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Correio Braziliense

Em entrevista, Fernanda Montenegro fala sobre 'Piedade'

Em cartaz no 52º Festival de Brasília, o longa de Claudio Assis tem Fernanda Montenegro no elenco


postado em 21/11/2019 06:30 / atualizado em 21/11/2019 18:53

(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

Não se trata de exagero: em 52 edições, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, desde os primórdios, soube valorizar a trajetória da atriz Fernanda Montenegro — premiada na primeira cerimônia, justo com o filme que a projetou, A falecida (1965). Num caleidoscópio, a galeria de personagens criados pela atriz de 90 anos é por demais ampla para ser destrinçada. Mas, em Brasília, no festival, o brilho nunca deixou de ser surpreendente.

Fernanda Montenegro despontou, antológica, em Tudo bem (1978); deu suporte ao retrato feminino calibrado por Suzana Amaral, na pele de uma divertida esotérica, em A hora da estrela (1985) e esteve afiada nas composições de personagens dos sombrios Traição (1998) e Gêmeas (1999). Politizada, sábia e indispensável, na véspera da abertura do 52º Festival de Brasília, ela falou ao Correio.

Na telona, o espectador é que está premiado, pela dose dupla da atuação da atriz que estrela Piedade (atração de sábado, na abertura da mostra competitiva do Festival) e ainda participa do delicado A vida invisível, fita de Karim Aïnouz pré-selecionada para representar o Brasil no Oscar 2020. 

 

O que representa o Festival de Brasília, para a senhora que, em 1965, com A falecida obteve tanto reconhecimento, quando o evento ainda era chamado de Semana do Cinema Brasileiro?

 

Acho que eu ganhei o prêmio de melhor atriz, não foi? Eu não fui ao festival, porque ocorreu logo depois do nascimento da Nanda (Fernanda Torres), e eu ainda estava na Casa de Saúde (Rio de Janeiro). Acho que foi no primeiro dia, logo depois do nascimento dela. Eu tenho uma história minha por aí, que é impossível esquecer. É um festival que cuida do cinema brasileiro. Respeita e é resultado da produção em cinema nacional. De vez em quando, graças a Deus, tenho um filme por aí, sendo apresentado; junto com outros filmes igualmente importantes. No meu caso, muitas vezes, ligada a um excelente diretor, a um primeiríssimo diretor.

 

Fernanda Montenegro no filme A vida invisível, de Karim Aïnouz pré-selecionada para representar o Brasil no Oscar 2020 (foto: RTFeatures/Divulgacao)
Fernanda Montenegro no filme A vida invisível, de Karim Aïnouz pré-selecionada para representar o Brasil no Oscar 2020 (foto: RTFeatures/Divulgacao)
 

Como foi o encontro com Claudio Assis, diretor que está na mostra competitiva com o longa Piedade

 

Sempre admirei muito o Claudio. Fiquei muito tocada quando ele me chamou para participar deste filme. O roteiro era maravilhoso e se transformou num filme de primeiríssima qualidade. É uma viagem de contestação. Ele traz posicionamentos existenciais e existencialistas. Não é uma crônica política. Ainda bem, igualmente, não é uma viagem na criatividade explodida daquelas em que não se sabe aonde querem ir (risos). É um filme muito próprio para o momento em que vivemos.

 

O filme, parece, mostra a exploração de recursos naturais por poderosos... Por pouco, não alcança a atualidade da crise ecológica com o aparecimento de óleo nas praias?

 

Há um conceito no filme, que é o seguinte: na medida em que a reivindicação industrial e política destrói o indivíduo, os tubarões têm todo o direito de comê-los (risos). Eu estou repetindo orientações do Claudio (diretor); não estou inventando isso. A chamada força motora destrutiva, descarnada e desumanizada, dela só podemos ser salvos mesmos é pelos tubarões (risos).

 

A senhora acha que ajudou a amaciar a visão do Claudio Assis?

 

Na verdade, estou numa parte pequena do filme. Sou Carminha, a personagem que quer resistir — com o filho, ela não quer vender o pedaço de rio para a grande empresa petrolífera. E tem uma hora que sai para um banho: ela tomará aquele banho de chuveiro. Na cena, eu me posicionei ali como uma tubaroa. No chuveiro, o Claudio me fez cantar uma ode ao tubarão (risos).

 

Isso que eu ia perguntar. Pensava: 'será que há limitação ou falha possível para Fernanda Montenegro?' A senhora canta muito?

 

Não. Eu não canto é nada! Mas quando for necessário, eu canto (risos). Depende das necessidades. Para o filme, me preparei para uma canção linda, lin-da. Ela, a personagem, só tem uma saída: debaixo do chuveiro, cantar uma ode, uma ode modesta, primitiva, direcionada ao tubarão. Minha natureza, no filme, é me transformar numa tubaroa (risos).

 

Fernanda Montenegro com Claudio de Assis, diretor de Piedade, atração da mostra competitiva do festival(foto: Republica Pureza/Divulgação)
Fernanda Montenegro com Claudio de Assis, diretor de Piedade, atração da mostra competitiva do festival (foto: Republica Pureza/Divulgação)
 

Parece mais uma cena marcante, de banho, na sua carreira...

 

É. É mais um banho, depois do banho de chuva de A falecida (1965), no cinema. Mas lá era outra água: era uma água de libertação, por uma morte. Havia a crença de Zulmira (a protagonista) de que do outro lado (no encontro da morte), haveria melhorias. Aqui, no Piedade, não: aqui, no novo filme, o negócio é virar tubaroa, para comer quem quiser (risos). E atacar; na minha simplicidade, na minha pobreza. Na minha miséria.

 

Recentemente, no filme O beijo no asfalto, do Murilo Benício, a senhora dá verdadeiras aulas no registro dos ensaios. Estar em Piedade, com pessoas mais jovens como o Cauã Reymond, o Irandhir Santos, o Matheus Nachtergaele, traz possibilidade de aprendizado?

 

Totalmente! Nós somos resultado do próximo. Daquele que se está diante. Não existe interpretação sozinho, sozinha. É resultado sempre do outro — e é por isso que o ator de teatro — é daí que a profissão e a arte do ator se mostram eternas. Há uma saída para o outro, sempre. Há uma necessidade do outro. Vem daí o papel que lhe sobrar no jogo. O elenco do Piedade é um elenco de primeira! Não quero nem destacar nomes: quem entra em cena entra cumprindo uma missão muito poderosa da expressão do Claudio Assis. Em cinema, os atores são matéria-prima. A gente não comanda. Nunca. Projetam na gente um histórico e camadas que sejam próprias da história ou do filme. No elenco do Piedade — e não estou falando de mim —, dos mais jovens aos mais experimentados, tudo é de primeira.

 

Ver galeria . 6 Fotos  Claudia Ferreira/Divulgacao
(foto: Claudia Ferreira/Divulgacao )
 


O filme de Karim Aïnouz do qual a senhora participa (A vida invisível) está estreando e demarca uma personagem oprimida pelo patriarcado. Já Piedade deposita as fichas no matriarcado. Como percebe a conjuntura de escanteio do patriarca? 

 

No filme Piedade, minha personagem resiste, com o filho mais velho, resiste e resistirá, enquanto viver. Estar contra o patriarcado não é estar contra o homem. Não se pode misturar o patriarcado com conceito de ser contra o ser humano homem. Com o tempo, isso será esclarecido. Sempre quando se parte para um ganho na vida, com troca de conjunturas, muitas vezes, se investe em posições radicalizadas. Tenho tudo contra o machão: o machão é criminoso. Agora, o macho é essencial. Sem ele, a humanidade — diante da ciência — para. O macho é necessário, como a fêmea é necessária. Cada um dentro de sua opção sexual. E aí estamos noutro campo. O machão é que é um criminoso. 


O Brasil sempre depositou muita esperança na imagem da senhora — da imagem sacra de O auto da Compadecida (2000) ao momento a pátria de chuteiras, a favor da premiação no Oscar, pelo qual a senhora competiu, por Central do Brasil (1998). Como é ser um bem material cultural para toda uma nação?

 

Não. Não tenho esse lugar. Ninguém, na vida, é algo, sozinho. Nem quando se perde, nem quando se ganha. Não estou sozinha, nos meus 90 anos. Eu tenho incontáveis, in-con-tá-veis, companheiros de caminho. Não há solidão nisso, não há solidão existencial nem comportamental nisso. Não me vejo nessa posição. Não existe isso em mim. Fico olhando e digo não há esse lugar em mim. Não ambiciono este lugar. Faço parte de uma geração que produziu muito — até além do que pode. Tivemos um milagre de resistência. Mesmo que estejamos nas catacumbas, estamos vivos! Não houve morte — apenas estamos nas catacumbas. 


Quando pensamos em Tudo bem (1978), desponta a figura escandalizada da sua personagem algo alucinada; já em Eles não usam black tie (1981), se traz uma imagem de protagonista que acumulou sabedoria, com simplicidade. O momento, para a cidadã Fernanda Montenegro, leva a qual caminho, em termos de atitude?

 

Tudo bem é um filme delicioso do Arnaldo Jabor. Nós estamos vivos. À medida que nos cutucam, a gente grita! Somos tão poderosos, sabe? A cultura das artes é muito poderosa. Desde o cantador de feira até o primeiro ou a primeira bailarina de um teatro tradicional. Somos vários, somos muitos; diversos. E atravessamos milênios! Há espaço para a diversificação, e tudo bem.

 

Mas há um estado sombrio, não?

Há quem deseje coisas tão amplas e irrestritas, e outros preferem se fechar em determinado sistema. Todos estão no seu direito — tudo bem. Não há de se colocar eles numa prisão, numa impossibilidade. Não, isso nunca. Todos podem se expressar! Por mais que queiram abafar, os que se propõem, os que lutam pela diversificação, os mais afirmativos no campo da existência, da liberdade de expressão — estes são indestrutíveis. Na história, sempre se volta à liberdade. Na história da humanidade, há um período de pressão, de aparente extermínio; é só ver o tempo passar, que muitas vezes tudo de positivo volta, e solidificado.

 

 

 

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