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Correio Braziliense

Jovens atrizes adicionam linguagem teatral à tevê e ao podcast

As atrizes da Cia de 4 Mulheres se conheceram em cursos de teatro e, hoje, têm integrado a linguagem teatral na televisão e no podcast


postado em 16/12/2019 06:10 / atualizado em 16/12/2019 08:42

Lorena Comparato, Karina Ramil, Anita Chaves e Andrezza Abreu se conheceram em cursos de teatro no Rio de Janeiro. Diante de um cenário em que os papéis femininos geralmente ocupavam o segundo plano, elas decidiram tomar as rédeas e trilhar o próprio caminho com identidade e autenticidade. Em 2011, nascia o grupo Cia de 4 Mulheres, que, entre outras características, tem uma forte veia cômica com pitadas de questões contemporâneas e, claro, um olhar feminino.

Além dos trabalhos no palco que ganharam destaque — em 2013, elas levaram os prêmios de melhor esquete pelo júri popular e melhor esquete pelo júri oficial no Festival de Teatro Universitário do Rio de Janeiro —, as jovens atrizes levam a linguagem teatral para plataformas multimídia. O quarteto lançou, em janeiro deste ano, o primeiro podcast de ficção brasileiro para o Spotify. Prato frio foi criado, escrito, roteirizado, produzido e interpretado por Lorena, Karina, Anita e Andrezza.

Em outubro, a Cia de 4 Mulheres conquistou um espaço na televisão. Com a irreverência que lhes é característica, elas estrelaram o primeiro programa de humor do canal E! Entertainment: o E! #NOFILTER WKND. Nele, o quarteto faz intervenções antes, durante e depois dos filmes exibidos no canal nas noites de sextas-feiras e sábados. Em formato de pílulas cômicas, as atrizes encenam situações de acordo com os longas exibidos naquele fim de semana. Mais uma vez, entra em cena a linguagem teatral do improviso e das questões do cotidiano. Ao Correio, o grupo comentou sobre essa interação entre plataformas e o palco e como tem sido a experiência.

(foto: Fabio H Mendes/Divulgação)
(foto: Fabio H Mendes/Divulgação)
 

 

Como é levar o humor feito no palco para televisão? Quais adaptações precisam ser feitas?

A ideia do programa foi justamente levar a nossa vivência do teatro para o set do E! #NOFILTER WKND e brincar com isso: durante uma aula de improviso você joga um xale, faz uma corcunda, e vira uma senhorinha, ou então prende o cabelo, joga um boné e interpreta um homem no fundo preto e a mágica acontece. A gente quis brincar com essa ideia do teatro mambembe. A ideia inicial do veio do próprio canal E! e do diretor e produtor do programa, o Guilherme LaMotta, que conhecemos no evento Rio2C esse ano. O canal queria inovar a programação com um conteúdo de ficção e humor. E o Gui sugeriu o nome da Cia de 4.

Quais foram os desafios?

É claro que tivemos que nos adaptar tanto no roteiro quanto na interpretação ao tempo da televisão, que inclui o timming da edição e fica muito diferente do momento ao vivo, ali no palco no teatro. Ao mesmo tempo, dá pra brincar com diferentes linguagens e trazer uma gama maior de personagens em menos tempo.Tem uma diferença também na interpretação entre o teatro e o vídeo, que tivemos que pensar. Se fôssemos fazer uma atuação teatral, ficaria exagerada e caricata. Mas, de um modo geral, ficamos felizes com a parceria que fizemos com o canal. 

Tem sido recorrente no trabalho da Cia levar a linguagem do palco para plataformas multi - televisão e podcast -, por quê? 

Acho que as nossas ideias foram se tornando cada vez mais mirabolantes e não cabiam só no teatro. (risos) Brincadeira. Foi e é um processo bem natural. A gente pensa nas diversas plataformas mesmo. Somos cria do teatro e temos sempre essa vontade latente de estar nos palcos, vivenciando aqueles momentos únicos. Mas vivemos em uma sociedade muito múltipla e conectada, então somos cada vez mais atingidas por mídias diferentes: seja uma série nova do streaming, ou um podcast inusitado, um livro, ou até um case que achamos interessante. Compartilhamos entre nós tudo que nos afeta, que mexe com a gente. Então, tudo serve de estímulo. E então quando vem uma ideia, tentamos encaixá-la no melhor formato possível, seja ele qual for: áudio, vídeo, teatro...

O teatro como estávamos acostumados perdeu a sua força?

Não acreditamos que ele perdeu a sua força, e sim que ele se renova a cada momento. Os tempos passam, as mídias e plataformas vêm e vão, mas o teatro permanece. É das artes mais antigas existentes e enquanto houver artistas, haverá o teatro. Ele sempre existirá, é uma entidade. Mas falta uma formação de plateia, pois muita gente que se interessaria e se afetaria por esse tipo de arte ainda não a conhece. 

Qual o poder do improviso?

O poder do improviso é tornar a cena mais genial e conseguir tornar as piadas ainda mais divertidas numa questão de segundos. Mas o fato da gente ter escrito todos os roteiros foi algo que com certeza facilitou o trabalho de improviso no set, por duas razões: como roteiristas, já escrevíamos pensando em como íamos fazer aquele personagem, falar aquela piada, etc. E quando chegamos no set, mesmo sem ter muito tempo de preparação, nós já sabíamos instintivamente o que fazer, como interpretar, qual era o contexto daquela pílula, como era aquele personagem, etc. 
 

Qual o poder do humor dentro de uma sociedade tão marcada por dilemas?


É um alívio trazer leveza para essas questões que, às vezes, são debatidas com tanta raiva ou que exigem um posicionamento mais sério. Nossa voz está totalmente ali no programa, e quem assiste consegue perceber isso. Porém, queremos fazer isso sem guerras e nem ofender ninguém. Achamos que o humor permite que a gente possa criticar o pensamento hegemônico da sociedade de uma forma leve.

Vocês falam que fazem "piada sem censura". Isso é possível hoje? Como percebem o cenário cultural no país? 

O humor ajuda a levantar as questões muito importantes porque, de alguma forma, ele traz uma leveza mesmo quando a discussão é bem tensa. E também consegue atingir as pessoas que às vezes estão desinteressadas nos temas atuais que estão rolando. O humor pode abordar qualquer discussão sim, sem censura, mas com responsabilidade. O que não concordamos é em ofender pessoas com a desculpa de estar “a serviço da comédia”. Isso não tem graça mais. Para a gente também é importante trazer diferentes vozes no humor. Quanto maior a diversidade e pluralidade daqueles que falam, mais estamos dando espaço para os que não estão nos meios culturais de serem ouvidos. Principalmente num país tão plural quanto o Brasil.

Quando o grupo surgiu, ele surgiu de um anseio por representatividade feminina não só em cena, mas nos bastidores. Ao atuar em várias etapas do processo de criação dos conteúdos, vocês têm mostrado que é possível. Estão realizadas? Como percebem a presença feminina hoje? Mudou? O que falta?


Estamos realizadas por termos a oportunidade de realizarmos mais um projeto com a nossa cara, que podemos participar do roteiro e da execução. E essa é uma mudança muito significativa e positiva, mas ainda há muito a ser feito. É lindo ver cada vez mais esse espaço sendo ampliado e nós mulheres tendo voz e ocupando espaços de destaque nas mais diversas áreas, não só no humor. Claro que para nós é uma realização imensa, uma vitória, termos no ar um programa escrito e interpretado por nós quatro, jovens atrizes criadoras. E também ficamos felizes da vida ao assistir/ler/ouvir trabalhos idealizados, escritos, produzidos e feito por mulheres. Mas ainda é um número reduzido, principalmente, se falarmos desse espaço para mulheres negras e trans. Acreditamos na igualdade e equidade. Então, só vamos estar 100% satisfeitas quando isso acontecer numa escala global e para todas.

 
 
 

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