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Correio Braziliense

Primeiro Oscar brasileiro pode vir da obra da cineasta Petra Costa

'Democracia em vertigem', numa representatividade polêmica e muito debatida, pode trazer o primeiro Oscar genuinamente brasileiro


postado em 14/01/2020 07:23 / atualizado em 14/01/2020 11:08

Petra Costa tem chances de trazer o primeiro Oscar para o Brasil, na categoria de melhor documentário(foto: Arquivo pessoal/ Divulgação)
Petra Costa tem chances de trazer o primeiro Oscar para o Brasil, na categoria de melhor documentário (foto: Arquivo pessoal/ Divulgação)

A indicação de um documentário brasileiro na corrida pelo Oscar nunca provocou reflexos tão quentes quanto os da repercussão da presença da diretora brasileira Petra Costa na lista dos finalistas, à frente da obra Democracia em vertigem. Os respingos de uma sucessão de bate-bocas via redes sociais foram registrados até mesmo pelo The New York Times que sintetizou que “os políticos de esquerda perceberam a indicação como uma validação de que o impeachment foi um golpe, como sugestionado pelo filme”. O mesmo jornal estrangeiro observou que, no filme candidato ao Oscar, a diretora “usa a perspectiva íntima para evidenciar a fragilidade da democracia no Brasil”, em especial, com a queda “abrupta” de Dilma Rousseff da presidência da República.

No polarizado conteúdo dos tuítes, a indicação do filme de Petra Costa não passou ilesa. A própria diretora destacou a importância do reconhecimento no crucial auxílio da proteção “das democracias”. Provocada sobre uma possível entrega de estatueta pelas mãos de Leonardo DiCaprio (personalidade atacada pelo presidente Jair Bolsonaro), Petra disse que agradeceria às ações dele em defesa do meio ambiente e da Amazônia.

Na ala do deboche, o perfil oficial do PSDB tratou o documentário como “ficção e fantasia”, enquanto o Movimento Brasil Livre (MBL) sublinhou o desprezo da fita com “o maior escândalo de corrupção da história”.  Em defesa do cinema nacional, o ex-presidente Lula se posicionou, observando que “a verdade vencerá”. Ao notar a má-fé empregada (ou “incapacidade” de percepção, como ela salientou) para distorcerem e manipularem o conteúdo do filme que produziu, Petra Costa não deixou de manifestar sua indignação. A diretora mineira de Democracia em vertigem (distribuído pela Netflix, em junho de 2019) trabalhou com a corroteirista brasiliense Carol Pires.

Ainda que detentor de uma elogiadíssima crítica do influente The Guardian — saudado por “lograr êxito em registrar a escalada do populismo”, bem como o “desgaste do tecido democrático do Brasil” —, o filme, por motivos óbvios, não conquistou unanimidade. Sempre polêmico, o secretário de Cultura do governo Jair Bolsonaro, Roberto Alvim, chamou a obra de ficção e ressaltou que o filme de Petra, em Hollywood, “confirma o cenário de guerras culturais que têm sido empreendidas em escala internacional”.

Mais brasileiros

Entre a tradicional valorização do consagrado — com a indicação de muitas pedras já cantadas, e derivadas da temporada dos prêmios internacionais —, o 92º Oscar trouxe uma boa surpresa para outro brasileiro: na categoria da ficção pesou a projeção internacional de Fernando Meirelles, com o filme Dois papas (indicado em três categorias). Pelo fato, ele se tornou a maior referência verde-amarela na maior festa do cinema global. Há 14 anos, Meirelles fez história com Cidade de Deus, dono de quatro indicações em quesitos técnicos. Com Dois papas, ele colocou na disputa os atores Jonathan Pryce e Anthony Hopkins (coadjuvante), além de Anthony McCarten, autor do roteiro adaptado.

O Oscar chega à edição de 2020 com uma lista mais balanceada do que o recente e criticado Globo de Ouro. Mesmo arejado, limou cineastas mulheres da categoria de melhor direção. A estrela da telona Scarlett Johansson emplacou como a nona intérprete a ter dupla indicação: concorrerá por atriz central (História de um casamento) e por coadjuvante (Jojo Rabbit). Desde Cate Blanchett, há 12 anos, o fato não ocorria. A atriz negra indicada Cynthia Erivo tratou de ampliar a representatividade — com um filme sobre a ativista a favor da abolição Harriet Tubman — cravando a indicação de atriz, e ainda disputará (como autora musical) com a canção de Harriet, ao lado dos criadores de acordes de Frozen II, Toy Story 4 e Rocketman.

O filão de estrangeiros também estabeleceu novidades na cerimônia de Hollywood. O sul-coreano Bong Joon Ho, premiado em Cannes do ano passado, levantou seis indicações para o drama psicológico de terror Parasita, e estará numa lista dourada do cinema, na categoria melhor direção. Até hoje, nenhum dos 10 indicados filmes em língua estrangeira levou a estatueta de melhor filme, ao qual Parasita está indicado.

Joon Ho aparece competindo com Martin Scorsese, Todd Phillips, Sam Mendes, e Quentin Tarantino. Pela ordem, comandaram O irlandês (10 indicações), Coringa (o recordista, dono de 11 indicações), 1917 (10 indicações) e Era uma vez em... Hollywood (10 indicações). Apesar de esperada pelos fãs, a inclusão do ator Antonio Banderas (de Dor e glória, assinado por Pedro Almodóvar) entre os concorrentes trouxe prestígio para ele, o 11º a ser indicado (em língua não inglesa) e o terceiro candidato a interpretar em espanhol (depois de Javier Bardem e Benicio del Toro). Com franco favoritismo para Joaquin Phoenix (de Coringa), Leonardo DiCaprio (que, com Era uma vez em... Hollywood, chega à sexta indicação) e Adam Driver (História de um casamento) não parecem ameaças tão iminentes.

A lista do Oscar ainda instituiu holofote no nome de um diretor e ator pouco conhecido: o neozelandês Taika Waititi, que disputa pelo roteiro adaptado do fenômeno Jojo Rabbit. O filme trata do dilema de um menino filiado a ideais hitleristas e que vê uma garota judia ser apadrinhada pela mãe dele. Jojo Rabbit compete a seis Oscar, inclusive de melhor filme. Já exibido em Brasília, o drama Ford vs. Ferrari também está entre as nove candidatos a melhor filme do ano, obtendo ainda mais três categorias técnicas.
 
Dilma Rousseff volta a chamar a atenção para a teoria de
Dilma Rousseff volta a chamar a atenção para a teoria de "golpe", em Democracia em vertigem (foto: Netflix/ Divulgação)
 
 
Lupa na realidade

A apreciação técnica, mais afunilada dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas parece favorecer o Brasil, dadas as últimas indicações conquistadas pelo país. Na especificidade e no intimismo, Petra Costa viu o documentário Democracia em vertigem valorizado. Há seis anos, a figura de Sebastião Salgado favoreceu a indicação de O sal da terra. Um dado curioso na trajetória de Democracia em vertigem é o de estar ladeado por um concorrente que ainda está destacado como melhor filme estrangeiro: Honeyland (da Macedônia), que trata do desequilíbrio da ação do homem, na produção de apicultores ilibados.

Numa realidade diversa do  consagrado pelas indicações, o Oscar, há quatro anos, selecionou O menino e o mundo (de Alê Abreu) para a disputa de melhor animação. Na 83ª cerimônia, a escolha (na seleção) recaiu sobre Lixo extraordinário — filme que se apoiou na produção artística de Vik Muniz. Produzido em pool que contou com o brasileiro Rodrigo Teixeira, O farol rendeu indicação para Jarin Blaschke, na categoria de melhor direção de fotografia.

Cara de palhaço, vencedor?

Com mais de US$ 1 bilhão arrecadados na bilheteria, Coringa terá a missão de desbancar dois emblemáticos criadores de Hollywood: Scorsese e Tarantino. A briga será das maiores já que, aos 77 anos, Scorsese anunciou o desgaste para tocar um filme com o acabamento de O irlandês, enquanto Tarantino faz farra (e compõe delírios) com um enredo traumático para muitos norte-americanos que idolatram o faz-de-conta proporcionado pela meca do cinema. Vingadores: ultimato, representante máximo do cinema pipoca e dos lucros associados à indústria da sétima arte, obteve apenas uma indicação ao Oscar (no quesito efeitos visuais). Outro blockbuster com discreta presença na lista foi Star Wars: Episódio IX, candidato pela trilha original e pelos efeitos visuais.

Empoderamento feminino balizam os papéis interpretados na categoria de melhor atriz. Com as indicações das atrizes de O escândalo, Charlize Theron e Margot Robbie, o fator ainda foi desenhado por Saoirse Ronan e Florence Pugh, vistas em Adoráveis mulheres, e, em Histórias de um casamento, por Laura Dern. Na categoria, Saoirse deve dar trabalho para Renée Zellweger, de Judy: Muito além do arco-íris, já premiada com o Globo de Ouro.

Para se ter a dimensão do fator Netflix na festa, basta pensar que o longa de animação Perdi meu corpo, sobre uma mão decepada em busca do resto do corpo, foi indicado somando novidade com Klaus, filme espanhol que desbancou nomes de peso do segmento. Completam a lista Link perdido, Toy Story 4 e Como treinar o seu dragão 3. 

 
 
 
 
 

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