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Correio Braziliense

Festival de Brasília estendeu tapete vermelho para talento feminino

Numa edição plural, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro trouxe à carga aclamação feminista, inconformismo político e, claro, polêmica


postado em 03/12/2019 07:29

A diretora Maya Da-Rin, à frente do vencedor A febre: sinal de força para mulheres e indígenas (foto: Arquivo pessoal/ Divulgação)
A diretora Maya Da-Rin, à frente do vencedor A febre: sinal de força para mulheres e indígenas (foto: Arquivo pessoal/ Divulgação)

 

Com a experiência de 45 anos de atuação junto à coordenação do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o pesquisador de audiovisual Fernando Adolfo, figura celebrada na cidade, se mostra uma das pessoas mais capacitadas a filtrar acertos e enganos da organização do evento, encerrado no domingo (com reprise dos filmes vencedores), transcorrida a 52ª edição. “Entre altos e baixos, perfil e conceitos do festival foram mantidos. Segue polêmico e com teor político, ainda mais com tanta divisão da sociedade. O resultado ainda positivo. Notei dificuldades. Num todo, o público pareceu menor à noite. Talvez isso 

demarque a insatisfação com a atuação da secretaria de cultura: uma tipo de resistência. O Fundo de Apoio à Cultura, uma conquista de anos, se vê ameaçado; e é revoltante. O governo tem que repensar, não podemos retroceder nisso”, analisa Adolfo.

 

Bastante destacado entre os realizadores premiados pela festa — numa exceção masculina, entre várias vencedoras de troféu Candango, o paranaense Gil Baroni (de Alice Júnior), presença em muitos debates do Festival, atentou para quebra de estigmas na tela do Cine Brasília, que acolheu o evento. “Discussões foram promovidas e as mulheres reivindicaram que diretores e roteiristas tivessem mais cuidado ao tratar de temas envolvendo corpos femininos em cena. Pesou o entendimento de como as mulheres esperam ser retratadas que não fossem reproduzidas cenas de violência gratuita”, comentou. Nos curtas, Baroni atentou para a delicadeza de olhar das mulheres, com realizadoras que deixam legado de “histórias incríveis, e que ressignificam o discurso do país patriarcal”. Gil diz que elas estão no centro das discussões, e isso é o presente.

 

O conjunto da obra: palco do Cine Brasília recebeu a foto coletiva dos premiados(foto: Pedro Ibarra/ Divulgação)
O conjunto da obra: palco do Cine Brasília recebeu a foto coletiva dos premiados (foto: Pedro Ibarra/ Divulgação)
 

 

Entre as mulheres inspiradoras, a diretora Maya Da-Rin (do filme A febre), grande vencedora do 52º Festival de Cinema, explicou o momento e as metas de condução que deveriam nortear o desenvolvimento do audiovisual. “A participação do público segue ativa, no Cine Brasília. Isso é positivo demais. Mas, numa produção diversificada, apenas um quinto de realizadores (cineastas) é formado por mulheres. Ainda é muito pouco, no quadro de criação. Filmes potentes foram reconhecidos, então é importante que leis ou mecanismos tragam mais incentivo para as mulheres. A disparidade de produção entre os gêneros deve ser driblada, com medidas específicas”, acredita a cineasta.

 

Maya Da-Rin ainda destaca outro dado relevante: “O Brasil tem mais de 200 povos indígenas e que falam mais de 150 línguas. Ver A febre — com um protagonista índio — chegar ao público é fundamental. O filme foi quase todo realizado em tucano (língua do povo Desana)”. “Achei uma escolha muito feliz da curadoria trazer filmes que criem espaços de reflexão sobre a questão indígena, sobre transexualidade, sobre sororidade”, comenta a diretora local Thais Borges, à frente de O tempo que resta, tido como o melhor, na visão do público. “Saio do festival marcada pela primorosa direção da Maya Da-Rin em A febre, pela potência do discurso da Sabrina Fidalgo (Alfazema), pela delicadeza da Marília Nogueira (diretora de Angela), pela construção de afetividade feita por Ana Flávia Cavalcanti e da Júlia Zakia em Rã, e pela recepção calorosa do público ao meu documentário. Veio com alegria a força das mulheres nesta edição do evento”, opina.

 

 

 

Também destacada na premiação, a diretora do curta Alfazema, Sabrina Fidalgo deu o veredicto do evento. “Foi muito representativo ter meu primeiro prêmio de direção, na vida! Achei, no todo, que o festival quase foi cooptado, mas trouxe as raízes de resistência do cinema de arte e dos filmes experimentais. Acho que tivemos interferências graves, de censura, de racismo, e mesmo de episódios em filmes misóginos e equivocados. O júri entretanto se manteve ponderado e honesto”, disse.

 

Um elemento de louvor segue sendo o público de Brasília, na opinião do vencedor de prêmio especial do júri, Claudio Assis, que representou a equipe do longa Piedade. “A divindade do cinema está aqui, nas pessoas e no espírito de perseverança. O público sente e respeita — é um público magistral. Vaiam quando tem que vaiar, e respeitam, quando tem que respeitar”, avaliou. Para Assis, o momento é crucial para o cinema. “A gente tem que viver, tem que lutar, e o Festival de Brasília é o universo da resistência. Apresentamos filmes aqui para dizer a que viemos. A gente não pode abandonar a história”, pontuou.


Debates e recuos

 

Envolvido em debate controverso, o diretor Bruno Bini (de Loop) notou um saldo extremamente positivo no evento. “A gente vem para um festival para contaminar, e se contaminar. Influenciamos e fomos influenciados. Ouvi, absorvi e processei as críticas que resultaram num entendimento maior. Estava curioso de ver, especialmente, com o público, como o longa ia bater. Estou feliz de ver como o filme foi recebido, durante a sessão”, comentou Bini. Afunilado em perspectiva comercial, deslocado entre fitas de vanguarda e experimentação, Loop foi um dos exemplares que gerou debates em torno da exposição de feminicídio.

 

“O festival, acho, experimentou uma seleção mais diversa, com mescla de estilos. Com a guinada de seleção, o festival se arrisca. Mas é interessante, para incorporar a diversidade”, opinou Bruno Bini. Já Volume morto também (ao lado de Loop) foi ignorado na premiação. “Acredito que o filme suscite o debate de onde vieram os adultos (representados na fita) e para onde vamos, como sociedade? O objeto de discussão: um protagonista (uma criança que não aparece em cena) foi o menos discutido, em todos os embates de adultos no filme. A força do debate gerado é de uma criança existir na trama e ter sido completamente esquecida”, comentou o diretor Kauê Telloli.

 

A composição polarizada da sociedade repercutiu sobre a recepção a um documentário integrado ao evento: O mês que não terminou, de Francisco Bosco e Raul Mourão. “Por polarização eu entendo antes a formação de lógicas de grupo, o entrincheiramento em perspectivas simplificadoras da realidade, que não suportam a complexidade e os furos nas idealizações”, sintetiza Francisco Bosco. Na projeção do filme, ele se viu “xingado” de liberal, num filme que abriga, na fala, persistente argumentos da tradição da esquerda. “Há uma incapacidade de pensar a economia, a política e a sociedade de forma complexa, reconhecendo a pertinência de argumentos de campos antagônicos, é o motor da força centrífuga do debate público atual. Nesse contexto, de dimensão política, um filme como o meu não encontra o seu espaço”, conclui. 

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