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Correio Braziliense

Oscar de melhor atriz traz respaldo de mulheres da vida real

Histórias de personagens femininas extraídas do cotidiano norte-americano são destaque entre as selecionadas para disputar o Oscar de melhor atriz


postado em 21/01/2020 08:02 / atualizado em 21/01/2020 12:01

Cynthia Erivo: primeira indicação ao Oscar, ao interpretar abolicionista(foto: Frederic J. Brown/ Divulgação)
Cynthia Erivo: primeira indicação ao Oscar, ao interpretar abolicionista (foto: Frederic J. Brown/ Divulgação)

 

Num mundo em que cada vez mais as mulheres têm subvertido estruturas arcaicas de poder e conquistado patamares diferenciados na sociedade, natural que a indústria do cinema reproduza vitórias e problemáticas experimentadas por elas nesse processo. Curiosamente, o Oscar 2020 soube trazer um bom recorte de barreiras e desafios, tendo por firmamento eventos, de diferentes épocas, transcorridos na vida real.

 

 

 

Para além do retrato de uma personagem feminista de Adoráveis mulheres, proposto na literatura ficcional (mas muito ligado às vivências da autora Louisa May Alcott), abraçada pela candidata ao Oscar Saoirse Ronan, houve valorização da performance de Scarlett Johansson (destacada como protagonista de História de um casamento). Casar ou não casar se tornou dilema de mulheres desses dois filmes. Noutra vertente, confira, a seguir, as performances de atrizes indicadas e que tiveram pesquisas de personagens bastante atreladas à realidade

 

Espírito libertador

 

A inspiração veio da escrava e abolicionista Harriet Tubman, e, nessa onda, a atriz e cantora Cynthia Erivo viu a possibilidade de conquistas em Hollywood. É a única negra indicada ao Oscar. O filme Harriet, da diretora Kasi Lemmons, mostra a trajetória de uma escrava, entregue aos campos de plantação de algodão, nascida em 1822 e morta em 1913, não antes de se tornar ícone da cultura americana.

 

“Destreza, determinação, força e bravura” foram os predicados encontrados na personagem, pela atriz britânica, vencedora de um prêmio Tony de atriz de musical, noutra adaptação de obra relacionada à escravatura, quando protagonizou A cor púrpura, baseado no romance de 1982 escrito por Alice Walker.

 

Aos 32 anos, Cynthia, que nasceu em Londres (filha de pais nigerianos), emprega em Harriet a capacidade do canto — e obteve ainda indicação ao Oscar pela criação da canção Stand up. Não fez feio, até por ter desbancado (entre finalistas) até mesmo Beyoncé (por O Rei Leão). A atriz contou ter investido na harmonia vocal dos spirituals africanos, ao “mergulhar no espírito dos ancestrais”.

 

Harriet mostra a tentativa de alforria de Araminta Minty Ross (nome original de Harriet), escrava em Maryland, em 1849. Ao lado da colega Janelle Monáe (de filmes como Moonlight e Estrelas além do tempo), Cynthia Erivo refez parte da jornada de Harriet, cuja trama de reivindicações se multiplica. Estão relatadas aos casos de premonição, após Harriet ter sofrido um profundo ferimento na cabeça. A personagem colecionou feitos, lutando pelo sufrágio feminino, e tendo sido de cozinheira à espiã, durante episódios da Guerra Civil Americana.

 

Renée Zellweger: a vida não é apenas purpurina, em Judy: muito além do arco-íris (foto: Amy Sussman/ Divulgação)
Renée Zellweger: a vida não é apenas purpurina, em Judy: muito além do arco-íris (foto: Amy Sussman/ Divulgação)
 

 

Decalque realista

 

Algo estranho transcorre, quando se associam as carreiras das atrizes Renée Zellweger, 50 anos, e a diva das telas Judy Garland. A estrela que faturou o Oscar (em miniatura), quando do estrondoso sucesso de O mágico de Óz (1939), morreu justo no ano de nascimento de Zellweger, rara atriz a emplacar três sucessivas indicações ao Oscar. Entre 2002 e 2004, Renée foi selecionada na Academia por filmes como O diário de Bridget Jones, Chicago e Cold mountain

 

Com o último, num registro coadjuvante, é que Zellweger viu a cor do Ouro reluzir em sua estatueta. Brilhante na telona, com a recriação de parte triste da vida de Garland, Zellweger está a passos do segundo Oscar, numa espécie de retorno à meca da indústria do cinema, passados 16 anos.

 

No filme de Rupert Goold (A história verdadeira), Judy: Muito além do arco-íris, uma avalanche de pílulas (para todos os fins) e litros de álcool contribuem na destruição de um mito que viveu, entre as glórias, como cantar no Carnegie Hall. Depois de tiranizada pelas garras do executivo Louis B. Meyer (da MGM), Garland se viu esmagada pelo sucesso constante que inviabilizou maiores êxitos na vida pessoal. Ainda assim, morta aos 47 anos, Garland colecionou excepcionais momentos como das indicações ao Oscar por Nasce uma estrela (1954) e, na pele de uma atormentada coadjuvante, em Julgamento em Nuremberg (1961).

 

“Nunca me aventurei em músicas como essas (cantadas no filme Judy) por achar que minha voz não fosse adequada”, revelou Zellweger à revista Variety. Baseado na peça Fim do arco-íris, criação de Peter Quilter, o longa para o qual a atriz achou que fosse inadequada, dados os desafios de energia e ressonância vocal, traz enormes trechos de músicas como Come rain or come shine, The trolley song e For once in my life.

 

Charlize Theron é uma das personagens definitivas do enredo de O escândalo, em que brilham ainda Nicole Kidman e Margot Robbie (direita)(foto: Frazier Harrison/ Divulgação)
Charlize Theron é uma das personagens definitivas do enredo de O escândalo, em que brilham ainda Nicole Kidman e Margot Robbie (direita) (foto: Frazier Harrison/ Divulgação)
 

 

Na vanguarda da denúncia

 

“O pano de fundo do longa-metragem O escândalo mostra que todos deveriam ter liberdade para cultivar a ambição, ao perseguir crenças pessoais e promover rotinas de trabalho em ambientes seguros”, destacou a premiada atriz Charlize Theron, no material de divulgação do filme.

 

Num caso estarrecedor, anterior ao impacto em 2017 das denúncias feitas pelas reportagens do The New York Times contra a figura do magnata de Hollywood Harvey Weinstein, O escândalo promove uma devassa em tema candente em 2016: o exame dos padrões apodrecidos de comportamento instigados nos corredores de uma corporação dos meios de comunicação norte-americanos. 

 

Quem bem demarca o caso de 2016, exposto pelo filme de Jay Roach, e que mostra tentáculos abusivos e conservadores do magnata Roger Ailes (John Lithgow) dentro da Fox News, é Charlize, dona de três indicações ao Oscar: “O filme é a história da violação de direitos das pessoas — então, não se trata de uma esfera de se tomar ou não partido”.

 

Enquanto a colega de elenco de Charlize, Margot Robbie (indicada à atriz coadjuvante), interpreta a jovem produtora de tevê Kayla Pospisil, num caso de personagem fictício; a exemplo de Nicole Kidman, à frente da interpretação de Gretchen Carlson (apresentadora do programa Fox & Friends), Charlize dá vida à estreia outra personagem saída da realidade: Megyn Kelly, peça-chave nas denúncias.

 

Uma curiosidade é a de que, com nova indicação ao Oscar de melhor atriz, desta vez, Charlize, aos 44 anos, teve direção de um cineasta. Nos casos anteriores, Monster e em Terra fria, as direções couberam a Patty Jenkins e Niki Caro, respectivamente. 

 

 

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