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Correio Braziliense

Exposição de Denise Camargo discute racismo e autorrepresentação

Além de fotos, a artista oferece oficinas e conversas sobre racismo e identidade


postado em 09/12/2019 09:40 / atualizado em 16/12/2019 15:28

Quando você ouve a expressão “cor de pele”, o que você pensa? A partir dessa pergunta, a artista, doutora em artes e pesquisadora Denise Camargo dava início a um diálogo, muitas vezes, difícil, porém necessário. Uma conversa que, para ela, também exigiu um olhar atento, cuidadoso e um tempo de maturação.

Leda Bandelê: convidada por Denise Camargo para integrar o projeto(foto: Denise Camargo/Divulgação)
Leda Bandelê: convidada por Denise Camargo para integrar o projeto (foto: Denise Camargo/Divulgação)
Há 15 anos, o filho de Denise, Diego Adetayó, na época com 4 anos, chegou em casa da escola e pediu para a mãe, com as mãos unidas como se fizesse uma prece: “Mãe, eu queria ser cor de pele”. De imediato, a artista ficou surpresa, sem reação. “Ao contrário de mim, ele sempre se autorepresentou com lápis marrom, e ali eu vi que tinha acontecido algo na escola no nível da representação, na construção identitária”, relembra. Ao visitar a professora de Diego, a artista encontrou, justamente na sala de artes, o motivo do pedido: o lápis de cor que, entre tantas cores, tons e nuances, é conhecido como “cor de pele”. “Mas, não é da cor da pele de ninguém”, acrescenta a artista.

Mulher negra, professora e fotógrafa, Denise trabalhava com imagem e autorrepresentação, tanto como temáticas artísticas, como em sala de aula. “Mas, precisei de todo esse tempo, porque é um tempo que se amadureceu para se falar desse tema no nosso país. Foi um percurso que acompanhei enquanto mulher negra, educadora, como cidadã. Foi um desafio até poder andar com o cabelo que eu tenho, uma longa gestação de uma condição também social que me permitiu falar disso nesse momento e perceber que ainda é uma discussão”, comenta.

Desde novembro até 14 de dezembro, o Sesc Presidente Dutra, no Setor Comercial Sul, recebe o projeto De Cor da Pele. Além de uma exposição fotográfica e de fotos sinéticas, como denomina a artista, Denise tem percorrido escolas e galerias do Distrito Federal conversando com alunos e professores e oferecendo oficinas sobre racismo e identidade. “Precisamos falar sobre isso, ainda mais entre os educadores. Precisamos falar de nós para falar dos educandos. É um lugar de dificuldades para os negros e para os brancos”, avalia a artista, que já tem ações agendadas, dando continuidade ao projeto para o ano que vem.

Com uma linha autobiográfica, De Cor da Pele traz a imagem de mães que foram ouvidas por Denise e, em seguida, retratadas em fotografias e vídeos. Nas imagens coloridas, aquelas mulheres montam uma paleta de cores; em preto e branco, a fotógrafa dissolve a ideia da própria cor. “Precisamos considerar que a cor da pele, cientificamente, é apenas um código genético. Foi uma intenção mais conceitual”, detalha.

Ana Valéria: indagação sobre a identidade a partir da raça(foto: Denise Camargo/Divulgação)
Ana Valéria: indagação sobre a identidade a partir da raça (foto: Denise Camargo/Divulgação)
Os vídeos nasceram dos depoimentos captados por Denise. A cada encontro, as narrativas surgiram e emocionaram artista e obra. “A reação de cada uma delas com a pergunta que iniciava a conversa me surpreendeu. Uma abaixou a cabeça por cinco minutos. Fiquei atônita. Percebi que havia tocado na ferida. Em seguida, ela chorou muito”, lembra. Em gestos emblemáticos, Denise concretizou emoções, lembranças, negações, preocupações, resistência. “Passei a me preocupar com, além do que estavam me contando, mas com o movimento”, completa.

Os encontros revelaram situações de injúria racial, inclusive, relatos do filho de Denise que ela desconhecia. “Foi um momento muito forte para os dois. Ele começou a me contar histórias dele que nunca tinha me contado e a história do lápis consolidou para ele um lugar de identidade negra”, conta.

Para a artista, ainda que o país esteja dando passos para trás, sobretudo, no que tange os direitos conquistados, determinados avanços não tem volta. “Essa consciência identitária, por exemplo, não tem volta. Eu era a única negra em todo o meu ano como aluna de Jornalismo na USP. Hoje, tenho muitos alunos negros em sala de aula. Podem cancelar as ações, negar que o racismo existe, mas nós conseguimos conquistar um estado de resistência que não tem mais como retroceder. Contudo, ainda temos que continuar falando sobre isso”, pontua.


"Foi um percurso até poder andar com o cabelo que eu tenho, 
uma longa gestação 
de uma condição social que me permitiu falar disso"
Denise Camargo, 
fotógrafa


De Cor da Pele
Visitação até 14 de dezembro. No SESC – Presidente Dutra (Setor Comercial Sul, Quadra 2, bloco C). De segunda a sexta, das 9h às 21h. Entrada: gratuita e acessível para cadeirantes. Classificação indicativa: Livre
 

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