Publicidade

Correio Braziliense

Voz das ruas, o grafite passou por mudanças ao longo das décadas

Por conta das necessidades artísticas de inovar e renovar, o grafite começou a evoluir. Atualmente, traz uma cultura pop, na qual os desenhos começam a ser inseridos dentro das produções


postado em 02/12/2019 09:14 / atualizado em 02/12/2019 14:59

O desenho e os personagens animados fazem parte do movimento grafite(foto: Emanuelle Sena/Divulgação)
O desenho e os personagens animados fazem parte do movimento grafite (foto: Emanuelle Sena/Divulgação)

Um dos movimentos de arte urbana mais populares do mundo, o grafite surge atrelado ao hip-hop e como uma ação de contracultura. É a voz das ruas, é a expressão dos menos favorecidos socialmente. As produções de grafiteiros, na década de 1970, iniciou-se nos Estados Unidos e chegou no mesmo período ao Brasil com o mesmo conceito, mas com um estilo bem brasileiro.

Este estilo nacional é baseado, primeiramente, na questão da escrita. No começo do movimento, os artistas de rua escreviam palavras com letras desenhadas e em cor preta. As paredes e muros das cidades eram os locais mais comuns de trabalho dos grafiteiros, sendo que alguns utilizavam locais mais incomuns como vagões de trem e o topo de prédios para deixar uma marca registrada.

Curujito, que faz grafite há 15 anos, explicou a essência do movimento. “O grafite é um movimento tradicional. É considerado o que está na rua, feito sem pagamento, sem tema, uma coisa espontânea. A pessoa vai lá e escreve seu nome, sem deixar a questão social de lado. É uma cultura antissistema. É um movimento que coloca a arte nas ruas, para o acesso de todos.”

Assim que o grafite começou a tomar conta dos locais urbanos, a opinião das pessoas ficou dividida. Uma parte, principalmente da classe artística, lutou para a legitimação do movimento. Por outro lado, boa parte das pessoas buscou marginalizar a arte, trazem problematizações ao que produziam os grafiteiros.

Por conta das necessidades artísticas de inovar e renovar, o grafite começou a evoluir. Atualmente, traz uma cultura “pop”, na qual os desenhos começam a ser inseridos dentro das produções. Mais do que isso, a utilização de cores diferentes de spray fazem com que a arte ganhe um tom menos marginalizado e aproxime as pessoas, mas sem deixar de lado a questão social.

Spek, grafiteiro de Brasília, conta um pouco das mudanças do grafite. “A transição foi uma coisa natural, da evolução dos trabalhos. A partir do momento que as escritas foram evoluindo, veio a necessidade de ter desenhos e murais temáticos. Essa mudança de coloração foi uma transição do picho pro grafite. Nesse caso, foi uma necessidade individual de cada escritor na rua.”

Mesmo assim, a questão da rejeição por parte da sociedade permanece presente. “É impossível tirar da visão social a questão marginalizada do grafite. A sociedade não aceita o grafite na íntegra. Essa aceitação, hoje em dia, é muito mais visível, mas, mesmo inconscientemente, a sociedade ainda marginaliza o grafite. A aceitação sempre está nos personagens ou nas cores. A escrita, que é a essência, acaba ficando um pouco de lado, como a parte marginalizada”, explica.

Novos espaços


Na ocupação realizada neste mês, no Setor Comercial Sul, é possível observar as diferentes maneiras de se trabalhar com os sprays. Desenhos, escritas e colorações se intercalam. Por esses e outros motivos que muitos grafiteiros começam a se profissionalizar e tornar as produções de rua em coisas rentáveis, com a intenção de ocupar espaços até então inimagináveis como o de galerias e exposições. Essas mudanças trazem divergências entre os grafiteiros, mas de maneira saudável e respeitosa, sem qualquer tipo de intriga. Faz parte do movimento.

A escrita, base do grafite, ganhou novidades como a coloração(foto: Emanuelle Sena/Divulgação)
A escrita, base do grafite, ganhou novidades como a coloração (foto: Emanuelle Sena/Divulgação)


Curujito entende a nova tendência, mas ressalta que ainda é um paradigma dentro do grafite. “Alguns grafiteiros estão se enxergando como artista e utilizando as técnicas para fazer quadros, instalações e entrando nesse mercado. É uma coisa legítima a pessoa se profissionalizar, entrar em contato com novas técnicas e buscar esse mercado da arte que move muito dinheiro. Por outro lado, tem a tradição de ser contra isso. Isso é um dos paradigmas do movimento. Não fazemos por dinheiro, o grafite é a arte mais pura na essência. Não tem valor.”

Spek acredita que a mudança é positiva para os grafiteiros. “É bom para a galera que faz grafite há muito tempo. Influencia de forma positiva. Dá espaço e visibilidade para os trabalhos de grafite. Para esse tipo de transição ocorrer, existe a adaptação da arte que o grafiteiro faz na rua para ocupar a galeria. O grafite da galeria não é, na íntegra, o grafite que você vê na rua. O grafite é um pouco maquiado para entrar nas galerias. Mas é um ponto positivo ganhar esse espaço atuando como grafiteiro.”

*Estagiário sob a supervisão de Igor Silveira

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade