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Correio Braziliense

Conheça artistas locais que falam de raça e gênero na periferia da capital

Nos trabalhos, elas ajudam a pensar sobre o lugar da herança africana na arte contemporânea brasileira


postado em 20/11/2019 06:00 / atualizado em 20/11/2019 20:13

Elas moram ou cresceram fora do Plano Piloto e fazem da arte um canal para falar de questões de gênero e raça. A negritude aparece no discurso de muitas delas associada à solidão, percepção que é fruto do isolamento que contribui para o apagamento da cultura negra. Com performances, poesias, músicas, bordados, pinturas e instalações, Xibi Rodrigues, Débora Passos, Pietra Sousa e Lara Ferreira mergulham nas suas próprias ancestralidades para criar uma produção que tem ganhado cada vez mais relevância e projeção na cena artística do Distrito Federal. No Dia da Consciência Negra, o Correio conta a história e os interesses dessas quatro artistas cujos trabalhos ajudam a pensar sobre o lugar da herança africana na arte contemporânea brasileira.

(foto: Reprodução/Cortesia de A Pilastra)
(foto: Reprodução/Cortesia de A Pilastra)

Performances


Pietra Sousa tem muito clara a noção de discurso político que carrega em suas performances. “Por ter o corpo que tenho, por ser a pessoa que estou me tornando, pelo lugar ao qual quero chegar, me norteio por posições políticas e isso acaba definindo muita coisa na minha vida e reflete na produção artística. E acabo falando sobre várias temáticas”, avisa a artista. Travesti, moradora do Sol Nascente e protagonista de performances fortes como Maria é culpade, na qual canta uma letra que se refere a escravidão, abuso e violência enquanto o também artista Jorge Maravilha encena uma sequência de sofrimento, Pietra acredita que a performance é um espaço livre para mergulhar em reflexões de raça e gênero. “Essa performance fala muito sobre um lugar de solidão, mas também sobre outras coisas, como o machismo, o abuso relacional, e eu acabo entrando com uma música minha”, conta a artista, que, aos 22 anos, também escreve letras de músicas. “Sinto que é algo que tenho a necessidade de fazer, sempre estou me envolvendo nessas produções que têm um cunho emocional muito forte, e geralmente com pessoas pretas e indígenas que acabam me colocando nesse lugar emocional e político muito forte”, repara.

Apesar de ter como abrigo a Galeria Pilastra, no Guará, Pietra conta que boa parte dos trabalhos que faz acaba sendo vistos no Plano Piloto. E essa circulação pelas áreas nas quais está concentrado o maior poder aquisitivo do Distrito Federal tem um impacto na concepção artística da performer. “A anticolonialidade tem sido muito marcante nas minhas produções por perceber meu corpo num lugar como o Plano Piloto, de pessoas majoritariamente brancas, classe média. Isso acaba me colocando num lugar onde preciso apresentar as demandas que são do meu corpo, do meu povo, da minha gente, trazendo muito esse sentido de comunidade”, diz a artista, que fala muito da temática racial em todas as performances e letras. “Uma das estratégias do racismo é isolar as pessoas e assim concretizar o genocídio”, garante. Pietra começou a se envolver com artes e performances ao produzir festas em Brasília. Experimentos com música e poesia a jogaram para o mundo performático, um universo diferente daquele do curso de história que ela deixou de fazer na Universidade Federal do Piauí, de onde voltou em 2014.

(foto: RaissaPimentel/Divulgação)
(foto: RaissaPimentel/Divulgação)

Encontros 


Lara Ferreira, 21 anos, nunca teve muito acesso às artes até a adolescência. Criada em Santa Maria e hoje radicada na Candangolândia, vinha de um mundo no qual o teatro e as artes visuais encontravam poucos ecos. Na Universidade de Brasília (UnB), na qual entrou para cursar história, o rumo mudou. Lara começou a frequentar teatros e a assistir a peças. A relação com a escrita, existente mas nunca explorada de forma mais concreta até então, aflorou e ela passou a escrever. Oficinas de teatro e artes visuais se tornaram frequentes no cotidiano da estudante e, em 2016, ela escreveu Calibre 68 para a cura do corpo, texto vencedor do Prêmio Sesc para jovem dramaturgia.

Lara mudou de curso, foi fazer cênicas e passou a investir também em performances. Ser negra, da periferia, estudando em uma universidade de elite, fez com que também se desse conta de que o corpo era um instrumento narrativo. “O corpo é o lugar de onde parto sempre, o meu corpo, como me sinto, como faço para ser confortável. É um corpo negro, LGBT, um corpo que se diz mulher mas que questiona muito essa categoria. Então, de certa forma, acaba permeando muito esses lugares do recorte de gênero, raça e sexualidade”, diz.

Para Lara, estar em performance é a maneira de encontrar o olhar do outro de uma maneira mais afetuosa e poética. A solidão é uma palavra recorrente na fala da artista e um sentimento que ela afirma ser comum na comunidade negra. “A solidão do corpo negro é uma questão falada por muitos, ainda mais se é um corpo de sexualidade dissidente, por isso é um tema que abordo com muita força nas performances. Quando estou em cena, encontrar o olhar dessas outras pessoas negras à minha volta é sempre muito emocionante no sentido de que eu me sinto conectada e fortalecida na minha solidão”, garante. “As pessoas negras se sentem sós, porque, em grande parte de nossas relações, somos preteridas.”

Em performances como Mulambo e Salubá – Hoje é meu dia de nascer de novo, Lara explora camadas como a da espiritualidade e da ancestralidade. Mulambo é o nome de uma pomba gira e é, para a artista, uma fonte de inspiração espiritual. “Ela me dá força”, avisa. “Começo a performance desestabilizada e, conforme a fala vem, se transforma em discurso de força.” Em Salubá, apresentada na Galeria Pilastra e programada para o Queer lombos de Ouro Preto, ela trabalha com símbolos como a corda, a cabaça e o barro para falar de transformação.

(foto: Débora Passos)
(foto: Débora Passos)

Linha delicada 


Com delicadeza e precisão, a linha, seja ela sintética, seja um fio de cabelo, atravessa o tecido e marca ali um conjunto de formas abstratas, orgânicas e repetitivas. Desenhos que surgem das imagens do corpo feminino e da natureza. Ao final do bordado, a artista plástica Débora Passos, 31 anos, concretiza uma arte que transcende o universo micro do encontro entre agulha e linha, da sensibilidade, e reconstitui memórias e vivências pessoais, bem como de seus ancestrais.

Nascida em Teresina (Piauí), ela é moradora do Sol Nascente e formada em Artes Plásticas pela UnB. Com a mãe costureira, Débora aprendeu a técnica do bordado e fez do ofício não apenas uma manifestação do feminino, mas uma convergência de saberes. “Com fazeres que vêm de uma esfera não acadêmica, não oficial, que não faz parte da grande arte”, acrescenta.

No processo de busca proporcionado, principalmente, pelo fazer artístico imersivo, a artista se deparou com a origem afro-indígena. “Meu companheiro me questionou se sabia qual povo me deu origem e aquilo mexeu comigo. Vi-me como testemunha do apagamento histórico e da resistência”, detalha. Aqui, as formas orgânicas, as redes entrelaçadas dos desenhos e o uso do fio de cabelo intensificaram a poética de Débora. “Usar o cabelo é muito simbólico pelo poder de permanência, de perenidade ao mesmo tempo que é frágil.  Ao bordar, mergulho em todas essas questões. Estou mais focada no fazer”, afirma.

Apesar de um movimento contrário, Débora reconhece que o mercado da arte, sobretudo, o que legitima ainda é padronizado: hétero e branco. Ela tem se unido com o que chama de dissidentes para quebrar o padrão. “A sociedade faz com que as pessoas que queiram gritar tudo isso, mas não encontram voz, possam encontrar imagem. A gente precisa de alguma linguagem para dar vazão a isso e denunciar”, conclui.

(foto: Reprodução/Cortesia de A Pilastra)
(foto: Reprodução/Cortesia de A Pilastra)

Firmeza no traço


Pegar a batalha e transformar em maestria. Aos 25 anos, Xibi Rodrigues não tropeça ao falar da sua arte. Ela trabalha com muitas plataformas: pintura, desenho, gravura, instalação, poesia e performance poética. Com a mesma firmeza das palavras e dos traços dos desenhos em que retrata mulheres negras nuas, ela afirma: “nós, que somos artistas das regiões administrativas, a maioria não necessariamente busca entrar no circuito artístico comercial. A gente bota nosso nome, a cara no sol, mas não espera que vá ser assimilado pelo circuito. Diferentemente do movimento contracultural que alimenta a si mesmo, a gente faz arte para pessoas como nós, por meio da linguagem dos seus e entre os seus. Não quero convencer os outros a gostar do que produzo”.

Criada em São Sebastião desde que veio do Maranhão, Xibi se formou artista dentro de movimentos culturais da região antes mesmo de ingressar na UnB. “Eu desenhava e fui conhecendo artistas da cidade, a comunidade me recrutou e fui aprendendo a valorizar a cultura local”, relembra. Ao se sentir acolhida e contemplada, passou a expressar nos trabalhos o cotidiano, a rua, as vivências. “Tem muito a ver com o cotidiano, com o corpo. Essa ligação de pessoas negras, da periferia, terem de conhecer o próprio corpo, se entender, se valorizar. São imagens que eu vejo na rua. Símbolos de sobrevivência”, explica.
 
 
 
 
 



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