Diversão e Arte

Confira a crítica de 'O tempo que resta'

Filme fala duas mulheres que são símbolo da resistência na proteção da natureza

Ricardo Daehn
postado em 30/11/2019 06:30
Buscar uma razão para viver, com naturalidade, motiva infinidade de pessoas ; mas, num contraponto, antecipar na morte (anunciada) um sentido de ter existido é algo torturante de ser testemunhado (mesmo como espectador de filme). A premissa de duas batalhadoras mulheres, no auge da produtividade e do sustento nas terras em que trabalham no Pará, desemboca em desenvolvimento, mas incompleto, na trajetória do documentário assinado pela diretora Thaís Borges. Ambas pagam caro para combater madeireiros, "verdadeiros cupins da Amazônia" (como demarca uma delas).
[FOTO1] A resistência se estende ao agronegócio e à mineração desmedida. O filme O tempo que resta, de produção brasiliense, enobrece atos e dá visibilidade às corajosas Maria Ivete Bastos e Osvalinda Marcelino Pereira. A primeira é articulada e encampa a experiência prévia à frente do sindicato dos trabalhadores rurais de Santarém, enquanto a companheira de luta traz uma autenticidade e um olhar vibrante, acuado, por vezes, mas de alguém que persevera. Empoderamento, sem desgaste da expressão, é gritante em ambas.
Sem elaboradas pretensões de impacto, a produção aposta em denúncias que chegam com expressiva sobriedade. A ação de madeireiros e o espraiar de grilagem ocasionariam o suposto não pertencimento dos ditos "pequenos" produtores comprometidos com a Terra. Mas, Osvalinda e Maria são obstinadas. A relação efetiva de respeito com a terra vem nos cuidados das imagens registradas quando as personagens vão a campo: na apicultura, no processamento de açaí e cupuaçu; além disso, a atenta direção de fotografia de Mayangdi Inzaulgarat capta o relógio sem andar (com a bateria fraca, na parede), numa metáfora perfeita sobre o impasse do cotidiano tenso das personagens centrais. "Eu não durmo quase, não", diz uma das figuras atingidas por juras de morte.
Alinhado à exposição da própria exuberância da Amazônia, uma dose de humor atravessa a narrativa, como num bálsamo para o retrato de mulheres sondadas, a todo instante, pela morte que manda recados diretos: ameaças de fogo a ser jogado em corpos, covas previamente cavadas (no terreno dos trabalhadores) e o iminente desamparo da justiça. Sem reforçar dados presentes em quadro, a trilha sonora de Túlio Borges se apresenta extremamente pertinente.
Numa dinâmica que revela o grau de integração da diretora com os entrevistados, Dona Maria (mãe de Maria Ivete) ; vista como conselheira dos vizinhos ; conta um causo de um homem resistente à ideia do exame de toque. ;Aquilo (o exame de próstata realizado) liberou a vida dele;, conta, às gargalhadas, num dos momentos de imensa empatia com o público.
Os companheiros de vida das duas mulheres, igualmente se mostram relevantes em toda a dura conjuntura. Mas grande parte do foco converge para as vinganças (dos representantes de poderosos) em curso. Elas deixam claro que não é ;a cara do homem; o motivo do temor, mas ;a arma do pistoleiro;. Na indignação de ver imediações de casa transformadas em ;corredor; para os caminhões com a madeira derrubada, as personagens do filme sofrem, empreendem rotas de fuga das próprias casas, sem desviar do chamado maior do objetivo de lutar a favor não de si, mas do Brasil. O respaldo da exposição no filme de Thaís Borges lhes dá ao menos uma tríade de resguardo: O tempo que resta se apresenta um retrato ético, digno e mais do que oportuno com as calamidades atuais do país.

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