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Correio Braziliense

Consagrados autores nacionais refletem sobre temas infantis

Criadores de romances e ensaios apostam em novas narrativas par atrair pequenos leitores


postado em 17/12/2019 06:45 / atualizado em 17/12/2019 12:35

As aventuras de Mel na fazenda dos avós, contada por Miriam Leitão(foto: Marcella Tamayo/ Divulgação)
As aventuras de Mel na fazenda dos avós, contada por Miriam Leitão (foto: Marcella Tamayo/ Divulgação)


A maioria dos leitores conhece Miriam Leitão, Mia Couto, José Luis Peixoto, Fabrício Corsaletti, André de Leones e Ronaldo Correia de Brito pelos romances e ensaios. São autores de referência na produção literária e no pensamento contemporâneos, acostumados a escrever para adultos e que, nos últimos anos, se aventuraram também pelo universo infantil. Todos, recentemente, lançaram livros infantis cujas temáticas encontram ecos em suas produções para adultos, confirmando que não há temas que não possam ser tratados na literatura infantil.

A morte é um deles. André de Leones queria explorar a temática da perda a partir da perspectiva infantil depois de trabalhar com personagem criança em Terra de casas vazias, romance lançado em 2013. Daniel está viajando é o resultado. No livro, o menino precisa enfrentar a solidão e a incompreensão diante da perda. “Acho que a literatura deve apresentar a morte (e outros temas difíceis) da forma mais direta possível para as crianças. Não se deve subestimar a inteligência das crianças, sufocar sua curiosidade, ignorar sua vivência e desprezar sua imaginação”, acredita o autor. Ele conta que procurou atentar para o vocabulário durante a escrita do livro, mas evitou a estrutura cronológica típica de seus romances. Manter a narrativa linear e direta foi um compromisso com os pequenos leitores.
 
Daniel está viajando, de André de Leones(foto: Quase Oito/ Divulgação)
Daniel está viajando, de André de Leones (foto: Quase Oito/ Divulgação)
 

Foram vários nãos até André conseguir publicar Daniel está viajando. Durante os seis anos entre o início do projeto e seu recém-lançamento, ele ainda escreveu dois romances. Para ilustrar o livro, ele contou com o trabalho de Lina Nestorova. “Gosto de pensar que Daniel está viajando, em grande parte graças às estupendas ilustrações de Lina Nestorova, tem algo a dizer às crianças, é capaz de estabelecer um diálogo muito proveitoso com elas”, diz. 

Um dos momentos mais emocionantes da palestra dada por Mia Couto na Embaixada de Portugal durante uma passagem por Brasília para participar da Semana Universitária da UnB, em setembro último, não teve a ver com o universo dos romances do moçambicano e sim com o mundo das crianças. Duas delas estavam na plateia para ouvir o autor, que acabou falando sobre A água e a águia, o livro infantil que estava escrevendo e que acaba de chegar às livrarias. 

Quinta narrativa infantil de Couto, A água e a águia traz uma história trágica e conectada com os dias de hoje. No livro, as aves do planeta se deparam com um problema seríssimo: não há mais água e a sede se instala. Desesperadas, as águias estipulam algumas soluções que até dão certo nos primeiros momentos, mas acabam por se mostrar ineficientes. Ao final, é uma combinação entre o conhecimento e a atenção para a natureza a responsável por salvar a Terra da seca. Para o autor, que contou com a ilustradora Danuta Wojciechowska para criar o universo imagético de A água e a águia, não há distinção entre escrever para crianças ou adultos. A oralidade, no caso dos pequenos, é o mais importante para atraí-las. Quanto às histórias, Couto explicou, durante a palestra, que são as memórias da própria infância as responsáveis por trazê-las. 

O português José Luis Peixoto, que já ganhou o Prêmio José Saramago e o Oceanos, começou a sentir vontade de escrever livros para crianças quando passou a ler esse tipo de literatura. “Ao mesmo tempo, comunicar com as crianças, tentar pensar pelas suas cabeças, é aceder a uma parte de mim que não quero abandonar completamente, apesar de já ser adulto há bastante tempo”, conta. 

Autor de A mãe que chovia e Todos os escritores do mundo têm a cabeça cheia de piolhos, ele acredita que não há muita diferença entre escrever para crianças e para adultos. “Um livro para crianças precisa de um trabalho sério, coerente, tal como acontece com os livros destinados a adultos. Creio que é preciso dar tudo o que temos. A diferença talvez dependa da ideia que cada um tem das crianças, o que dependerá das crianças que conhece, da criança que foi e do estado da sua memória. Pela minha parte, tento escrever livros que sejam edificantes, que transmitam humanidade”, explica. 

Foi o Natal que jogou Ronaldo Correia de Brito, vencedor de prêmios como o São Paulo de Literatura e o Biblioteca Nacional, para o universo da literatura infantil. Irritado com a falta de conexão entre renas, neve, Jingle Bells e a cultura brasileira, ele, em parceria com o compositor Antonio Madureira e com o escritor Assis Lima, resolveu criar o Baile do menino Deus, peça ilustrada por Flávio Fargas e reeditada recentemente pela Companhia das Letrinhas. Pensada para o teatro, a história traz elementos da cultura nordestina para o que pode ser descrito como um auto de Natal. A primeira versão da peça saiu em 2003 e, desde então, o Baile segue sendo reedirado. Brito também é o autor de O pavão misterioso, publicado em 2018 e fruto de parceria com Assis Brasil. 

A mistura de gêneros é característica da produção do autor cearense destinada aos pequenos leitores. Nos livros, há um pouco de cordel, teatro e muita música. O Baile do menino Deus se tornou espetáculo obrigatório no Marco Zero do Recife no final do ano. Encenado entre os dias 23 e 25 de dezembro, estreou há 36 anos e já foi visto por cerca de 80 mil pessoas. 

O auto é apenas a primeira história da Trilogia de festas brasileiras, que se completa com Bandeira de São João e Arlequim de Carnaval. “Nós nos queixávamos da invasão de renas, Jingle Bells e neve falsa no Natal brasileiro, e resolvemos criar uma brincadeira para os nossos filhos cantarem e representarem durante o ciclo natalino”, conta Brito. “Tivemos a sorte de viver em meio a reisados, lapinhas e bois, a herança do Natal ibérico assimilada no nordeste do Brasil pelas populações rurais e urbanas, incorporada às culturas índia e negra. Escrever para crianças requer mais cuidado, mais atenção. É um público exigente, que não se deixa tapear. Nossa intenção era mostrar um pouco do Brasil que se perde todos os dias.”
 
Ilustração de A água e a águia, de Mia Couto(foto: Danuta Wojciechowska / Divulgação)
Ilustração de A água e a águia, de Mia Couto (foto: Danuta Wojciechowska / Divulgação)

 
Autora de livros densos sobre a realidade brasileira, como Tempos extremos e História do futuro, Miriam Leitão encontra na escrita para o público infantil um respiro da aridez dos temas econômicos. Nesse mundo, não há prazos e a história vem carregada de espontaneidade e referências pessoais. No recém-lançado As aventuras do tempo, a infância na fazenda dos avós e um pedido da sobrinha neta conduziram a autora pelo universo da pequena personagem Mel. “Escrever para criança é bem delicado. Tenho o cuidado de sempre trabalhar cada palavra e o significado de cada frase”, explica Miriam, que também não deixa de fora das narrativas os temas do cotidiano que considera relevantes, como o meio ambiente. “Acho muito importante porque essa geração, se não tiver a consciência ambiental, pode ver um futuro muito terrível, então tenho feito isso em vários livros”, conta. 


NA ESTANTE

As aventuras do tempo 
De Miriam Leitão. Ilustrações: Marcella Tamayo. Editora Rocco, 40 páginas. R$ 49,90. 

A água e a águia
De Mia Couto. Ilustrações: Danuta Wojciechowska. Companhia das Letrinhas, 32 páginas. R$ 39,90

Daniel está viajando
De André de Leones. Ilustrações: Lina. Quase oito, 43 páginas. R$ 48

O pavão misterioso
De Ronaldo Correia de Brito e Assis Lima. Companhia das Letrinhas, 64 páginas. R$ 44,90

Baile do menino Deus
De Ronaldo Correia de Brito. Ilustrações: Flávio Fargas. Companhia das Letrinhas, 64 páginas. R$ 39,90

Duas perguntas // Ronaldo Correia de Brito

Como você decide que uma história será legal de ser contada para crianças e que outra rende um romance para adultos?
 
Todas as nossas histórias para crianças também agradam ao público adulto. Lembramos o que nos fascinava nos livros e brincadeiras infantis e arriscamos que há um ponto em que as crianças são iguais, em todos os tempos. Nunca se perde o encantamento pelo mágico e pelo faz de conta. O Baile do Menino Deus estreou há 36 anos e a cada ano tem um público maior que assiste à encenação do Marco Zero, no Recife, em cartaz há 16 anos. Cerca de 80.000 pessoas saem de casa todos os anos para ver o espetáculo nos dias 23, 24 e 25 de dezembro. Se você me pergunta o motivo dessa paixão, eu não sei dizer.
 
O que não pode faltar em um livro para crianças?
 
Uma boa história, o respeito pela inteligência e sensibilidade.

Duas perguntas // André de Leones

Perda é um dos temas do livro. Como, na tua opinião, a literatura deve apresentar a morte para as crianças? Que papel a literatura pode ter na descoberta da mortalidade?

 
Jamais. Isso talvez seja visto com estranhamento por alguns, a julgar pela maneira como certas obras literárias têm sido recebidas por aí. O livro Enfim, Capivaras, de Luisa Geisler, foi banido de um evento literário em Nova Hartz-RS, por exemplo, por retratar de forma crível um bando de adolescentes. O "linguajar" da obra seria "inadequado", como se adolescentes não falassem palavrões. Isso é absolutamente ridículo. Nosso país vive uma epidemia de desinteligência, da qual só sairá se investirmos em educação e cultura. A maioria dos jovens e adultos é incapaz de raciocinar ou mesmo de interpretar textos simples. Não por acaso, são esses mesmos indivíduos que andam por aí espalhando o ódio e a cizânia. Há uma relação direta entre a falta de educação (em todos os sentidos) e o caos político-social, de colorações autoritárias, que vivemos. A desinteligência e a falta de imaginação são formas de escravidão. Hoje, independentemente do espectro ideológico e da classe social, a maioria dos brasileiros vive na escravidão. As pessoas estão no fundo daquela caverna da alegoria platônica, atirando pedras nas sombras projetadas na parede, atirando pedras umas nas outras, aparentemente satisfeitas com esse espetáculo grotesco.

Como você se sente escrevendo para crianças em país cujo PISA constata que mais da metade dos estudantes de 15 anos, incluindo aí os da elite, não sabem ler nem escrever? Por que você acha que chegamos nisso?
 
Não acho que isso seja por acaso. Leitura é algo fundamental para o desenvolvimento do senso crítico, para que se tenha uma noção mínima de si mesmo, do outro e do lugar histórico que ocupamos. Penso que a máquina pública brasileira sempre mirou o oposto disso, mesmo quando os investimentos em educação eram maiores, mas extremamente desorganizados e mal administrados. Ao estado brasileiro, interessa formar essa multidão de zumbis iletrados, os quais estão muito bem representados à direita e à esquerda — no Brasil, não me canso de dizer, a estupidez é ambidestra. Deseducadas, as pessoas passam a se fiar em bizarrices neointegralistas como Bolsonaro ou populistas como Lula, viram terraplanistas, liberais de calças curtas, socialistas de boteco, fascistinhas de condomínio, apegam-se ao desconhecimento, à incultura, ao obscurantismo e aos piores preconceitos. Como eu me sinto escrevendo para crianças e adultos em tal contexto? Prefiro nem pensar muito a respeito, mas apenas me concentrar no meu trabalho e tentar realizá-lo da melhor forma possível. Se eu pensasse demais, creio que seria dominado pelo desânimo e pelo desespero. Por menor que seja a minha relevância, não posso me dar ao luxo de parar. É preciso seguir em frente, é preciso seguir lendo, escrevendo, pensando, dialogando, criando e, acima de tudo, vivendo.
 

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