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Correio Braziliense

No dia do centenário de Clarice Lispector, Sebinho celebra a escritora

Clarice Lispector é homenageada no Sebinho com Emily Dickinson e Cássia Eller: as três nasceram em 10 de dezembro


postado em 10/12/2019 07:44 / atualizado em 10/12/2019 11:09

Clarice Lispector é homenageada no Sebinho, em Brasília(foto: Edusp/ Reprodução)
Clarice Lispector é homenageada no Sebinho, em Brasília (foto: Edusp/ Reprodução)

 

Clarice Lispector, Emily Dickinson e Cássia Eller tinham insuspeitadas conexões. As três sagitarianas nasceram precisamente em 10 de dezembro. Elas serão homenageadas hoje (10/12/2109), às 19h, no Sebinho (406 Norte) com uma vasta programação, que inclui recital de Janete Dornellas com poemas musicados de Emily Dickinson por Aaron Copland e canções de Cássia Eller; palestra de Maria Lúcia Verdi sobre Clarice Lispector; apresentação de Emily Dickinson por Antônio Carlos Queiroz, leitura de trechos de poemas de Emily Dickinson; leitura livre pelo público de trechos da ficção de Clarice Lispector.

 

A ideia de juntar Clarice, Dickinson e Cássia em um sarau surgiu a partir de algumas animações de vídeo realizadas por Dora Galesso, da Orquestra de Senhoritas, que morreu em setembro, explica Antônio Carlos Queiroz, curador do evento. A ideia não rolou, mas inspirou: “Quando me dei conta de que a Cássia Eller (outra fã de Clarice, e que foi parceira da Dora na banda Malas & Bagagens), havia nascido no mesmo dia de Clarice, a ideia inicial se ampliou: por que não juntar as duas no show? Foi então que a Emily Dickinson entrou na jogada: por coincidência, nasceu também no dia 10 de dezembro (1830). E se a gente unisse essas três mulheres maravilhosas, nascidas no mesmo dia, convidando a Janette Dornellas - também parceira da Cássia e da Dora - para cantar canções do início da carreira de Cássia e alguns poemas musicados da Emily pelo maestro Aaron Copland? A Janette topou na hora”.

 

A cantora lírica Janete Dornellas conheceu Cássia Éller ao atuarem juntas na ópera Porgy e Bess, de George Gershin. Já a admirava ao assistir as performances do grupo Malas e Bagagens, com participação de Dora Galessa. Logo Janette e Cássia ficaram amigas: “Passou a frequentar a minha casa, ficava meses por lá. Naquela época, o transporte é difícil. O pai dela era militar, ela morava no Setor Militar e Urbano. Ela queria ficar mais perto do Plano Piloto”.

 

Dora contava a Janette que, certa vez, caminhavam pela Asa Sul quando encontraram um papel no chão com um texto de Clarice Lispector. Imaginaram que era um sinal. Cássia Eller ficou ainda mais impressionada quando Dora que Clarice havia nascido no mesmo dia em que ela: 10 de dezembro: “Dora disse que, a partir desse dia, Cássia passou a gostar e a ler muito Clarice Lispector”. 

 

Para Janette, interpretar as canções com os poemas de Emily Dickinson musicados por Aron Copland é um desafio: “São muito sofisticadas, elas saem um pouco da música clássica. São poesias lindas e complexas”.

 
Questões cruciais

 

A poeta e mestre em literatura Maria Lúcia Verdi comentará questões cruciais na obra de Clarice, ilustrando-as com trechos selecionados, sobretudo, de A paixão segundo G.H., A hora da estrela e Um sopro de vida – Pulsações. Nelas se encontram reiteradas temáticas já relevantes no primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, enfatiza Verdi. “Temas como o estranhamento em relação ao mundo, seja ele da natureza ou da cultura; a dificuldade de expressar o indizível e a luta com a linguagem; a questão da divindade, o Deus, como ela passou a nomeá-lo; as epifanias que o cotidiano traz e a glória ou a náusea delas decorrentes; o humano e o animal; o poder do olhar; a questão do Narrador- Personagem- Autor - enfim, fazer com que se escute a estranheza e a iluminação que a escritura de Clarice provoca”.

 

Para Verdi, ler e reler Clarice é sempre uma revelação e, muitas vezes, um incômodo quase insuportável. “Creio que por me identificar com ela, com sua multiplicidade, seu exílio e seu desejo de silêncio muitas vezes lê-la foi doloroso, mas, sempre, um deslumbramento frente a sua busca sem par de um autoconhecimento que se realiza por meio da linguagem, da viagem sem fim da escritura. A coragem de Clarice, a capacidade de ir tão fundo nesse desvelamento de si por meio dos personagens é peculiaríssima”.

 

Impactada por Brasília

 

O que em Brasília fascinou e perturbou Clarice e a provocou a escrever um dos textos mais iluminadores sobre a cidade? Verdi imagina: “Acho que Clarice ficou tão impactada com a capital pelos seus vastos espaços, o horizonte escancarado em 180º, o céu escandaloso, a beleza futurista das construções de Niemeyer, o cerrado e seu contorcionismo, aliado ao fato de que nesse quase deserto em que foi construída se imaginava um grande futuro. Natureza mística, não poderia deixar de se impressionar com essa paisagem barroca, o homem entre céu e terra (vermelha), à espera de um outro tempo. Os textos de Clarice sobre Brasília são insuperáveis”.

 

O biógrafo Benjamim Moser afirma que Clarice escreveu a mais importante autobiografia espiritual do século 20. Verdi concorda e comenta que é possível comparar a obra dela como um todo com a de James Joyce pela inovação estilística, bem como à de Virgínia Woolf pelo mergulho no desejo de compreensão das personagens e do narrador, mas como caminho redondo, que se abre e fecha sobre as questões acima apontadas, não sabe mesmo quem mais o teria feito. “Porque o que ela faz, por meio das distintas protagonistas dos romances e dos contos, bem como do protagonista masculino importantíssimo, o Martin de A maçã no escuro é único, como já bem demonstrou Benedito Nunes em seus O drama da linguagem, O mundo de Clarice Lispector e O dorso do tigre”.

 

É uma biografia espiritual que se desenvolve em cada livro, mas especialmente em A Paixão segundo GH e A maçã no escuro”, aponta Verdi. “Os narradores e os personagens enfrentam, com a velada e desvelada presença da autora, as mesmas indagações sobre o ser, a morte, Deus, o sentido da vida, a tortuosa peregrinação do sujeito em busca de si mesmo e o desespero de sabê-la uma busca sem fim”. 

 

A Hora de Clarice

Palestra de Maria Lúcia Verdi, recital de Janete Dornelas e leitura de poemas de Emily Dickinson. Hoje (10/12,terça), às 19h, no Sebinho (406 Norte).

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