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Correio Braziliense

Espetáculo faz versão popular do clássico 'Dom Quixote'

Em Mamulengo de la Mancha, Izabela Brochado e Marcos Pena fazem adaptação livre do clássico de Cervantes


postado em 14/12/2019 12:11

A Espanha e o Brasil se encontram na montagem de 'Mamulengo de la Mancha', em cartaz no Teatro Galpão(foto: Raphael Mendes/Divulgação)
A Espanha e o Brasil se encontram na montagem de 'Mamulengo de la Mancha', em cartaz no Teatro Galpão (foto: Raphael Mendes/Divulgação)
Em um trecho de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, o autor coloca o protagonista da ficção para assistir a uma cena de teatro de feira, comandado por mestre Pedro. Na peça, se encena a luta de mouros com cristãos. Dom Quixote entra e destrói o teatro porque deseja que os cristãos sejam os vencedores. Em Mamulengo de la Mancha, adaptação livre de Izabela Brochado e Marcos Pena, em cartaz hoje e amanhã, no Espaço Cultural Renato Russo da 508 Sul, o clássico sai do pedestal e cai na rua, mergulhado em questões dramaticamente atuais.

Izabela e Marcos são casados; ela é mineira e pesquisadora da arte popular nordestina, e ele, espanhol e exímio manipulador de bonecos. O espetáculo é uma expressão cultural do encontro entre Brasil e Espanha em um contexto contemporâneo. Dom Quixote e Sancho Pança vivem a condição de refugiados que desembarcam no Porto do Recife em pleno período de carnaval no século 21, imaginando que estariam em Castela, na Espanha. Chegam em um barco à deriva, sem documentos e sem falar a língua local.

São presos pela polícia e considerados imigrantes ilegais. A partir daí, se estabelece um diálogo entre a Espanha profunda e o Nordeste popular dos mamulengos: “O espetáculo é um pouco essa mistura do meu encontro com Marcos e das culturas brasileira e espanhola”, explica Izabela, diretora do espetáculo: “Fizemos uma grande brincadeira seguindo o espírito do Dom Quixote e do mamulengo”.

A brincadeira passa pelas rupturas de tempo e de espaço. No texto original, em um dos delírios Dom Quixote promete uma ilha para Sancho Pança se ele aceitar ser escudeiro. Só que em vez de atravessar um lago, eles cruzam o Atlântico e chegam ao Brasil. Ao chegar aqui, em vez de moinhos de vento ele se depara com as grandes questões contemporâneas: a flexibilização dos direitos trabalhistas, o trabalho escravo nas fazendas, a violência contra a mulher, a hostilidade contra os imigrantes. Tudo isso é desmontado pelo humor: “Trouxemos para os dias de hoje tudo o que nos indigna. O Quixote ganha nova vida no Brasil”, comenta Izabela.

A primeira parte é projetada por meio de teatro de sombras. Na segunda, quando Dom Quixote chega ao Brasil, a peça é encenada com mamulengos: “A gente domina a luva, mas a sombra é um campo novo, ela projeta uma dimensão onírica”, admite Izabela. “O desafio é aproximar essa dimensão do popular. O Quixote era popular, era um folhetim”.

Um aspecto fundamental da montagem de Mamulengo de la Mancha é restaurar a comicidade do Dom Quixote. O clássico da literatura universal vira uma grande brincadeira quando cai na cena de teatr o popular do mamulengo: “A gente tende a olhar os clássicos com austeridade e formalidade. Nós tentamos ressaltar o cômico dentro do clássico, que está um pouco esquecido. Tanto que o professor Erivelton Carvalho, estudioso da literatura espanhola, falou: ‘Vocês devolvem o Quixote para a rua, para a cultura popular’”.

E, claro, está presente o Quixote na condição de encarnação da utopia, do sonho, do desejo de justiça: “A questão é de perseguir os sonhos e de como agir para que eles se realizem. Só consegue realizar o desejo porque acredita, mesmo que isso pareça impossível para todos. Na nossa história, o Sancho fica com a mulher do patrão, se apaixonam e encontram uma ilha. O mundo ao revés está presente na cultura popular.”

Izabela destaca o caráter colaborativo da montagem com vários profissionais da Universidade de Brasília (UnB). A trilha sonora original é do professor Antenor Ferreira, criada a partir de canções espanholas, que Cervantes ouvia muito, e dos cantos de mamulengo que Izabela mostrou. Os figurinos e a cenografia, de Maria Villar, são uma mistura de popular e erudito.

A peça é encenada com bonecos de uma galeria de mestres populares do mamulengo: Bonecos de Mamulengo: Antônio Elias da Silva (Saúba); Severino Elias da Silva Filho(Bibiu); Edjane Maria Ferreira de Lima (Titinha); Ermírio José da Silva (Miro); Severino Joventino dos Santos (Biu de Dóia) e José Vitalino da Silva (Zé Vitalino).

Embora não tenha sido concebido especialmente para as crianças, Mamulengo de la Mancha pode ser perfeitamente apreciado também por elas: “Isso é algo que nos surpreendeu. A princípio, pensamos que o espetáculo fosse para crianças a partir de 12 anos. Não que tivesse nada demais. Mas pelas questões contemporâneas em que a peça toca. Conseguimos recursos para trazer a comunidade de São Sebastião. Claro que, quando falo algo de duplo sentido, nem todos compreendem. Mas, para a nossa surpresa, as crianças receberam muito bem a peça e se divertiram. O mamulengo é para gente de todas as idades.”



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