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Correio Braziliense

Brasília e a ditadura estão inseridas no novo livro de Milton Hatoum

Milton Hatoum lança, no Beirute, segundo volume de trilogia que acompanha personagem da adolescência à idade adulta


postado em 03/12/2019 06:33 / atualizado em 02/12/2019 20:22

São Paulo e Paris estão na narrativa de Milton Hatoum (foto: Fabio Setimio/ Divulgação)
São Paulo e Paris estão na narrativa de Milton Hatoum (foto: Fabio Setimio/ Divulgação)

 

No segundo volume da trilogia O lugar mais sombrio, Martim, o protagonista, embarca em delírios frutos de uma confusão mental decorrente de um trauma familiar. Ele não está mais em Brasília, como no primeiro volume. Dessa vez, o livro se divide entre São Paulo e Paris. Mas a capital federal marcou para sempre o personagem criado por Milton Hatoum. Em Pontos de fuga, que o autor lança hoje no Beirute da Asa Sul, Martim vai se tornar um exilado político, a ditadura está no auge e a busca pela mãe toma proporções dramáticas.

 

 

 

Apesar do deslocamento da narrativa para São Paulo e Paris, Brasília ainda é muito presente e deixou marcas no personagem. “Várias marcas”, avisa Hatoum, que tem com a trilogia uma relação autobiográfica, já que ele também viveu na capital nos anos 1960, como estudante. “Os amigos, a escola (o finado CIEM), o espaço da cidade, a solidão, a beleza do cerrado, a formação intelectual, política, sentimental... E também a literatura. Meu primeiro poema foi publicado no Correio Braziliense, não me lembro se em 1968 ou 1969. Mas a longa temporada na capital foi também traumática, por causa da repressão e do ambiente opressivo. Tudo isso deixou marcas profundas também no Martim, o narrador central do romance. Na vida do Martim a ruptura mais profunda é o sumiço involuntário e misterioso da mãe”.

 

Pontos de fuga se passa no início dos anos 1970, mas há dezenas de diálogos que parecem perfeitamente adaptados aos tempos atuais. E eles não são coincidências. Segundo o autor, estão lá como prova do inevitável ciclo do autoritarismo na América Latina. O “eremita da república”, os “pirados do Itamaraty”, jovens “arquitetos talentosos e sonhadores” engolidos por “construtoras e governos”, tudo parece pescado na sucessão de acontecimentos dos últimos anos. “O autoritarismo volta com novas feições, num contexto local mais ou menos democrático, e com diferenças em relação ao contexto internacional”, repara o Hatoum. 

 

Como a turma de Martim é formada, basicamente, por estudantes de arquitetura, Brasília também entra no livro como alvo de longas discussões. Ora um delírio, ora um símbolo da utopia possível, a cidade é um personagem. Essa é uma das razões para Hatoum lançar o romance na cidade. “A primeira é a amizade”, avisa, lembrando que foram Carlos Marcelo, ex-editor executivo do Correio e atual editor do Estado de Minas, e o poeta Nicolas Behr que o convenceram. “Tenho amigos, leitoras e leitores queridos na capital. Além disso, no Pontos de fuga,Brasília reaparece nas lembranças de Martim, nas cartas de Angela, na fala e na imaginação de vários personagens. E nem é preciso dizer que Brasília faz parte da minha vida.”

 

A capa de Pontos de Fuga(foto: Capa do livro/ Reprodução)
A capa de Pontos de Fuga (foto: Capa do livro/ Reprodução)
 

 

Lançamento de Pontos de fuga, de Milton Hatoum

Hoje (03/12, terça), às 19h, no Beirute da 109 Sul

 

TRÊS PERGUNTAS // MILTON HATOUM

 

Apesar de se passar nos anos 1970, é incrível como, em certos trechos, temos a impressão que o romance dialoga com a contemporaneidade, especialmente em frases como “Faisão comunista! Uma alucinação do chanceler e dos pirados do Itamaraty!”, “A capital está assombrando nossa república. Esse ator incrível conhece o eremita da república?”, “depois as construtoras e o governo vão cuspir na cara dos jovens arquitetos talentosos e sonhadores”. Como você lida com isso?

 

Esses diálogos do passado com o Brasil de hoje não são apenas coincidências. Acho que fazem parte dos ciclos de autoritarismo no Brasil e na América Latina. O autoritarismo volta com novas feições, num contexto local mais ou menos democrático, e com diferenças em relação ao contexto internacional. Hoje, as redes sociais e a forte presença política de líderes evangélicos são relevantes e, em alguns casos, decisivas. Nos anos 1970, quando eu era free-lancer numa revista de São Paulo, escrevi uma matéria sobre um encontro da Igreja Universal do Reino de Deus, no estádio do Pacaembu. Foi uma alucinação coletiva. A memória desse encontro inspirou a figura do Rodolfo, pai do Martim

 

“Uso minha linguagem para criticar Brasília, nosso último delírio urbanístico-arquitetônico”, diz Ox, um dos personagens: mas nas outras áreas, qual seria nosso último delírio? E como Pontos de fuga está inserido nesse delírio?

 

Ox é uma personagem que critica o projeto de Brasília, mas ele não conhece os segredos, a face luminosa e obscura da cidade. Sergio San (outro personagem) considera Brasília um projeto ousado, nossa última utopia realizada, “antes do toque militar de recolher”. São visões divergentes, debatidas no romance, mas na crítica feroz à Brasília, quem tem uma visão distorcida e delirante é o Ox. No Pontos de fuga, vários personagens estão desorientados, mas todos buscam um sentido para a vida. Martim é refém de alucinações em São Paulo e no exílio parisiense. Ele e Laísa são os mais confusos e desorientados, os mais constrangidos pelas figuras paterna e materna. Talvez, por isso, sejam tão cúmplices.

 

Qual a importância de ler uma ficção sobre jovens em tempos de ditadura no momento que estamos vivendo? Qual a importância da leitura, de forma geral, no Brasil de hoje?

 

A ficção ambientada na ditadura pode dar aos leitores uma visão crítica daquela época e, ao mesmo tempo, relacioná-la com o momento atual. Nossa democracia está mais frágil, ela se equilibra num fio fino. Se este fio for rompido, o destino do país é o precipício. E isso significa a total ruína das instituições democráticas, o caos e a barbárie. Muitos leitores do romance A noite da espera traçaram uma relação entre o passado autoritário e o presente, que parece tomar um rumo obscuro. No Pontos de fuga, essa relação aparece com mais intensidade. Quanto à importância da leitura, o que dizer de um presidente que elogia a ditadura, o livro de um torturador e o próprio algoz? De um ministro da Educação que mal sabe escrever e despreza e humilha a universidade pública? Pertenço a uma geração que tinha como ícones intelectuais Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Paulo Freire... Hoje, o ícone intelectual da extrema-direita é um charlatão expatriado, que insulta todo mundo, até generais, como se o palavrório chulo fosse uma categoria do pensamento. 

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