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Correio Braziliense

Arquiteto Frederico Holanda lança o livro 'Construtores de mim'

O professor de arquitetura lança coletânea de textos em que aborda as pesquisas, os filmes e a vivência cotidiana em Brasília


postado em 11/12/2019 08:55 / atualizado em 11/12/2019 10:20

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 25/5/18)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 25/5/18)

O arquiteto Frederico Holanda tem uma postura, a um só tempo, crítica e amorosa em relação a Brasília. Na tese de doutorado O espaço de exceção, ele fez reparos à setorização dos espaços do Plano Piloto. Mas sempre dispensou respeito e reconheceu os méritos do projeto de Lucio Costa. Criou uma editora, a FRBH, para publicar as pesquisas de um grupo sobre Brasília. Nos últimos tempos, pegou uma câmera e produziu uma série de filmes sobre aspectos da arquitetura, da flora e da relação dos brasilienses com a cidade.

O de maior destaque é Deserto, em que trava uma polêmica cerrada com o antropólogo James Holston e o arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl. Rebateu as versões de ambos segundo as quais Brasília seria uma cidade triste, inabitável e sem vida urbana somente com cenas cotidianas nas superquadras, no Eixão do Lazer e na Esplanada dos Ministérios. Frederico é professor emérito da UnB. E, na sexta-feira, às 19h, no Carpe Diem (104 Sul), ele lança o livro Construtores de mim (FRBH editora), coletânea de textos que abarca a experiência acadêmica, texto em homenagem a Oscar Niemeyer, as incursões no cinema e devaneios sobre a cidade. Nesta entrevista, Frederico fala do olhar sobre Brasília, os filmes e as múltiplas pesquisas que realizou sobre a cidade.
 

Entrevista // Frederico Holanda 


Em primeiro lugar, qual é a perspectiva deste livro tão heterogêneo?
Minha produção é heterogênea, a novidade é que juntei três vertentes num veículo só. Quis apontar várias formas de minha inserção no mundo — um mundo que nos deixa cada vez mais perplexos. A primeira, naturalmente, acadêmica, exemplificada no primeiro capítulo, elaborado segundo as regras da produção científica. Mas a vida acadêmica não pode ficar restrita às paredes da universidade, daí a segunda parte do livro, que exemplifica minhas tentativas de escrever textos de divulgação do conhecimento para um público amplo, ilustradas pelos artigos publicados no Correio Braziliense entre 2010 e 2017. Finalmente, na terceira parte, estão textos referidos a momentos pessoais ou sociais que me tocaram em especial. Aqui estão o Memorial, elaborado como parte do processo para concessão do título de Professor Emérito da Universidade de Brasília, que relata importantes contribuições em minha formação pessoal e profissional, assim como textos vários publicados nas redes sociais sobre nossa conjuntura. Ouso até juntar uma pequena peça ficcional na forma de um conto.


Por que, depois de fazer uma crítica ao que chama espaço de exceção, em determinado momento, você se dedicou a fazer filmes com uma relação crítica, mas amorosa sobre aspectos da arquitetura de Brasília? Em que os filmes complementam a reflexão crítica sobre a cidade?
Concordo que minha tese de doutorado (O espaço de exceção) é mais ácida com relação a Brasília do que minha produção posterior, mas sempre olhei com muito respeito o projeto de Lucio Costa. Nos textos e filmes posteriores à tese, reajo principalmente a uma crítica preconceituosa, desinformada e grosseira da cidade, particularmente da literatura internacional. Os filmes se somam à escrita, mostrando a cidade pela linguagem cinematográfica, captando dela aspectos que a escrita não faculta, particularmente nos momentos em que o espaço público é apropriado por centenas, milhares de pessoas, rotineira ou excepcionalmente, nas superquadras, no centro, na Esplanada.


Em que medida a criação arquitetônica de Brasília provocou uma tradição de reflexão sobre a arquitetura na universidade? O trabalho da editora se insere nesta linha de inquietação?
Estamos numa situação privilegiada com relação aos estudos sobre Brasília: uma coisa é fazê-lo à distância, mediante informações e representações diversas. Outra, é viver a cidade e conviver com pessoas diversas que se apropriam dela. Não digo que nossa produção seja naturalmente superior por isso, mas a vivência prática da cidade é um plus insubstituível. Depois, a cidade nos impele à reflexão por seu caráter único, já nas suas qualidades, já nos seus (imensos) problemas. Quanto à editora, meu pai foi artista gráfico, convivi com a leitura e com a feitura de livros desde criança. Fundar uma editora foi quase uma consequência natural disto, logo que dispus de mais tempo depois da aposentadoria (embora continue a colaborar com a FAU). Por outro lado, a editora visa à divulgação não só dos meus trabalhos, mas de trabalhos do nosso grupo de pesquisa, estruturado há 35 anos, e trabalhos de outros pesquisadores brasileiros —  entre os autores publicados há colegas da UFPB, UFPE, UFF, UFSC e UFRGS.


Em que medida a apropriação dos brasilienses melhorou ou corrigiu aspectos do plano de uma cidade planejada?
A cidade — qualquer cidade, inclusive uma tão excepcional como esta — é cotidianamente reinventada por milhares de sujeitos anônimos, apesar da eventual rigidez do planejamento e do seu controle governamental. Na história de Brasília, há derrotas desses sujeitos, mas há também grandes vitórias — e há as batalhas em curso... Entre as derrotas, cito a remoção da antiga Vila Paranoá em 1989, fantástico exemplo de urbanismo popular, depois de décadas de luta (e nós, na FAU, ombreados a eles); entre as vitórias, cito a fixação da Vila Planalto, microcosmo fascinante onde cabem todas as classes sociais num único bairro, extremamente central; e entre as batalhas em curso, cito as pousadas e serviços populares da Avenida W-3, que enfrentam dura oposição dos moradores de classe média vizinhos e também do governo — essas mudanças de uso provocadas espontaneamente trouxeram para a área metropolitana central da cidade, o Plano Piloto, serviços até então inexistentes aqui. Deveriam ser legalizados e cá permanecerem.


Em sua perspectiva, que aspectos funcionaram e não funcionaram às vésperas dos 60 anos da cidade? O que é urgente fazer em Brasília para preservar e para revitalizar a cidade?
Cito alguns pontos. A cidade projetada por Lucio Costa é muito diferente de todas as demais propostas apresentadas por ocasião do concurso nacional de projetos, realizado em 1956-1957. Aproveito uma observação dele para dizer que as demais eram cidades “simplesmente modernas”, a de Mestre Lucio, não: ela é a única a incorporar uma dimensão monumental e simbólica, demonizada pelo Movimento Moderno. Mas o problema é que esses espaços, como a Esplanada e a Praça dos Três Poderes, podem ser preparados para também receber afetuosamente a vida cotidiana, não só momentos excepcionais. Há um esboço disso nos comércios e serviços nas franjas da Esplanada, muito apreciados pelos funcionários, particularmente na hora do almoço. Isso podia vir a ser ampliado — que linda seria uma happy hour nos calçadões da Esplanada ao longo de lanchonetes e restaurantes ao cair da tarde!

Há que se reduzir a importância do carro e conceder prioridade ao pedestre e ao transporte público, tendência no mundo inteiro, que chegará em Brasília mais cedo ou mais tarde, por que não a acelerar? Essa importância do veículo particular, conhecida como “rodoviarismo”, não é um traço essencial da identidade da cidade, e pode ser deixado para trás em seu benefício, não em seu prejuízo.
 
Uma revisão da área central poderia eliminar os vazios sem importância prática ou expressiva, p. ex., o “buraco” entre o Conic e o Conjunto Nacional, em benefício de uma mais intensa e rotineira apropriação do espaço público. Aqui, como em outros lugares do Plano, exceto as superquadras, os lugares públicos são áridos, desconfortáveis, estéreis.

É possível trazer mais gente para morar perto dos empregos e serviços da área central metropolitana (o Plano Piloto), porém gente de todas as classes sociais, não apenas das classes médias e altas, como se fez no bairro Sudoeste e, mais ainda, no Noroeste. Há muito espaço para isso, por exemplo, um possível “bairro Oeste”, atrás da antiga estação rodoferroviária. E isso, não obstante a decentralização de empregos nos núcleos satélites, concomitantemente. 
 
 
O que te provoca prazer como brasiliense? Que lugares ou que manifestações você aprecia?
Falemos de polos opostos, todavia contíguos em Brasília: a Esplanada dos Ministérios e a Rodoviária do Plano. Os filósofos falam na “noção de assombro” que lugares monumentais provocam nas pessoas. Mestre Lucio não recusou o grand design e ombreou seu projeto a lugares seculares ou milenares, como a Avenida dos Mortos (Teotihuacán, atual México, início no séc. III a.C.), A cidade proibida (Beijing, séc. XV), Champs Élysèes (Paris, séc. XVII), a Praça de São Pedro (Roma, séc. XVII), The Mall (Washington, séc. XVIII)... Não admira Brasília estar se consolidando como destino de peregrinação turística.

Na canção A dónde van... o cubano Silvio Rodriguez pergunta: ¿Adónde va la sorpresa, casi cotidiana del atardecer? Pois de volta para casa (moro em Sobradinho), faço muita vez um caminho indireto que passe pela Esplanada. Há uma sorpresa casi cotidiana com o lugar que se mantém viva há... 47 anos. Quiçá a surpresa advenha da restauradora sensação de testemunhar uma utopia, o termo aqui significando algo a superar o aqui e o agora, perene, como o Parthenon...

E não recebo visitante que não leve a comer um pastel e tomar um caldo de cana na Rodoviária — ficam fascinados, com o bulício, com a localização (terminal de ônibus no coração da metrópole), com a vista: espaço prático colado ao espaço simbólico por excelência da capital.
 

No documentário Deserto, você poleimiza com James  Holston, autor de Brasília — A cidade modernista. No que ele está equivocado?
Veja somente dois trechos do livro: “a esmagadora sensação de monotonia e tristeza que os brasilienses experimentam da cidade”, ou “em Brasília, o público dos espaços abertos em outras cidades brasileiras simplesmente desapareceu”. Arre égua!!!, como se diz em Pernambuco, a minha terrinha natal. De onde ele tira isso? Tem suicídio saindo pelo ladrão ou psicanalista ficando rico particularmente em Brasília? Nem uma coisa nem outra. Não carece ser habitante nem pesquisador para saber da falsidade das afirmações, carece tão só ter mente aberta para o novo. O filme é uma refutação do tipo de afirmação, mostrando a apropriação afetuosa da cidade, já no dia-a-dia nas superquadras, já no fim de semana no Eixão do Lazer, já nos momentos excepcionais das manifestações políticas nos espaços monumentais (vou a tantas quanto posso).
  

Qual a importância da Esplanada dos Ministérios como espaço de manifestação democrática para Brasília como capital do país?
Respondo com uma pergunta: qual imagem é mais emblemática das jornadas de 2013, a do Congresso Nacional tomado de gente, no gramado, nas rampas e no teto do bloco-plataforma, no dia 17 de junho (capa da edição do dia seguinte do Correio Braziliense), ou as imagens das multidões na Avenida Paulista (Sampa) ou na Cinelândia (Rio)? Eu diria que é a primeira, demais multiplicada aos milhares nas redes sociais... Talvez haja um efeito multiplicador pelo fato de as do Rio ou de São Paulo estarem inseridas em áreas urbanas densas (não é o caso de Brasília). Mas faz-se talvez uma analogia fácil demais entre as dimensões monumentais da Esplanada e da Praça dos Três Poderes e uma suposta dificuldade em “exercer a democracia”. A arquitetura nos afeta, sim, de muitas maneiras, dedico minha vida a pesquisá-lo. Mas não creio nessa determinação mecânica entre arquitetura e vida social.
 
 
“Menos Brasília, mais Brasil”, alardeia o ministro da economia Paulo Guedes. Brasília não foi criada precisamente para impulsionar o Brasil?
Com todo o respeito ao ilustre ministro, seu discurso vem a par com a mítica necessidade de reduzir a importância do Estado, na contracorrente do que historicamente ocorreu, inclusive nos EUA (seu modelo), mas que hoje ocorre principalmente na China, onde o Estado é agente fundamental de desenvolvimento econômico e social – não por acaso ela se transformará em breve em primeira potência mundial. Por outro lado, Brasília não “impulsionou” o crescimento do país, antes ocorreu como parte de um processo de interiorização do desenvolvimento, que, na verdade, apenas se acelerou com JK, mas já vinha de Vargas nos anos 1930.
 
 
Construtores de mim
De Frederico Holanda. 220 páginas/FRBH Editora. Lançamento na sexta-feira (13/12), às 19h, no Carpe Diem (104 Sul)

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