Publicidade

Correio Braziliense

Usina de Arte: projeto cultural reinventa antiga usina em Pernambuco

Projeto cultural e artístico transforma antiga usina de cana-de-açúcar abandonada, na Zona da Mata de Pernambuco, em um verdadeiro museu a céu aberto


postado em 24/11/2019 08:00 / atualizado em 22/11/2019 18:42

Geral do parque botânico com a usina ao fundo: 30 hectares com obras de arte e um jardim com mais de 350 tipos de espécies (foto: Andréa Rêgo Barros)
Geral do parque botânico com a usina ao fundo: 30 hectares com obras de arte e um jardim com mais de 350 tipos de espécies (foto: Andréa Rêgo Barros)
Uma vila com pouco mais de 5 mil habitantes, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, tem vivido um intenso processo de mutação. O imponente prédio da antiga usina ainda está lá, mas, em vez de moer cana e produzir açúcar, abriga obras e oficinas artísticas, em meio às ruínas do maquinário enferrujado. A cana-de-açúcar, que antes tomava conta dos morros ao redor, aos poucos, tem dado lugar a árvores, que fazem parte de um projeto de reflorestamento da região.

Mas as mudanças não são apenas físicas e geográficas. Desde 2015, a Vila Santa Terezinha, distrito do município de Água Preta, distante 130km do Recife, é palco de um projeto artístico-cultural, que vem transformando a população. Batizada de Usina de Arte, a iniciativa já rendeu um jardim botânico com mais de 20 obras de arte de renomados artistas nacionais e internacionais, uma rádio comunitária, uma escola de música, uma biblioteca e festivais culturais anuais.

A primeira moagem da Usina Santa Terezinha, fundada por José Pessoa de Queiroz, ocorreu em 1929. A partir daquela data, como tantas outras da região, viveu seu apogeu. Uma vila se instalou nos arredores da casa-grande, com cinema, clube, loja de departamento, escola e hospital. Com o fim do ciclo da cana-de-açúcar, veio a decadência, até o fechamento total da usina, em 1985. Nas mais de duas décadas que se seguiram, os moradores viveram em total desalento, reféns apenas das rendas com aposentadorias, empregos públicos e programas sociais do governo. Mas sempre sonhando com a volta da moagem.

Até as crianças e os adolescentes, que não conheceram a usina em funcionamento, clamavam por sua volta. “Nos últimos anos, pelo menos 10 usinas fecharam num raio de 50 quilômetros. Era inviável reabri-la”, garante Ricardo Pessoa de Queiroz, herdeiro da Santa Terezinha e, ao lado da mulher, Bruna Pessoa de Queiroz, idealizador do Usina de Arte. “Surgiu, então, o questionamento: como nos reinventar?”
 

O começo de tudo


Ricardo e Bruna lembram que a casa-grande, uma construção de 1940 do arquiteto grego Giácomo Palumbo, em estilo espanhol, estava fechada havia anos, quando, em 2012 o casal voltou a frequentá-la. Durante o processo de reforma do imóvel, os dois visitaram Inhotim, em Minas Gerais, e se encantaram pelo local. Ricardo ficou especialmente impactado com o trabalho de Hugo França, designer gaúcho que cria suas peças a partir de resíduos florestais.

No mesmo ano, eles convidaram o artista a ir à Santa Terezinha produzir uma das suas obras nos jardins da casa. No ano seguinte, Hugo voltou a Pernambuco e, desta vez, Ricardo e Bruna chamaram alguns amigos para conhecer o trabalho do designer. E repetiu a dose em 2014. Foi ele quem ventilou a ideia: por que não convidar outros artistas para fazer trabalhos similares? “Hoje, esse é o projeto cultural e artístico com contrapartida educacional mais importante do Brasil, princialmente por estar no Nordeste”, orgulha-se Hugo França dos frutos.
 
Ver galeria . 16 Fotos Obra Brasil 2017, do Paulo Bruscky Andréa Rêgo Barros
Obra Brasil 2017, do Paulo Bruscky (foto: Andréa Rêgo Barros )
 
Foi dele também a ideia de convidar José Rufino — artista plástico paraibano que, em suas obras, utiliza materiais relacionados à história de sua família, antigos donos de engenho — a conhecer a usina. “Confesso que, em um primeiro momento, quando fui procurado por Ricardo, fiquei com um pé atrás. Pensei: o que um usineiro quer comigo?”, diverte-se. Mas, depois de alguma resistência, decidiu visitar o local. Foi o primeiro, depois de Hugo, a participar de uma residência artística em Santa Terezainha.

Rufino lembra que, antes da visita, em julho de 2015, preparou um projeto para apresentar a Ricardo. Mas, ao chegar ao local, viu que ele não fazia o menor sentido. Perambulando pela propriedade, ele chego ao hangar, transformada em oficina mecânica. “Passei dias olhando os homens trabalhando, soldando.”

Aos poucos, foi se aproximando dos trabalhadores e iniciou, de forma colaborativa com eles, a primeira obra: uma parede com facões usados no corte da cana posicionados, a princípio, como um bailado do maculelê — dança de origem africana. “Muitos desses facões foram combinados e soldados pelos próprios trabalhadores.” O projeto que Rufino inicialmente tinha levado para apresentar a Ricardo nunca saiu do papel. "Ele não fazia mais sentido."

O Jardim Botânico

A obra Átrio, de Marcelo Silveira, é uma réplica do pátio da casa-grande (foto: Andréa Rêgo Barros)
A obra Átrio, de Marcelo Silveira, é uma réplica do pátio da casa-grande (foto: Andréa Rêgo Barros)

Defensor de um trabalho orgânico, Rufino, que hoje é curador da Usina de Arte, cita uma obra como emblemática neste conceito de o artista sair do mundo simbólico para entrar no real. A Rádio Catimbó, do artista pernambucano Paulo Meira. Trata-se de uma instalação em aço e alumínio com uma antena de 30 metros e aspecto de aeronave. A obra fica ao ar livre e deu origem à rádio comunitária homônima, que opera na frequência 93,5 FM e é ouvida e tocada pela população local.

Aos poucos, o jardim botânico e artístico vem ganhando forma e obras — muitas delas concebidas no próprio local, como a Brasil 2017, criada pelo artista multimídia Paulo Bruscky, a Tempo Templo, do paraense Bené Fonteles, e a Eremitério Tropical, do pernambucano Márcio Almeida. Já o Átrio, de Marcelo Silveira, é uma réplica do pátio da casa-grande, que tanta curiosidade despertava na população da vila. Recentemente, o parque ganhou a obra Cabanos em Água Preta, da mineira Liliane Dardot, fruto de um trabalho de pesquisa da artista na região.

As mulheres, aliás, têm sido uma prioridade na nova safra da Usina de Arte. A artista plástica Regina Parra deve começar em janeiro uma residência artística. Trabalhos de Juliana Notari e Oriana Duarte também estão em andamento.

Uma das grandes aquisições será o Jardim Frágil, trabalho projetado pelo renomado artista cubano Carlos Garaicoa, que tem obras espalhadas por todo o mundo. Trata-se de uma espécie de estufa, onde funcionará o orquidário da propriedade, que será ornado com cristais e vidros de Murano. O espaço também abriga aquisições que não foram feitas para o parque, como a Tinha que Acontecer (Cabeça de Bandeirante), de Flávio Cerqueira, que ficou, em 2017, no estacionamento da Pinacoteca de São Paulo, e hoje flutua em um dos três lagos do jardim botânico. A TIUMMMMTICHAMM, do gaúcho José Spaniol, também ganhou lugar de destaque.

As obras estão dispostas em 30 hectares de jardim, criação do biólogo e paisagista Eduardo Gomes Gonçalves, que conta ainda com três lagos artificias. “Hoje, temos mais de 3.500 espécies diferentes plantadas”, orgulha-se Ricardo, que tem entre os xodós o palmeto — com cerca de 200 espécies de palmeiras — que está em construção. 
 

O festival

Scopolus, escultura de José Rufino, com a parede ornada com facões: interação (foto: Andréa Rêgo Barros)
Scopolus, escultura de José Rufino, com a parede ornada com facões: interação (foto: Andréa Rêgo Barros)

Anualmente, a Usina de Artes promove ainda um festival. É quando a vila fervilha, com a chegada de turistas da região e artistas de todo o Brasil. Este ano, cerca de 30 oficinas foram ministradas, entre pintura, fotografia, cinema, dança, robótica, azulejo, grafite, tecido acrobático, desenho, canto e tantas outras. Entre os ministradores, nomes como artista paulistana Leda Catunda; a cantora e o musicista Livia Nestrovski e Fred Ferreira; a jornalista e radialista Patrícia Palumbo e tantos outros. O público: crianças, jovens e adultos da comunidade.

À noite, apresentações de artistas locais e nacionais, como Elba Ramalho, Arnaldo Antunes, Mariana Aydar, Almério e Martins — tudo gratuito e na praça da vila. O festival, que acabou de realizar a quinta edição, surgiu a partir do Festival da Serrinha, que ocorre desde 2002 em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, co-idealizado por Fábio Delduque, que hoje é curador do evento pernambucano. Ele também é um dos ministradores da oficina de mosaico e autor de uma obra coletiva, instalada na entrada da vila.

Na conclusão da oficina de dança, mediada por Mônica Lira, do Grupo Experimental, do Recife, meninas e meninos da comunidade se uniram a quatro dançarinos profissionais para apresentar um espetáculo em que interagiam pelas obras de arte. A oficina de cinema, conduzida por Maria Eduarda Andrade, rendeu um minicurta como roteiro, direção e atuação da garotada. Já os papangus, manifestação do folclore nordestino, do estilista Dudu Bertolini desfilaram pelas redondezas da usina.

Os moradores já sentem as mudanças no dia a dia. Ganharam uma escola de música, equipadas pelos mais diversos instrumentos e que oferece aulas diárias para as crianças e os adolescentes da comunidade. “Temos uma parceria com o Conservatório Pernambucano de Música, no qual dois sábados por mês os alunos vão até o Recife e nos outros dois sábados, os professorem vêm até nós”, detalha Bruna. Uma biblioteca climatizada e com mais de três mil exemplares catalogados e impressora 3D também acaba de ser inaugurada.

Sem falar nos frutos econômicos que começam a ser colhidos. A vila, que só tinha uma lanchonete, hoje conta com quatro restaurantes, uma pousada, um pesque e pague e uma área de camping. Os artesãos locais recebem consultoria do Sebrae e começam a comercializar seus produtos, a exemplo de se Bau. Marceneiro da família Pessoa de Queiroz, ele teve Hugo França como mestre e, atualmente, produz verdadeiras peças artísticas feitas com troncos de árvores. “Hoje, até eu confundo o que é peça minha e o que é de Bau”, brinca Hugo França, com o orgulho de que viu começar aquilo tudo.


A jornalista viajou a convite da Usina de Arte 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade