam, e ninguém consegue interromper. Então, vejo o maracatu como grande espelho para o Brasil.


Você trabalhou com chamados não-atores no filme?


São atores iniciantes, que ensaiavam muito. Fizemos laboratório, tinha um processo de preparação muito intenso. Não são "não atores", pessoas que já são a alma de um personagem têm a espontaneidade explorada. Então a gente já fez diferente, e apesar das pessoas do Maracatu estarem fazendo personagens no universo do Maracatu. Houve sequência de carreira. O Valmir do Côco, que faz Catita (no Azougue Nazaré), já está no quinto longa. Trabalhou em Bacurau, fez filme de Jean-Claude Bernardet e fez um filme da Renata Pinheiro. Tem Mohana ela fez, e depois ela já fez uma série na Globo. É gratificante poder valorizar o trabalho deles.


Religião pode ser criticada pelas artes?


Compreendo que as artes tenham liberdade para comentar, citar e trazer referências ao que bem entendam. Arte surge, sendo livre, sendo libertadora. Maracatu é manifestação que vem do berço de uma religião de matriz africana, contrapondo com uma nova religião que chega na cidade, que tem na figura de um ex-mestre de maracatu, sendo pastor, que tem a missão de catequizar os brincantes de maracatu. No filme eu quis levantar esse embate que acho muito importante, porque isso é um parâmetro do que acontece no Brasil de uma religião chegar e exterminar manifestações seculares, centenárias. Também acho que no Brasil isso deveria ser comentado e discutido. Sempre fui contra a intolerância religiosa de qualquer lado, inclusive contra os evangélicos, que acontece muito também, apesar de a intolerância contra religião de matrizes africanas ser muito maior. Acho que o mundo nunca vai ter paz se a gente não respeitar a fé das pessoas, independente de qual seja essa fé. E esse é um ensinamento, inclusive, de Jesus Cristo. Acredito que as pessoas cristãs, católicas ou evangélicas, ou de religiões de matrizes africanas, também têm o mesmo entendimento. Quisemos representação de espectros de igrejas neopentecostais, com alguns pastores que têm como ideal um plano de poder, de dominação, um plano político.

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