Publicidade

Correio Braziliense

Confira a crítica do longa-metragem 'Alice Júnior', de Gil Baroni

A trama tem como protagonista uma adolescente trans que sai de Pernambuco e aterrissa em uma cidade conservadora


postado em 27/11/2019 09:01 / atualizado em 27/11/2019 09:01

A personagem Alice (a atriz Anne Celestino) ergue a cabeça, à frente do longa 'Alice Júnior'(foto: Beija Flor Filmes/Divulgação)
A personagem Alice (a atriz Anne Celestino) ergue a cabeça, à frente do longa 'Alice Júnior' (foto: Beija Flor Filmes/Divulgação)

Há dois anos, numa visão com quê, agora, antiquada, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro ofertou um prêmio Candango de “melhor ator social” para Emely Fischer, pelo filme Música para quando as luzes se apagam. Emely era personagem e atriz trans. Agente transformador para a sociedade, o cineasta Gil Baroni, à frente do longa Alice Júnior, coloca em primeiríssimo plano ideias e atitudes entranhadas na atriz Anne Celestino. Num trabalho afinado com os corroteiristas Luiz Bertazzo e Adriel Nizer Silva, Baroni e Celestino chegam, chegando. Conta muito a favor o processo orgânico de absorver e ajustar para a linguagem de memes, curtidas e afins da era virtual. Depois do hibridismo com a tevê, o cinema se realinha, numa comunicação direta com o público, por meio da internet.

Garota trans, criada na tranquilidade de Boa Viagem (Pernambuco), Alice Júnior é estabanada, impaciente e abraça a condição de brilhar quase por obrigação. O nome social Alice, com a condição trans, terá tudo para incomodar na conservadora Araucária do Sul, uma “roça iluminada”, para a qual Alice se desloca, por causa de um desafio profissional dado ao pai dela, o francês Jean (Emmanuel Rosset). Antenado no superlativo de cores — com ultradose de roxo, púrpura, rosa, violeta e purpurina —, numa edição repleta de cacoetes da internet (a cargo de Pedro Giongo) e com personagens caricatos, Alice Júnior, por vezes, parece misto de adaptação da animação de As meninas superpoderosas com Malhação.

É inegável a corrente de risos desenfreados que tanto se aproxima da expressividade juvenil. Beat box, grafismos e a interferência de Gretchen (alçada à condição quase de guru) são algumas bússolas para a comédia — sem contar a participação da gata Rinoceronta, um achado. Entre festas, restrições nos corredores da escola e cyberbullying, conta com parcas companhias agradáveis, casos de Taísa (Surya Amitrano) e Bruno (Matheus Moura), o crush. Num ato falho, Alice, quando apresentada para Bruno, o namorado de Taísa, dispara: “Muito prazer; e ele é todo meu!”.

A favor da identidade de gênero, a protagonista não foge à luta: prega, ao lado do pai, o peso da lei (via advogados) no lugar dos “valores” tradicionais e atualiza quem resiste a se readequar a convicções individuais e sociais. Ao som de Bumbum de ouro, muita coisa se resolve no enredo. Num campo didático e de plena identificação, o filme insere as máximas “mexeu com uma, mexeu com todas” e enraíza tópicos como “lute com seu corpo”. Transbordam situações de contestação, mas nunca se perde o foco do humor. Katia Horn, no papel da mãe de um gay, tem um dos grandes momentos, quando — inquirida sobre a profissão (seria bióloga ou botânica?) — dispara: “Não, sou cachaceira”.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade