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Correio Braziliense

Vestígios da cultura estão no acervo de manuscritos de Pedro Corrêa Lago

Coleção do editor Pedro Corrêa Lago ganha edição de arte da Taschen com documentos de grandes personagens


postado em 25/01/2020 10:49 / atualizado em 25/01/2020 10:49

Desenho a giz de cera de Jackson Pollock (foto: Taschen/Reprodução)
Desenho a giz de cera de Jackson Pollock (foto: Taschen/Reprodução)

Foto autografada de Marilyn Monroe, autorretrato do poeta Allen Ginsberg, carta de Marcel Proust, desenho do Congresso Nacional por Oscar Niemeyer,  manuscrito de um poema de João Cabral de Melo Neto, entrevista de Malcom X, pergaminho assinado por quatro papas medievais, esboços com anotações de Michelangelo, assinatura por impressão digital de Stephen Hawking.

Essas são algumas das preciosidades do acervo de manuscritos e fotos amealhados pelo editor Pedro Corrêa Lago durante quase cinquenta anos. Os vestígios da cultura cobrem um período de quase 900 anos. Eles foram tema de uma exposição no The Morgan Livrary & Museum de Nova York, a instituição mais importante de manuscritos, e está registrada no livro A magia do manuscrito – Coleção Pedro Corrêa do Lago, pela prestigiosa editora Taschen, em português, inglês, francês, italiano e alemão.

A edição é contextualizada por textos de Pedro Corrêa Lago e Christine Nelson, curadora de manuscritos literários do Morgan Library & Museum. “Por muitos anos, à noite, quando estava prestes a me deitar, muitas vezes com a vela quase no fim, meus olhos se fechavam tão rápido que eu sequer conseguia dizer a mim mesmo que estava adormecido”, diz o manuscrito de Marcel Proust com esboço do primeiro parágrafo de Em busca do tempo perdido.

O poeta americano T.S. Eliot dedica um retrato à ficcionista inglesa Virgínia Woolf. Ao saber da notícia do suicídio dela pouco mais de uma década depois, ele escreveu ao viúvo Leonard Woolf: “Para mim, e tantos outros, é o fim de um mundo”. Ao receber um questionário sobre quais os passatempos preferidos, o escritor americano Ernest Hemingway responde: “Esquiar, pescar, atirar, beber”.

Freud entendia que cobrar a análise dos pacientes era importante, pois estabelecia uma relação profissional e não caridosa. Isso poderia contribuir para o sucesso do tratamento psicanalítico. No livro, figura um cartão assinado para Roy Grinker, em que Freud cobra por 20 horas de análise. Freud não costumava dar descontos e anotou: “Ainda sou forçado a ganhar a vida. Não consigo fazer mais de cinco horas de análise diariamente; e não sei por quanto tempo ainda vou poder trabalhar nisso”.

Ao se deparar com esses documentos, Pedro Lago costuma ter um frêmito de emoção. É uma maneira de se aproximar dos momentos dramáticos, alegres ou de inspiração de grandes personagens da cultura ou da história política. Para Pedro Lago, esses manuscritos e imagens têm valor, a um só tempo, sentimental e histórico, pois muitas biografias são construídas a partir de cartas. Em entrevista ao Correio, ele fala sobre o prazer e a relevância de colecionador de manuscritos.

Pedro Corrêa: encanto pelo manuscrito(foto: Paulo Jabur/Divulgação)
Pedro Corrêa: encanto pelo manuscrito (foto: Paulo Jabur/Divulgação)

Entrevista // Pedro Corrêa de Lago

Por que você se dedicou a colecionar manuscritos? Qual o encanto?
O encanto é uma espécie de contato meio mágico. A magia existe, é estar segurando uma carta do Proust, Hemingway, é o contato mais direto que você pode ter com uma pessoa que morreu antes de você nascer. Quanto mais importante a carta, o documento ou o manuscrito, mais emoção passa. É o poder de evocação da história e da vida que me encanta no manuscrito. Na verdade, eles tocaram aquele mesmo papel. Tem um pedaço da vida congelada. Fui atrás dos papéis nos últimos 50 anos.

Como é a sua história de caçador de manuscritos?
A etapa inicial não tem nenhuma relação com o que está na exposição em Nova York ou no livro. Diferentemente de muitas pessoas da minha geração, nunca fui caçador de autógrafos. Você tem um equívoco de base que é a palavra autógrafo. É qualquer coisa escrita à mão por uma pessoa. Em todas as línguas virou assinatura. Na verdade, as pessoas dizem que têm a maior coleção de autógrafos. O que me interessa são cartas, documentos que mostram o pensamento dessas pessoas em ação. Se for manuscrito da criação, Borges ou Proust, registra aquele momento mágico de inspiração no qual foram colocadas no papel pela primeira vez. Quanto mais próximo estiver neste momento da criação, mais me interessa. Por exemplo: rascunhos de poemas de João Cabral, textos de Machado de Assis, cartas e bilhetes são documentos especiais. Veja a variedade de suportes, inclusive fotografias assinadas. É uma imagem, mas você nunca assina o que não gosta. A coleção tem dedicatórias significativas, como é o caso da foto de T.S. Eliot para Virgínia Woolf.

Como constituiu um acervo de manuscritos e imagens tão amplo? 
Comprei nos Estados Unidos peças europeias, os marchands não entendiam completamente a importância da carta, colocada no seu contexto. Isso você compra em catálogos de leilões. Fui catando em centenas de leilões no mundo inteiro. Visitei dezenas de lojas de livros antigos. Todas as peças foram compradas. Houve um período em que escrevi para as pessoas e colecionei algumas cartas. Mas os últimos 40 anos foram compra intensa de papel velho com o que ganhei do meu trabalho.

Qual a relação da exposição com o livro publicado pela Taschen?
O livro é um reflexo da exposição. Foi a primeira vez que o museu expôs uma coleção privada de manuscritos. Quando entrei no Morgan Museu com 17 anos, tive a sensação de adentrar em um templo sagrado. Para mim, foi um grande privilégio. Nunca tinha exposto a coleção, fizemos uma seleção de 170 peças para a exposição em Nova York. Aí, a Taschen resolveu fazer um livro que refletisse a exposição. Mas não houve tempo. Saíram edições em francês, alemão, inglês, italiano e espanhol e português. Gostaram do assunto. São todos da minha coleção. Dois curadores da Morgan escreveram textos. A exposição, a ser realizada no Sesc de São Paulo, terá o mesmo molde da montada em Nova York. Daniela Thomas e Felipe Tassar conceberam a montagem no Brasil. Ficaram admirados. Criaram soluções fantásticas, aboliram as vitrines e fizeram móveis sob medida, com legendas grandes atrás. Na verdade, o livro é uma espécie de exposição portátil.

O que é interessante nestes vestígios das vidas de grandes artistas ou personagens da história?
Depende muito. Rodin diz qual a escultura favorita da Camile Claudel. Gauguin faz alusão ao episódio da orelha cortada do Van Gogh. Então, na verdade, muitas dessas cartas trazem julgamentos, opiniões ou simplesmente pedidos. Tem cartas de amor, de ruptura, que expressam todo o tipo de sentimento. Para mim, o que fez buscar foi a evocação. A alegria de descobrir, ver que tem significado muito maior, você revisita a história. As cartas enriqueceram muito a minha vida. A busca dos manuscritos me fez ler muito mais. Você se sente próximo, quase um parente daquele personagem.

A relevância dos manuscritos é sentimental ou é também histórica?
É real, a história é feita de manuscritos. Você escreve biografias a partir das correspondências. Henrique VIII foi um dos monarcas mais poderosos. A leitura das cartas traz nova luz para os fatos. Tenho muito material que foi usado por biógrafos. O principal pesquisador de Gauguin não conhecia a carta que eu tinha. A seleção foi mais de peças chamativas que poderiam atrair a atenção do público, mais do que peças que revolucionassem a história. Momentos fáceis, difíceis ou divertidos. Tem desenho do Pequeno Príncipe, de Saint-Exupery ,ou autorretrato de Allen Ginsberg.

A magia do manuscrito
Pedro Corrêa do Lago e Christine Nelson /Taschen

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