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Correio Braziliense

Escritor Joca Reiners Terron lança novo romance, 'A morte e o meteoro'

A nova obra do escritor imagina um mundo apocalíptico no qual etnias indígenas precisam de refúgio e Marte vai ser colonizado pelos chineses


postado em 11/12/2019 08:30 / atualizado em 11/12/2019 08:32

(foto: Renato Parada/Divulgação)
(foto: Renato Parada/Divulgação)

 

A própria ideia de Brasil exaspera o escritor Joca Reiners Terron. Para ele, que costuma deixar a história do país atravessar seus romances, essas “seis letrinhas” representam morte, medo e cancelamento do futuro. O fermento desse caldo de desilusão e desespero alimentou A morte e o meteoro, um livro curto em relação aos mais recentes — Noite dentro da noite e Do fundo do poço se vê a lua — mas igualmente denso e preocupante.

No romance, uma mistura de thriller policial e distopia amazônica, os remanescentes da etnia indígena kaajapukugi (uma invenção do autor) precisam ser enviados ao México como refugiados para escapar da extinção. Quem vai se ocupar disso é um antropólogo de caráter duvidoso e emocionalmente frágil chamado Boaventura, encarnação de figuras históricas que atuaram na área no Brasil. No entanto, uma sequência de acontecimentos que envolvem desde enfrentamentos entre índios e grileiros até um acerto de contas pessoal de Boaventura se torna obstáculo ao sucesso da missão.

E, numa narrativa conduzida por um funcionário de uma obscura Comissão Nacional para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas, um burocrata assumido, o leitor se depara com um roteiro policial permeado por vídeos misteriosos, desaparecimentos, línguas mortas e uma bizarra realidade paralela na qual os chineses tentam colonizar Marte.

O meteoro do título é uma pista para o tamanho da desilusão do autor, mas também uma metáfora, uma ponte entre passado e presente que, combinada com a morte, divide o livro em duas partes. “São dois narradores, dois tempos – o futuro e o passado –, duas migrações, a viagem dos kaajapukugi para o México e a da missão chinesa para Marte. Essa ambivalência só não está na oposição entre vida e morte, que no livro são uma coisa só, segundo a cosmogonia que inventei para os indígenas”, avisa Terron.

O autor descarta a ideia de ter planejado A morte e o meteoro. “Foi escrito em estado de extrema urgência”, garante.  “Já a contemporaneidade, se a considerarmos como o presente, está ensanduichada entre o passado representado por Boaventura, um dos narradores, enquanto o futuro é representado pelo narrador mexicano. E o leitor está preso neste presente que se ausenta da narrativa, à espera do pior, do que está para vir mas que já se anuncia tragicamente nos jornais”, lamenta, ao pensar no Brasil de hoje, em procuradores que acusam índios de preguiçosos e titulares de cargos públicos que enxergam benefícios na escravidão de negros.

Entrevista // Joca Reiners Terron


Pode falar um pouco sobre Boaventura? Que tipo de ética e consciência o Boaventura encarna? E o que inspirou esse personagem?
Não sei se ele é um fracasso ou é apenas humano. Boaventura está perdido, pois enfrenta a perda dos pais, o suicídio da mãe. Também não sabe quase nada de antropologia, pois não a estudou seriamente. Já os erros que comete, também foram cometidos por muitos sertanistas. Como Leonardo Villas-Bôas ou o etnógrafo tcheco Alberto Vojtech Fric, cuja relação com uma índia chamacoco paraguaia já havia inspirado outra personagem minha, a Lora-Y, de meu romance anterior, Noite dentro da noite. Boaventura representa o equívoco que as certezas absolutas contém, e as tragédias que podem culminar dessas certezas.


Você classificaria o livro como um policial? Distopia?
Não exatamente, mas é um romance que explora elementos da literatura policial ou da distopia como subgênero da ficção científica. É complicado fazer romance policial em países latino-americanos, onde o maior criminoso é o Estado. Distopia nem se fala, já que a própria realidade brasileira é distópica.


O Brasil já era, de certa forma, um personagem de Noite dentro da noite. Como o país se impôs em A morte e o meteoro? É impossível não escrever sobre a realidade brasileira?
Em geral os escritores de minha geração ignoraram o Brasil, ou exploraram apenas o Brasil classe média de onde provêm, salvo raras exceções. Nos últimos tempos, porém, o verdadeiro Brasil se impôs com tudo o que há de mais violento. A realidade se meteu na ficção. Não há mais volta.


O que mais te exaspera no Brasil de hoje e na questão indígena?
A própria ideia de Brasil tem me exasperado. Os indígenas são a nossa maior riqueza cultural, suas ontologias representam o que temos de mais original e valioso. No entanto, o atual governo deseja “monetizar” seu habitat, a Amazônia. Ou seja: ameaça de morte e extinção o que deveria ser celebrado e ouvido como ensinamento para a vida. Vivemos tristes tempos.


O meteoro e a morte é uma espécie de prenúncio? 
Espero que não. Mas é um alerta.


O sentimento comunitário é um dos princípios dos kaajapukugi: o homem perdeu essa noção?
Somos um país de imigrantes, aqui as origens se diluem rapidamente, em uma ou duas gerações o coreano deixa de ser coreano, por exemplo, e vira brasileiro puro-sangue. Observei isso aqui no bairro do Bom Retiro, onde avós e netos já não falam a mesma língua. Além disso, a consciência de classe sofreu um baque irrecuperável nas últimas décadas. Nas periferias de São Paulo a destruição das fábricas e o enfraquecimento dos sindicatos deixaram multidões perdidas, enfraqueceu a sensação de pertencer a uma comunidade. O drama da modernidade é que não sabemos mais voltar para casa. Exceto pelo nordeste brasileiro, onde a cultura popular funciona como uma espécie de liga, de cola que une o povo nordestino, o restante do país se encontra perdido. Enquanto a ideia de liberdade individual continuar a ser vendida pelo capitalismo neoliberal, continuaremos aprisionados. A liberdade só é possível em comunidade, e é isso o que as minorias têm provado. Por outro lado, em oposição a essa ideia, surgem os fanatismos religiosos e os interesses que os movem.


Na tua opinião, qual o futuro da questão indígena no Brasil?
Olha, anda difícil falar em futuro no Brasil. Mas os indígenas estão aqui desde sempre, sobreviveram ao “epílogo da psicose colonial” de que trata A morte e o meteoro. E continuarão aqui. Resta saber se nós continuaremos aqui, sem ouvi-los, sem aprender o que eles nos têm a ensinar, como poderemos permanecer? É por isso que estou fazendo campanha para Aílton Krenak ser presidente da República. Precisamos de um presidente indígena.


Estelionato político, manipulação de interesses por meio de grandes causas humanitárias, idiota útil: nos acostumamos a viver num mundo assim?
Esses são temas antigos que voltam à tona. A manipulação das massas, que antes usava alto-falantes, depois o cinema e a tv, agora usa a tecnologia dos smartphones para propagar fake news. A eficácia atual é alarmante, decide eleições e distorce a verdade em ritmo exponencial. Também propaga o medo, que leva todos à pasmaceira. Mas veja o Chile: uma hora as pessoas acordam do pesadelo e vão às ruas. Só que um pesadelo sempre contém outro pesadelo, numa escala infinita.


Como a literatura brasileira tem dado conta do século 21, na tua opinião? E qual o papel da ficção, na tua opinião?
O século 21 é um bicho irriquieto e a ficção brasileira tem se mexido, feito o que pode. O papel da ficção é inventar a realidade.


Acha que a literatura brasileira está vivendo um momento bom? E identifica tendências?
Alguns autores que aceitaram o desafio de escrever para ninguém como projeto de vida estão produzindo coisas boas. Também tem muita coisa irrelevante disfarçada, o que dificulta encontrar a literatura de verdade, a que vale a pena. A invenção do processadores de texto como o Word é responsável pela confusão. Só porque usa uma tipologia bonita e está bem diagramado, não quer dizer que é literatura.

(foto: Todavia/Divulgação)
(foto: Todavia/Divulgação)
 
 

A morte e o meteoro
De Joca Reiners Terron. Todavia, 116 páginas. R$ 49,90
 
 
 
 

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