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Correio Braziliense

Raio X da cena audiovisual no DF mostra a diversidade da produção

Conheça os novos nomes da cena cinematográfica brasiliense


postado em 02/12/2019 08:58 / atualizado em 03/12/2019 09:37

Filipe Alves, diretor de 'Cão maior' (2019)(foto: Liana Réquia/Divulgação)
Filipe Alves, diretor de 'Cão maior' (2019) (foto: Liana Réquia/Divulgação)

Território de cineastas consagrados na área, como René Sampaio e Iberê Carvalho, Brasília tem visto a cena cinematográfica se renovar. Realizadores como Bruno Victor, de Afronte (2017), Elisa Souza, de O homem que não cabia em Brasília (2016), Filipe Alves, de Cão maior (2019), e Julia de Lannoy, de Ambulatório (2019), tem se destacado nesse cenário. Por isso, o Correio foi em busca desses cineastas para contar as histórias sobre quem fica atrás das câmeras.

Com o frescor de novas referências e perspectivas, esses jovens renovam os olhares sobre o cinema brasileiro. Segundo o Anuário Estatístico do Cinema Brasileiro 2017, foram lançados 463 filmes no país, sendo 160 (34,78%) nacionais — o maior número desde 2009, quando o documento iniciou a reunião de dados. Não há separação, contudo, dos diretores por idade. Publicados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) em outubro do ano passado, os números são os mais recentes sobre o tema.
 
“O cinema é potente. O que eu mais gosto de trabalhar com cinema é que eu estou sempre fazendo uma coisa diferente, sempre tendo experiências que eu não teria”, revela Elisa, de 25 anos. Mas não para por aí. “O audiovisual é uma ferramenta única para se explorar a riqueza de universos tão particulares e promover encontros”, complementa Filipe, 21, que estreou na direção com o curta Cão maior (2019). Os encontros na telona também ocorrem em set, atrás das câmeras.

Muitas vezes, o início da carreira profissional se dá em produções na faculdade. “É uma coisa muito gostosa de fazer escola de cinema é ir aprendendo com os amigos, os trabalhos ficam cada vez melhores”, destaca. Assim como no filme O homem que não cabia em Brasília (2016), Elisa foi uma das responsáveis pela direção de fotografia no documentário Ambulatório (2019), de Júlia de Lannoy, que esteve na Mostra Brasília 2019.

Júlia de Lannoy, diretora de 'Ambulatório' (2019)(foto: Isabella Silveira/Divulgação)
Júlia de Lannoy, diretora de 'Ambulatório' (2019) (foto: Isabella Silveira/Divulgação)


Em comum, as amigas também nutrem as razões pelo interesse no cinema: ambas entraram para jornalismo na UnB e mudaram de curso para audiovisual. “Meu interesse surgiu a partir do jornalismo quando eu percebi que não queria ser repórter, mas trabalhar com edição de imagem ou cinegrafia. A parte que eu gostava mesmo era o audiovisual em si, principalmente internet, com conteúdos produzidos para o YouTube”, relembra Júlia.

A produção universitária também é o caso do curta Cão maior, que nasceu numa disciplina do curso de audiovisual na Universidade de Brasília (UnB). “É uma posição bem nova para mim (atuar como diretor), então tudo tem sido uma surpresa. É muito animador poder compartilhar uma obra e ver o que ela suscita nas pessoas, os pensamentos e os sentimentos que vêm à tona”, orgulha-se Filipe.

“Observar a forma como as pessoas são afetadas é até um processo de redescoberta nosso da história. Isso tem sido bem revigorante”, acredita Filipe. O sopro de sucesso e de reconhecimento tem ganhado força com os prêmios: o de melhor filme pelo júri popular no 3º Festival Universitário de Cinema de Brasília foi apenas um deles.
Além disso, o curta continua a marcar presença no circuito de festivais — até agora, foram oito. A estreia, inclusive, se deu na 2ª Mostra Universitária do Festival de Gramado, no Rio Grande do Sul. “É muito bom poder mostrar que produções iniciantes são capazes de tanta força e lembrar que o cinema universitário é de grande valor e deve ser apoiado”, destaca.

Candango de coração

Bruno Victor e Marcus Azevedo, diretores de 'Afronte' (2017)(foto: Arquivo Pessoal)
Bruno Victor e Marcus Azevedo, diretores de 'Afronte' (2017) (foto: Arquivo Pessoal)


Goiano de Anápolis, o cineasta Bruno Victor Santos veio para Brasília aos 8 anos, com a mãe, a maior incentivadora. A cidade onde cresceu — até os 12 — também é berço de sua formação cinematográfica. “Antes do meu interesse por cinema, veio o de entrar para a UnB”, conta o jovem de anos. O diretor acredita, ainda, na função social do cinema: além da arte, criar novas narrativas. “O que me inspira é trazer novos olhares para o audiovisual”, ressalta.

O cineasta passou a ser conhecido pelo documentário Afronte (2017), que participou da Mostra Brasília 2017, na qual foi agraciado com o Prêmio Saruê, concedido pela equipe de Cultura do Correio. “Afronte foi realmente fundamental na carreira. Foi meu primeiro filme, com o Marcus Azevedo, e com ele veio uma resposta muito positiva em relação ao nosso trabalho, a como a gente trabalha e a como produzimos nossas narrativas”, conta.

“É um trabalho horizontal, sem a verticalidade do cinema tradicional. Então, a gente busca se espelhar nesse primeiro trabalho para continuar produzindo de maneira consciente”, descreve. A aceitação entre o público foi grande, tanto que os diretores buscavam captar recursos para produzir série derivada do filme. Em agosto, no entanto, a obra sofreu críticas do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que afirmou que o filme não receberia patrocínio da Ancine. Nas palavras dele, em transmissão ao vivo pela internet, esse foi “mais um filme que foi para o saco”.

A nova produção da dupla, Rumo (em fase de pós-produção, sem previsão de lançamento), percorre os 16 anos das cotas raciais na universidade que é o lugar de formação deles. Além da temática, Bruno destaca a quantidade de profissionais negros envolvidos. “A gente tem muito orgulho disso, não só de contar uma história da população preta, mas também ser uma produção majoritariamente negra”, ressalta. Com o tempo, vieram a experiência e os novos projetos. Por isso, acredita que esse seja um trabalho com mais maturidade que o primeiro.

Representatividade


“Eu sempre me encontrei na faculdade de cinema em um não lugar, pensando que a gente via poucas histórias parecidas com nossas narrativas pessoais”, afirma Bruno Victor. Foi numa disciplina sobre cinema negro que o diretor encontrou novas inspirações na vida e no trabalho. “Foi um momento muito importante para compreender que a gente (negros) tem lugar no cinema”, aponta. Bruno entende que ainda é baixa a presença de produtores negros nos projetos audiovisuais, mas que tem buscado mudar isso, como em Rumo.

Mas não para por aí: outras produções tem tido igual preocupação. “Eu e minha equipe conversamos muito sobre como o audiovisual pode construir novas possibilidades e caminhos. É importante trazer narrativas que nem sempre tiveram espaço e mostrar a grandeza de personagens ao nosso redor que regularmente são reduzidos e destratados”, pontua Filipe. Demarcando temáticas em comum, os dois filmes foram exibidos juntos em 22 de novembro, no Festival LGBT de Arte e Cultura Brasília Orgulho.

Outra letrinha LGBT presente nas produções é a dos transexuais, como no documentário Ambulatório, que também foi o Trabalho de Conclusão de Curso de Júlia de Lannoy. “Estar na Mostra Brasília, participar do festival, é uma emoção. É trabalho em que eu acredito demais”, destaca a documentarista, que cresceu assistindo ao evento.

Conexão 


Elisa cresceu assistindo a filmes com a família, mas nunca pensou em trabalhar na área. Em 2013, na UnB, os planos mudaram. Bastou cursar uma matéria introdutória de comunicação — oficina básica de audiovisual —, no primeiro semestre, para descobrir que não estava no curso certo.

Elisa Souza, diretora de fotografia de 'O homem que não cabia em Brasília' (2016) e 'Ambulatório' (2019)(foto: Arquivo pessoal)
Elisa Souza, diretora de fotografia de 'O homem que não cabia em Brasília' (2016) e 'Ambulatório' (2019) (foto: Arquivo pessoal)


“Eu me joguei de cabeça. Todos os filmes que eu conseguia fazer na faculdade ou fotografar (fazia). Logo no começo, percebi que queria ser diretora de fotografia. Meu interesse era na parte de câmeras e de luz. Antes disso, eu achava que gostava de direção de arte (cenário, figurino e maquiagem)”, relembra a jovem, que acabou escolher o nicho de carreira em que há menos mulheres.

O primeiro longa foi realizado durante um estágio. De lá para cá, já são seis anos, mais de 30 filmes e, agora, um mestrado em andamento em direção de fotografia para cinema no American Film Institute (Instituto Americano do Cinema), em Los Angeles, Califórnia. “Eu sou muito grata à UnB. Ela mudou tudo para mim. Se não fosse a experiência lá, eu nem saberia o que queria fazer”, conta a brasiliense.

A cineasta destaca que sempre teve vontade de estudar e de se especializar na área, mas que a cidade não foi uma escolha específica. “Eu vim por causa do lugar (AFI), essa escola é fantástica”, continua. Elisa começou como assistente de câmera e, até hoje, se considera assim, mas também faz trabalhos como diretora de fotografia.
“É uma área muito desvalorizada, mas o audiovisual está presente na vida de todos”.

*Estagiária sob supervisão de Severino Francisco 

Os filmes dos novos cineastas


Afronte (2017)
Dirigido por Bruno Victor e Marcus Azevedo, o documentário traz a trajetória de empoderamento de Victor Hugo, jovem negro, gay e periférico.

O homem que não cabia em Brasília (2016)
Dirigido por Gustavo Menezes, o filme conta a história de um morador de rua em busca do sonho utópico de viver na capital federal. Na obra, Elisa Souza foi uma das responsáveis pela direção de fotografia (junto a Ana Luísa Meneses).

Cão maior (2019)
Dirigido por Filipe Alves, o curta-metragem traz a perspectiva LGBT+ a partir do romance desencadeado entre os protagonistas Ícaro e João.

Ambulatório (2019)
Dirigido por Júlia de Lannoy, o documentário retrata o Ambulatório de Atenção Especializada às Pessoas Travestis e Transexuais do DF, na 508/509 Sul, e o atendimento a pessoas trans no Sistema Único de Saúde (SUS). No filme, Elisa Souza fez a direção de fotografia.

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