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Correio Braziliense

Em entrevista, Rodrigo Lombardi fala sobre 'Carcereiros'

'Adriano nasceu como nasce um carcereiro, haja vista que um carcereiro não tem uma universidade para cursar', diz Lombardi


postado em 09/12/2019 09:45 / atualizado em 09/12/2019 10:01

Há dois anos, o ator Rodrigo Lombardi revela ao público os dilemas, os conflitos, o cotidiano do agente penitenciário Adriano(foto: Ramon Vasconcelos/Divulgação)
Há dois anos, o ator Rodrigo Lombardi revela ao público os dilemas, os conflitos, o cotidiano do agente penitenciário Adriano (foto: Ramon Vasconcelos/Divulgação)
Um homem comum. Sem uma faculdade específica, um servidor público que se forma no dia a dia do sistema penitenciário. Sem arma, apenas com o domínio da palavra, o carcereiro é o juiz de uma sociedade, muitas vezes, rejeitada por quem está do lado de fora e esquecida pelo Estado. Há dois anos, o ator Rodrigo Lombardi revela ao público os dilemas, os conflitos, o cotidiano de Adriano — o agente penitenciário protagonista da série Carcereiros e, agora, do filme homônimo.

As duas produções partem do livro do médico Drauzio Varella que, depois de Carandiru, voltou ao universo das prisões para mostrar, sob o olhar dos agentes, as condições do sistema. Na série televisiva, cada episódio se debruça sobre uma narrativa de Adriano. Questões pessoais, familiares, as facções criminosas. No filme, uma trama com começo, meio e fim, a história se desenrola a partir da chegada de um terrorista internacional ao presídio no qual Adriano trabalha. Responsável pela segurança do criminoso, o carcereiro terá que de enfrentar uma rebelião.

O ator não estava designado para a produção de Carcereiros, mas assumiu a missão após a morte do amigo Domingos Montagner — que deveria fazer o papel de Adriano. O personagem, que dá vida a uma série de brasileiros, cresceu e amadureceu com Lombardi. Em entrevista ao Correio, ele conta sobre os aprendizados e as reflexões do trabalho. 

Para 2020, o ator está em fase de preparação para a minissérie Anjo de Hamburgo, uma parceria da Globo com a Sony Pictures Television, falada inteiramente em inglês. Nela, Lombardi interpretará o escritor Guimarães Rosa em um momento pouco conhecido da vida do autor. Também adiantou que seguirá com um trabalho sobre O Grande Sertões Veredas


No filme, a história se desenrola a partir da chegada de um terrorista internacional ao presídio no qual Adriano trabalha(foto: Ramon Vasconcelos/Divulgação)
No filme, a história se desenrola a partir da chegada de um terrorista internacional ao presídio no qual Adriano trabalha (foto: Ramon Vasconcelos/Divulgação)


O que mudou do Adriano da série para o filme?
O Adriano da série é o mesmo do filme. A gente carrega esse personagem, esse tema, essas pessoas que estavam com ele na série e toda a equipe para um jeito novo de se contar essa história. Deixamos de lado essa câmera mais documental do Belmonte (diretor José Eduardo Belmonte), que é um documentarista de formação, e mergulhamos juntos nessa nova maneira de se fazer cinema para o cinema brasileiro, que é um gênero tão comum nos Estados Unidos, que é o thriller policial. A gente deixa uma câmera muito mais dinâmica e é ação do começo ao fim fazendo com que o roteiro faça o que ele tem de melhor que é surpreender o espectador a todo o momento. 

Como foi a criação do personagem e a relação 
com os carcereiros queatuaram como consultores?
Uma relação incrível, porque cheguei sem saber nada, com muito pouco feedback. Costumo dizer que o Adriano nasceu como nasce um carcereiro, haja vista que um carcereiro não tem uma universidade para cursar, não existe um curso de carcereiro para que você se torne esse profissional. Ele presta concurso, porque é um cargo público, e vai parar lá com experiência zero, assim como eu cheguei e com a generosidade da equipe e dos carcereiros que participaram da produção fui nascendo. Se você pegar o Adriano da primeira temporada e comparar com o do filme, é muito mais maduro e mais seguro. A minha trajetória foi assim, ouvindo os mais experientes, tentando não me meter em confusão, assim como faz um carcereiro que se inicia na profissão

Apesar de o filme ser do gênero ação e ter muitas cenas rápidas, a palavra ainda é a principal arma da personagem. Como você analisa isso no Brasil hoje?
Dentro do sistema, a gente tem a palavra que tem valor moral, ela é, pode se dizer, a moeda corrente, o escudo protetor do agente penitenciário e é um sistema que aprendeu a funcionar dessa forma. As pessoas deveriam aprender com isso. É uma coisa que o sistema tem a ensinar para as pessoas. Não é uma arma na cintura, debaixo do travesseiro que vai trazer um conforto maior para você. Acho que o que vai trazer um conforto é a sensação de saber que todo mundo dialoga, que todo mundo para para pensar antes de agir, para que todo mundo possa conviver de uma maneira mais pacífica. Mas, podem dizer para mim: ‘É difícil fazer uma analogia quando você está falando de bandidos que estão na prisão com a sociedade aqui fora’. Mas é isso que eu quero, porque a gente pode fazer isso com tantos itens dentro do sistema. Na verdade, a gente tem que ter sangue frio e paciência para estudar e fazer essa analogia para que esse estudo melhore a nossa vida aqui fora. 

O filme, ao mesmo tempo que é de ação, não deixa de fazer 
algumas críticas 
sociais e políticas. Como você analisa isso?
Ele joga uma luz sobre esse sistema e a gente tenta fazer questionamentos cada vez melhores para que juntos encontremos uma saída, porque a saída eu não tenho a resposta, acho que ninguém da equipe tem. Contudo, acho que a gente pergunta cada vez melhor à medida que a estuda mais e se debruça sobre o tema. 

O que aprendeu com esses trabalhos sobre o sistema prisional brasileiro?
Muita coisa. Primeiro a entender que está tudo errado e que não é assim. E, depois, para quem me questionar e pedir a resposta. Eu não tenho a resposta, a única coisa que eu digo é que eu tive a oportunidade que pouca gente tem de mergulhar nesse assunto e talvez elaborar melhores perguntas para que a gente encontre uma saída. Nunca foi o nosso intuito fazer com o que o espectador engula uma resposta que a gente queira dar, mas a gente junto consegue pensar em uma pergunta melhor para que a gente chegue em uma solução.

Qual o poder, para a sociedade, que tem a arte, a cultura, 
e o 
audiovisual em dizer o que acontece nos presídios?
O artista é um questionador e, a partir do momento que exibe a nossa obra, a gente traz o espectador e o convida a pensar junto com a gente. Dá luz sobre esse tema e um tema tão indigesto quanto esse, que muitas pessoas não querem pensar sobre esse assunto e a gente fez de uma forma que fosse palatável para todo mundo. A partir do livro que gerou um documentário, que gerou duas temporadas de uma série e agora está gerando um filme, acho que a gente tem tempo suficiente de histórias para questionar sobre o sistema que começou com uma casa de recuperação, que depois virou uma detenção, hoje é uma penitenciária. Acho que isso diz muito sobre o sistema e a gente tem muito a questioná-lo sobre a sua eficácia.

Você, muitas vezes, é associado ao rótulo de galã. 
Isso te incomoda? Como 
fazer para se livrar dele?
Já me incomodou, mas não mais. E não me livro dele, porque não é uma informação que eu tenho o que fazer com ela. É algo que as pessoas dizem até o momento que eu vire um carcereiro, um mendigo. É um rótulo que vai e volta, eu não tenho o que fazer sobre ele. 

Seu próximo trabalho é a minissérie O anjo de Hamburgo. 
Como tem 
sido mergulhar no universo de Guimarães Rosa? 
É uma minissérie dirigida por Jayme Monjardim em que a gente relata um fato verídico do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Faço o papel de Guimarães Rosa, um dos autores modernos mais importantes da nossa história. Mas pouca gente sabe que ele foi cônsul adjunto do Brasil na Alemanha e lá ele conheceu a esposa Aracy e eles salvaram centenas de judeus juntos durante esse período. 
 
 

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