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Correio Braziliense

Hugo Rodas remonta 'O olho da fechadura' no Espaço Cultural Renato Russo

Há 25 anos, o diretor apresentava a primeira versão do espetáculo no Departamento de Artes Cênicas da UnB


postado em 21/11/2019 06:35 / atualizado em 20/11/2019 21:53

(foto: Gui Campos/Divulgação)
(foto: Gui Campos/Divulgação)

“Agora, o espectador não tem mais remédio do que ficar observando tudo. Essa foi uma exigência muito grande, principalmente em um espetáculo de quase duas horas. Você tem que olhar o caminho, e não segui-lo”, explica o diretor Hugos Rodas. Depois de 25 anos da apresentação da primeira versão, ele remonta o espetáculo O olho da fechadura no Espaço Cultural Renato Russo. A peça reúne 17 textos do escritor, jornalista, romancista, contista, cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues e resulta da oficina-montagem oferecida pelo diretor no espaço cultural.

Se, na década de 1990, Rodas ocupou o Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília (UnB), do jardim às salas, transformando os espaços em inferno, purgatório e paraíso e provocando o espectador a percorrer os cenários, desta vez o diretor posiciona o público diante da fechadura, em um espetáculo frontal, e conduz, diante dele, um corpo de baile de 32 atores-alunos. Ali, unindo uma cena à outra, ao comando de Rodas, o grupo desnuda o humano em essência. É preciso ser o terceiro olho. “Quem percorre somos nós e não o público. Ele vê o que nós oferecemos para ele e isso foi muito interessante enquanto direção e criação do espetáculo”, comenta o uruguaio.

Para essa nova construção, Rodas conta com a participação de duas bandas do cenário brasiliense: O Tarot e Saci Wèrè. Os músicos tocam ao vivo e assinam, junto com o diretor, a trilha sonora do espetáculo, com composições autorais e músicas que lembram um cabaré. Além disso, alguns integrantes atuam na peça, como o vocalista d’O Tarot, Caio Chaim. Apesar do grupo apresentar um trabalho performático nos shows, O olho da fechadura foi o primeiro desafio do músico no teatro. “Ver como o Hugo abraça a nova geração de atores e músicos da cidade foi algo transformador na minha carreira e na carreira dos meus colegas”, conta.

A vivência teatral proporcionou ao artista uma nova relação com o palco, com a voz e, principalmente, com a palavra. “Minha linguagem como músico se transformou, claro que música e teatro são linguagens conexas, ambas se complementam. Mas a minha experiência pessoal com a palavra é outra, de degustar as palavras, o sentido delas, de entregar algo com sentido”, detalha. Ao colaborar na construção da trilha sonora, Chaim também entendeu que as notas musicais em cena carregam emoções, criam atmosferas. “Faz alçar sentimento, cria a paisagem sonora”, acrescenta.
 
A montagem resulta de uma oficina-montagem oferecida no espaço cultural(foto: Gui Campos/Divulgação)
A montagem resulta de uma oficina-montagem oferecida no espaço cultural (foto: Gui Campos/Divulgação)
 

No palco, os fragmentos de Nelson Rodrigues dirigidos por Hugo Rodas transcendem o caráter voyeur e criam uma atmosfera intensa, divertida, sem deixar de lado polêmicas, críticas e reflexões, características de ambos. “É impossível entrar ali e sair sem ter um lugar de desconforto. O Nelson trata da da análise do ser humano, o homofóbico, o misógino, o patriarcal. Problemas básicos morais e éticos da sociedade. Não consigo desvincular a reinterpretação do Hugo da obra do Nelson até pela trajetória dele e a mistura dos dois torna tudo ainda mais potente”, avalia Chaim.

Para Rodas, tudo não passa de coincidências. “É o ano das coincidências, do que estamos vivendo, de épocas, de políticas. É preciso acordar as pessoas para estar juntos. Sentir o humano de estar juntos, sentir o que está vivendo e como estamos vivendo, o compromisso de cada um com o viver, com o presente”, avalia. Resgatar a dramaturgia de Nelson Rodrigues nos dias atuais é quase um tapa na cara, como define o diretor. É contraditório ser algo tão presente e, ao mesmo tempo, tão censurável. “Mas viver essas contradições é o que nos transforma em algo positivo mais forte. É o que nos provoca a atuar”, afirma.

Em mais uma produção, desta vez diante do olho da fechadura, o diretor uruguaio convida o público a assistir os desdobramentos da essência humana. Com teatro, música e performance corporal como é sua assinatura, Rodas apresenta uma versão contemporânea de Nelson Rodrigues, com toques de encontros, união, amor e um convite à resistência.

O olho da fechadura

No Espaço Cultural Renato Russo. Com direção de Hugo Rodas. Amanhã e sábado, às 20h, e domingo, às 19h. Entrada gratuita.
*A recomendação é que as pessoas chegem com, pelo menos, uma hora de antecedência para garantir o ingresso. A bilheteria do espaõ cultural abre com uma hora de antecedência e atende por ordem de chegada. 

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