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Correio Braziliense

Múltiplo no cenário de Brasília, José Aparecido é homenageado em fita

Para o diretor Mário Lúcio Brandão Filho, o filme 'José Aparecido Oliveira - O maior Mineiro do mundo' chegou na hora certa para mandar um recado à nova geração


postado em 10/12/2019 06:34 / atualizado em 10/12/2019 11:29

José Aparecido ficou caracterizado como uma personalidade arrojada (foto: Getúlio Romão/ Reprodução)
José Aparecido ficou caracterizado como uma personalidade arrojada (foto: Getúlio Romão/ Reprodução)

 

Para o diretor mineiro Mário Lúcio Brandão Filho, corresponsável pelo filme José Aparecido Oliveira — O maior Mineiro do mundo, o longa-metragem dirigido por ele e o filho Gustavo Brandão, apesar de todas as complicações da gestação e do parto, chegou na hora certa. Exibido na Mostra Especial do 52ª Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o documentário mostra a história do jornalista e exímio articulador político José Aparecido de Oliveira, que fez e aconteceu na história de Minas Gerais, de Brasília, do Brasil e do mundo.

 

Este ano serão comemorados os 90 anos de nascimento de José Aparecido e, para celebrar a vida do homem de tantos amigos, hoje (10/12, terça) haverá uma sessão especial de exibição do filme/documentário e o lançamento do livro biográfico homônimo no Casa Park. Organizada pelo jornalista e conterrâneo Petrônio Souza Gonçalves, a publicação também perpassa a trajetória do político, rememora fatos desconhecidos e traz depoimentos e artigos de pessoas que conviveram com o mineiro. 

 

Para resumir a longa trajetória de Aparecido, diremos apenas que começou como jornalista, se meteu com política graças às suas habilidades, tornando-se eminência parda na era de Jânio Quadros, foi deputado distrital, fundador e chefe do Ministério da Cultura, embaixador e até governador do Distrito Federal. Neste cargo, entre outras façanhas, conseguiu tombar o Plano Piloto como Patrimônio Cultural da Humanidade e construiu o Memorial dos Povos Indígenas, com desenho de Oscar Niemeyer, na área mais nobre da cidade. 

 

Aglutinador e bon-vivant, tinha a casa frequentada por grandes políticos e intelectuais. Mário e Gustavo tiveram de batalhar por quatro ou cinco anos para conseguir financiar o projeto – com cerca de R$ 500 mil, captados via Ancine, embora o orçamento aprovado fosse de R$ 800 mil – mas acham que, no final das contas, ele chegou às telas na hora certa: “Parece até que tem a mão do Zé Aparecido nisso. Acho que a hora certa para o filme ser lançado e começar a passar em festivais é agora, porque nós não tivemos, nos últimos 20, 30 anos, uma situação tão complicada, principalmente para a área da cultura, que era o grande mote que o Zé Aparecido tinha na sua vida pública”, pensa o diretor.

 

O filme tem estrutura simples e convencional, com entrevistas e depoimentos de personalidades do porte de Fernanda Montenegro (leia, abaixo), Ziraldo e Vladimir Carvalho, para ficar apenas em alguns ícones. Eles recordam os momentos marcantes do homenageado, ressaltando a diferença entre a ideia de político profissional versus homem público (alguém que age motivado apenas pelo bem comum). Em entrevista ao Correio, o diretor Mário Lúcio, que chegou a trabalhar com José Aparecido, falou sobre o filme e o contexto atual.

 

Três perguntas // Mário Lúcio Brandão Filho

 

Quais foram as dificuldades relativas à captação de recursos para o filme?

 

A captação de recursos via Lei de Incentivo demorou um período grande. Entrou numa entre safra de captação, que foi o período de recessão. Como tudo no cinema brasileiro, as dificuldades existem. Principalmente para a gente, que tem a sede da empresa em Belo Horizonte, as opções são menores, porque os maiores incentivadores, basicamente, estão em São Paulo. A ideia surgiu um pouco antes, quando o Zé ainda estava vivo. Ele ficou muito satisfeito, mas sugeriu outra pessoa: “Tem gente mais importante, como o Oscar Niemeyer [dizia José Aparecido]”

 

Diante do cenário, você acha que a mensagem que o filme passa é nostálgica?

 

Não, não é nostalgia. Eu não vejo como nostálgico. Eu vejo como um recado muito objetivo de que o Brasil já teve grande figuras, grandes políticos – no bom sentido da palavra: grandes homens públicos – que eu gosto de chamar de homem público, mais que de político. Pessoas que fizeram acontecer. Mostra que tem como resolver, que tem como fazer as coisas mesmo com dificuldade de orçamento, enfim, dificuldades normais de um país em desenvolvimento como o Brasil é e já foi. Eu não vejo o filme em momento nenhum como nostálgico. É apenas um lembrete, inclusive, para a nova geração, de que tem chance, tem gente, tem pessoas que podem mudar a situação, tanto, que já ocorreu. Não precisa copiar nada não: é só mirar um pouquinho no exemplo.

 

 

O filme presta um grande serviço ao apresentar e resgatar a memória de José Aparecido, mas, ao mesmo tempo, fica parecendo que ele era uma pessoa perfeita. Ele tinha defeitos?

 

Ele era um ser humano como qualquer outro, que tinha lá seus defeitos. Mas o foco que eu quis colocar é justamente esse: dos amigos falando dele. É lógico que qualquer pessoa que vai assistir a um filme sobre outra pessoa entende que é um ser humano que está ali e que tem seus defeitos. Mas a vida dele é tão longa, e tão cheia de coisas importantes, que pegar um defeitinho aqui, sabe, seria como se fosse uma pulgazinha no meio, tipo: “Opa! Vou coçar aqui um pouco antes de terminar”. Mas que todo ser humano tem uma atitude, digamos, de ser um pouco temperamental numa hora de dar uma ordem no governo do Distrito Federal, para alguém que estava lá como colaborador… acontecia. É o processo da vida de uma pessoa que está exercendo um processo de liderança em qualquer área.

 

José Aparecido de Oliveira – O Melhor Mineiro do Mundo

 

No Casa Park. Hoje (10/12, terça), às 19h. Exibição do filme/documentário, de Mário Lúcio Brandão e Gustavo Brandão, no Espaço Itaú de Cinema. Lançamento do livro de Petrônio Souza Gonçalves na Livraria Cultura. 

 

 

 

Depoimento de Fernanda Montenegro

 

“Projeta aí em cima, Aparecido, que nasça neste país, não só um Aparecido, mas muitos Aparecidos, pra gente ter um contato humano. Não sórdido. Não vilipendiado. Não utilitário. Porque é isso que eu sinto hoje, na política brasileira. Um desligamento total do fator cultural, em torno do que se possa fazer de arte neste país. Até desconhecendo que a gente é o que a cultura do nosso país é. Em todas as chaves. Ao matarem a nossa cultura a gente fica num esqueleto monstruoso.”  

 

 

*Estagiário sob a supervisão de Nahima Maciel

 

 

 

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