Diversão e Arte

Cildo revisitado

Agência Estado
postado em 12/01/2020 09:00
Na lista do jornal O Estado de S. Paulo das três melhores exposições do ano que passou, a retrospectiva Entrevendo, de Cildo Meireles, chega às últimas semanas (o encerramento será no dia 2 de fevereiro) com uma programação especial. Durante o mês de janeiro estão programadas seis visitas guiadas à mostra com percursos roteirizados, além da projeção de três curtas-metragens sobre a obra do artista carioca, seguidas de conversas com convidados especiais. É uma oportunidade rara de ver a obra de Cildo interpretada por críticos que acompanharam sua produção desde os anos 1960. É o caso de Aracy Amaral, que completa 90 anos em fevereiro. Ela vai falar, no dia 15, sobre dois curtas, Inserções em Circuitos Ideológicos (1970/2013), dirigido pelo próprio artista, e Cildo Meireles (1979), realizado pelo crítico e filósofo carioca Wilson Coutinho (1947-2003). A mediação será do cocurador da mostra de Cildo, Diego Matos, que também fará uma visita guiada ao público nos dias 21 e 30, às 19h. Uma semana depois, no dia 22, será a vez do crítico e curador mineiro Frederico Morais falar sobre o filme que realizou em parceria com Felipe Sá, Gramática do Objeto (2000), uma introdução ao universo criativo de Cildo. A mediação será da curadora da exposição Entrevendo, Júlia Rebouças. Ela também participa da série de visitas guiadas, nos dias 14 e 28, às 19h. Além dela, Marília Loureiro integra a série de visitas, guiando o público no dia 23, no mesmo horário. Há uma limitação de grupos (até 20 pessoas) e os ingressos (gratuitos) devem ser retirados uma hora antes de cada atividade (incluindo os filmes, que serão exibidos no teatro do Sesc Pompeia, cuja lotação é de 340 lugares). Atual. Maior exposição do acervo de obras de Cildo Meireles na América Latina, Entrevendo reúne 150 peças, algumas inéditas no Brasil, como Amerikkka (1991-2013), grande instalação já exibida lá fora, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, em Portugal. Ela ocupa um lugar privilegiado na área de convivência do Sesc Pompeia, ao lado de outras instalações históricas como Olvido (1987-1989) e Entrevendo (1970/1994), que dá nome à exposição. Amerikkka se torna tragicamente atual com o recente conflito envolvendo os Estados Unidos e o Irã. Composta por 17 mil ovos de madeira e 33 mil balas de armas de fogo, a instalação provoca no espectador um desconforto não só físico como psicológico, ao caminhar sobre a plataforma de ovos e sob a ameaçadora placa de projéteis, que insere o visitante num imaginário conflito bélico. A América de Trump e da Ku Klux Klan é evocada sem proselitismo. Como diz Cildo num dos filmes exibidos, a arte não é política, ela se torna política. Isso faz toda a diferença: Cildo não recorre a uma palavra de ordem, mas convida o espectador a refletir sobre fatos políticos relevantes como a ameaça real à sobrevivência das tribos indígenas no continente - e a instalação Missão, Missões (Como Construir Catedrais, 1987/2019) é um comentário cortante sobre a conjunção do poder econômico e religioso que sempre resulta em tragédia, segundo a visão histórica de Cildo. Outra instalação, Olvido (1987-1989), trata igualmente do tema da violência antropológica de um ângulo diverso. De uma tenda indígena coberta de cédulas de países americanos ecoa o barulho de uma motossera que persegue o visitante, convidado, no mesmo espaço da área de convivência do Sesc Pompeia, a subir uma escada e ver pela primeira vez uma obra em projeção, Antes (1977), inédita no Brasil (ela só foi exibida no Musée dart Moderne et Contemporain de Strasbourg, em 2003). Filmes. Alguns trabalhos expostos na retrospectiva são analisados nos filmes que serão exibidos este mês no Sesc Pompeia. É o caso das garrafas de Coca-Cola que Cildo usou nos anos 1970, em plena ditadura, para espalhar mensagens de caráter político. Em Inserções em Circuitos Ideológicos, o próprio Cildo explica como fez para reproduzir nas garrafas do refrigerante mensagens como Yankees go Home! ou Quem Matou Herzog?, garrafas que retornavam ao mercado "politizadas". Outro objeto que aparece no filme é a nota de zero dólar, sem valor real, que hoje, paradoxalmente, custa uma pequena fortuna no mercado de arte. A tentativa pioneira de traduzir para o grande público essas propostas foi o curta Cildo Meireles, em que Wilson Coutinho usa a figura de John Wayne, vestido de caubói e dublado, discursando contra a arte de Cildo. No final, Wayne saca seu revólver para resolver a questão. Hilário. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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