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Correio Braziliense

'Piedade', de Claudio Assis, apresenta uma renovação do diretor

Confira a crítica do primeiro longa da mostra competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro


postado em 25/11/2019 11:50

(foto: Republica Pureza Filmes/Divulgação)
(foto: Republica Pureza Filmes/Divulgação)


“Tem o homem, e tem o valor do homem”, demarca o resistente e íntegro personagem de Irandhir Santos no mais novo filme de Claudio Assis, Piedade. Junto com a mãe, Carminha (Fernanda Montenegro, preciosa), Omar (Irandhir) observa a desolação nos arredores do bar Paraíso do Mar, na Praia da Saudade (Pernambuco), um antigo local agregador. Cabe à família de Omar ver o poderio agir e, como diz, perceber os “corais (do mar) transformados em reais”. Estão nas mãos da especulação imobiliária.

O embate vem com a figura do presunçoso empresário Aurélio (Matheus Nachtergaele, nunca menos de que preciso) que, na base das mordiscadas, tece o plano de, com as presas de tubarão recolhidas, dar o bote. No vocabulário dele pesam palavras como “ressarcimento e realocação para os habitantes”: tudo substitui “venda” de terras. Nadando em citações de cinema e apostando na autorreferência (com uso de cenas de Baixio das bestas, até), Claudio Assis se renova quando deposita fichas numa poesia colorida, a serviço do onírico.

Claro que o cinema do diretor de Amarelo manga volta a desconcertar, como na defesa, por exemplo, de que “sexo é cheiroso”, como ressalta a figura de Sandro (Cauã Reymond), fundamental aos pilares da trama, na pele do dono de um cinema pornô. Investindo em denúncia, em registro de protestos — com reforço do personagem Marlon (Gabriel Leone, em interpretação notável), Assis dispensa tons de autoritarismo (num contraponto a Big jato) e explana ganhos da união familiar.

Entre imagens fortes, a mais latente brota da sutileza: nem tudo desemboca em alegrias e nas explosões prazerosas que o diretor pernambucano ofertou no passado na telona. Rico, o novo debate encerra o valor do sintético (em primeiro plano, no caso da tecnologia e da compulsão sexual de Aurélio nutrida nas redes), superando a interação com a natureza e mesmo as relações humanas. Pesa o triunfo e a ressaca da desolação.

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