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Correio Braziliense

Cinema de raiz e o avanço do streaming ensaiaram embate no Globo de Ouro

1917, o filme mais premiado da noite, roubou a esperada cena dos filmes de streaming, a postos para competir por mais de 15 importantes prêmios na festa


postado em 07/01/2020 06:25 / atualizado em 07/01/2020 12:51

Efeito surpresa, no Globo de Ouro: 1917, sobre a Primeira Guerra, faturou melhor filme dramático e coroou Sam Mendes como melhor diretor(foto: Universal/Divulgação)
Efeito surpresa, no Globo de Ouro: 1917, sobre a Primeira Guerra, faturou melhor filme dramático e coroou Sam Mendes como melhor diretor (foto: Universal/Divulgação)

 

Houve quem discutisse a estatura do gigante do cinema Martin Scorsese (O irlandês) para transitar nas geringonças dos parques de diversões — complexos de entretenimento infantil ao qual Scorsese comparou as atuais produções de cinema, especialmente aquelas que caracterizam o universo dos heróis dos quadrinhos. Maiores apedrejamentos, na transmissão do 77º Globo de Ouro, sofreram, entretanto, os filmes de cinema (que teriam brochado, na visão do cáustico apresentador da festa, Ricky Gervais). Um “terrível" amontoado de "continuações e remake" foi alardeado pelo mestre de cerimônias que chegou a ironizar uma futura continuação para o clássico A escolha de Sofia (1982).

 

O campo de batalha que teima em ainda não integrar plenamente as plenamente clássicas produções de cinema e os atuais aliados (vistos como sabotadores de uma indústria) — os produtores de material de streaming — foi, provisoriamente, dominado pela resistência: venceu 1917 (uma superprodução de estúdio), um longa de fundamento bélico, muito mais caracterizado para uma futura premiação no Oscar (que terá o anúncio dos indicados na próxima segunda-feira).

 

Como antecedentes, o Oscar já trouxe sete melhores filmes com narrativas fincadas em campos minados, entre os quais Guerra ao terror (2010), Patton (1971), O franco atirador (1979) e Platoon (1987). As atuais tensões no ar entre Estados Unidos e Irã, de certo modo, parecem ter sido captados pelo radar dos votantes do Globo de Ouro, que, vale lembrar, alinhados ao Oscar, entregaram prêmio central para Argo (2012), retrato de um Irã em ebulição.

 

Com a tradição em alta, dadas as coordenadas dos votantes do Globo de Ouro, o Oscar tem tudo para ser norteado por filmes que venham com o rótulo de consagrados. No palco do Globo de Ouro, Quentin Tarantino, um dos nomes mais ouvidos na premiação, apontou para as origens de sua criatividade: para além do colega roteirista Steven Zaillian (derrotado, por O irlandês, e colaborador de balaústres do cinemão, a exemplo de Steven Spielberg e Ridley Scott), ele citou "o reitor" dos autores de roteiro o britânico Robert Bolt, capaz de entregar eternas precisidades como os textos de O homem que não vendeu sua alma (1966), Lawrence da Arábia (1962) e Doutor Jivago (1965).

 

Com o sucesso de Era uma vez em... Hollywood, Tarantino demonstrou o apreço dos votantes das grandes corporações norte-americanas, diante da adoração por si (no caso, dado o reconhecimento dos filmes que exaltam o entretenimento) e pelo meio em que respiram: dos bastidores da sétima arte. Ganhadora do Globo de Ouro, por Judy — Muito além do arco-íris, a atriz Renée Zellweger lacrou o discurso, tratando da importância de se perceber e atribuir peso e a homenagens (de ícones) e depositar “significado no reconhecimento de um legado”. Zellweger, num retorno à consagração, venceu o quarto troféu da vida, na sétima indicação ao Globo de Ouro, por ter representado a brilhante Judy Garland, no ano anterior a sua morte, em 1969.

 

As premiações dos atores Joaquin Phoenix (obsessivo, em mimetizar o Coringa, artista nada talentoso e visto como dejeto social) e de Taron Egerton (perfeccionista, ao recriar fases de Elton John, em Rocketman) confirmam o narcisismo propalado em Hollywood. Daí, é possível vislumbrar algum reconhecimento para a tríade de atores (enfraquecidos no Globo de Ouro) e que brilhantemente alimentam o longa O irlandês: Al Pacino, Joe Pesci e Robert De Niro.

 

A revisão de temas e de personagens a postos para o Oscar possivelmente vai incorrer numa lista mais abrangente e contemplada por maior diversidade (natural dada a composição dos votantes). Curiosamente, uma batida mais progressista (como a da possível indicação da diretora Greta Gerwig) beberá de feminismo instituído em 1868 pela autora Louisa May Alcott, com texto vertido para as telas, por Greta, em Adoráveis mulheres, capaz de render indicações para atrizes como Saoirse Ronan (de Lady Bird).

 

Num olhar mais amplo, devem saltar aos olhos dos integrantes da Academia (que vota o Oscar) maior apreço pela qualidade de Dois Papas (o longa de Fernando Meirelles). A fase de ouro do ator Adam Driver, um nome do ano no cinema, poderá desembocar em maior valorização para o drama História de um casamento (esnobado, no Globo de Ouro) e para o suspense de fundo terrorista O relatório (de Scott Z. Burns).

 

Ah! Claro: Bong Joon Ho (do sul-coreano Parasita) deve dar o ar da graça, enquanto 1917, possivelmente, não se restringirá à acolhida dos prêmios de fundamentos técnicos (caso de Dunkirk, há dois anos). Mesmo que não haja mais fardo para que um longa leve o rótulo de produção de streaming (visto, por muitos, como pedigree mais vira-latas) — foram 15 centrais indicações ao Globo de Ouro saíram do flanco —, a supremacia ainda não foi oficializada. Com apenas três indicações, 1917 teve potencial de embarreirar tudo. 

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