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Correio Braziliense

Ciça Guedes e Murilo Fiuza lançam obra sobre as primeiras-damas brasileiras

No livro 'Todas as mulheres dos presidentes', Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo contam a história dessas personagens pouco conhecidas


postado em 13/01/2020 08:30 / atualizado em 13/01/2020 08:31

Murilo Fiuza e Ciça Guedes: retrato da situação das mulheres no Brasil(foto: Marcelo de Jesus/Divulgação)
Murilo Fiuza e Ciça Guedes: retrato da situação das mulheres no Brasil (foto: Marcelo de Jesus/Divulgação)

O desafio de contar uma outra perspectiva da história brasileira, sob o olhar das 34 primeiras-damas, com perfis e descobertas inusitadas motivou os jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo a escreverem o livro Todas as mulheres dos presidentes. O título é referência ao filme Todos os homens do presidente, longa que fala sobre o roubo de 1972 da Sede do Partido Democrático no condomínio Watergate.

Em oito meses de pesquisas minuciosas, o livro conta histórias que foram descobertas por meios de leituras secundárias. “Achávamos as informações entre vírgulas, porque existem poucos materiais sobre as primeiras-damas, muitas vezes, apenas as datas de nascimento, casamento e falecimento. Foi um grande desafio”, diz Murilo.

Mesmo assim, as várias leituras renderam interessantes descobertas e curiosidades. Por exemplo, em 130 anos de República, cinco presidentes foram casados com primas. Além disso, 13 das 34 se casaram antes dos 20 anos, e apenas três cursaram ensino superior. Outro fato interessante é que a primeira-dama Jandira Café, esposa de Café Filho, foi jogadora profissional de futebol, atuando como goleira do Alecrim, clube do Rio Grande do Norte.
 

» Entrevista / Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo


Como foi o processo de colher informações da época da república velha?
Ciça: Demandou um trabalho de apuração grande. Tínhamos pouco material da República Velha, então, lemos biografias sobre os presidentes para vermos se dava para achar alguma informação nas entrelinhas, para conseguir informações dos perfis dessas mulheres.

Qual a importância de trazer esse olhar feminino sobre a história?
Murilo: Ao estudar as primeiras-damas, percebemos um retrato da mulher na sociedade também. Por exemplo, das 34, apenas três (Ruth Cardoso, Rosane Malta e Marcela Temer) têm nível superior, e somente a Ruth conseguiu exercer a função pela qual ela se formou, isso reflete a posição das mulheres na sociedade. Elas também se casavam cedo: 13 com menos de 20 anos, três com apenas 14 anos. Podemos perceber até mudanças fisiológicas, porque essas mulheres, ao casarem cedo, também tinham muitos filhos. Às vezes, passavam 18 anos sem ter um ciclo menstrual. As mulheres da virada do século tinham na vida inteira 40 a 50 ciclos, hoje as mulheres têm de 400 a 500 ciclos. Contamos também em cada capítulo como era a época de cada primeira-dama e como era a posição da mulher na sociedade na época.

De que forma essas mulheres influenciaram a história do Brasil?
Murilo: Algumas tiveram grande participação. Um exemplo é a Yolanda Costa e Silva, que tinha uma influência sobre o marido muito grande. Se dizia na época que 50% dos políticos na época procuravam o Costa e Silva e os outros procuravam a Yolanda, porque ela tinha influência sobre algumas políticas de Estado. Por meio dela, tivemos o Paulo Maluf, que surgiu na vida política por uma indicação de Yolanda para a presidência da Caixa Econômica Federal. A mesma coisa o Silvio Santos, que conseguiu a concessão, por meio da Dulce Figueiredo, mulher de João Figueiredo.
 
Conseguiram perceber alguma evolução no perfil dessas mulheres?
Ciça: Conforme o tempo vai passando, há mudanças, os perfis delas foram acompanhando as mudanças da sociedade. Mas há uma exceção curiosa: na época da ditadura militar, as mulheres eram esposas de generais, então, eram idosas com mentalidades bem retrógradas, apesar de termos a Yolanda Costa e Silva e a Dulce Figueiredo, que eram diferentes, aproveitaram mais a vida, gostavam de beber e passear. De fato acompanharam as mudanças, mas, depois, foi uma pena porque tivemos a Marcela Temer, que era jovem, bonita e que chamava atenção, porém, quando ela assume, acaba fazendo nada.

Dentre as 34 histórias, qual foi a que mais chamou atenção? Por quê?
Ciça: A minha é a Sara Kubitscheck, que, com Juscelino, conseguiram trazer um orgulho e uma alegria para o país que foram inéditos. Ela era uma pessoa de gosto sofisticado e tinha uma visão de mundo muito para frente. Instituiu a prevenção do câncer ginecológico no Brasil, a mãe dela morreu disso, ela percebeu aquilo junto com o médico Campos da Paz, e instituiu a prevenção. Ela também teve um casamento infeliz com Juscelino, mas, mesmo assim, foi uma mulher brilhante.
 
Murilo: Para mim, é a Ruth Cardoso. Ela, nos anos 1950, pegava o carrinho dela (morava em São Paulo) e ia a Sorocaba dirigindo sozinha de noite para dar aula, enquanto Fernando Henrique ficava em casa cuidando das crianças. Quando ela assumiu, ela trouxe toda a bagagem que ela aprendeu com a antropologia, para levar para o governo. A função da primeira-dama era associada ao assistencialismo, mas ela quebrou com isso e, de fato, fez uma política social, criando o Comunidade Solidária, que era um programa que tinha dois focos: combater o analfabetismo e trazer a segurança alimentar. Foi impressionante o que ela fez nesse período.

*Estagiário sob a supervisão de Igor Silveira
 
Todas as mulheres dos presidentes
Livro de Ciça Guedes e Murilo Fiuza Neto que apresenta perfis de todas as 34 primeiras-damas da história do Brasil. Máquina de livros, 336 páginas. Preço: R$ 54,90 (impresso) e R$ 29,90 (e-book).

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