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Correio Braziliense

Em exposição, Josafá Neves materializa a simbologia das religiões africanas

Primeira exposição do ano no Museu Nacional da República apresenta o trabalho do artista brasiliense Josafá Neves inspirado nas religiões afro-brasileiras


postado em 28/01/2020 07:12 / atualizado em 28/01/2020 11:38

Em pinceladas ou trabalhos escultóricos, Josafá Neves aborda a temática da cultura afro-brasileira(foto: Arquivo pessoal/ Divulgação)
Em pinceladas ou trabalhos escultóricos, Josafá Neves aborda a temática da cultura afro-brasileira (foto: Arquivo pessoal/ Divulgação)

 

Filho de candangos vindos da Bahia, legítimo brasiliense, descendente de africano e brasileiro. O artista Josafá Neves inaugura o calendário artístico no Museu Nacional da República com a exposição Orixás. Em pinturas a óleo sobre telas, esculturas e instalações, o brasiliense, nascido no Gama e artista autodidata, materializa a pluralidade das religiões de origem africana no Brasil.

 

“O artista tem o poder de se manifestar por meio da arte e mostrar para as pessoas o que realmente acontece. A ideia é mostrar que essa religião não é do demônio, não discrimina ninguém. É importante sair da ignorância, do não conhecer e ainda julgar. Existe uma beleza nessa religião e um valor inestimável da resistência da história do negro no Brasil”, explica Neves. Foram cinco anos de planejamento para concretizar o trabalho que estreia nesta terça-feira (28/1) no museu.

 

Neves integra um conjunto de artistas que fez da arte afirmação do negro e da existência. Em pinceladas ou trabalhos escultóricos, ele aborda a temática da cultura afro-brasileira por meio de uma interpretação astuciosa e genuína, transformando-a numa permanente e inquietante realidade. “A arte faz parte da minha vida. São 25 horas por dia. Acordo pensando em arte, durmo pensando em arte. O meu trabalho é um pedaço de mim. Contém um pedaço da minha alma”, comenta o brasiliense.

 

(foto: Josafa Neves/Divulgação )
(foto: Josafa Neves/Divulgação )
 

 

Pela primeira vez, Neves se aventura pelo universo geométrico, inspirado em Rubem Valentim. Em pinturas coloridas, que expostas lembram retratos, Neves materializa a simbologia e as cores de 16 orixás cultuados no Brasil. Exu, Oxum, Obá, Oxóssi, Ogum, Oxalá Oxaguian, Nanã, Ossain, Omolú, Iemanjá, Xangô, Iansã, Oxumar, Logum Edé e Oxalá Oxalufan são os orixás representados na mostra inédita em Brasília.

 

Em uma instalação com 800 peças, além de grandes esculturas feitas a partir de madeira do Cerrado, o brasiliense revela as potencialidades visual e poética do trabalho. “Busquei vários suportes justamente para abranger o público e o público ter várias visões sobre as dimensões religiosas. Também é uma forma de provocação. Colocar o público diante de um exército de homens e mulheres e trazer essa afirmação do povo negro, a nossa religião, a nossa história que as pessoas tanto negam”, explica Neves.

 

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Oxalá -instalação 700 esculturas pintadas à mão 600x600cm

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Para o artista, não é uma questão de tolerância, mas de respeito, independentemente de questões religiosas, de cor da pele e de opção sexual. “É uma mostra com fundo político educacional e de afirmação do patrimônio imaterial que os negros deixaram, que é a nossa história, a história do povo brasileiro”, finaliza.

 

Mais do que uma exposição religiosa, como as encontradas no período da arte sacra, a mostra se apropria da linguagem para produzir uma arte contemporânea, como explica o crítico de arte e curador Marcus de Lontra Costa. “A obra não é, em nenhum momento, política, mas vem revestida de um caráter político a partir do momento que um dos museus mais importantes do país recebe esse trabalho em um período de intolerância religiosa”, comenta. São obras ricas esteticamente, com visualidade muito forte e muito presente, nas quais Neves trabalha de maneira poética uma ação inicial de violência.

 

Na avaliação de Lontra, o mundo contemporâneo hoje, seja ele artístico ou não, está diante da necessidade de rever a história e a forma como ela é contada e representada. “A história da arte no Brasil até pouco tempo se construiu pelo olhar branco, ocidental. Mas, essa visualidade negra, com artistas como o Josafá, o Dalton Paula e o Antônio Obá tem evidenciado esse lado nosso que estava esquecido”, pontua.

 

(foto: Josafa Neves/Divulgação)
(foto: Josafa Neves/Divulgação)
 

 

As formas geométricas, por exemplo, podem ser explicadas pelo modernismo. Contudo, vieram antes dele, com os índios. “É uma maneira de sintetizar os caos da percepção. É antropomórfica”, descreve. Assim como Brasília e a arquitetura de Niemeyer, Costa afirma que é possível ser internacional e nacional ao mesmo tempo. “Isso é um ganho para o Brasil”, analisa.

 

Com a exposição, Neves e Costa querem manifestar ao público o que é do brasileiro, mas estava esquecido, apagado ou renegado. “Uma ação artística que faz parte da minha formação brasileira, da construção social e cultural”, justifica o curador. “Somos todos mestiços. Quando a gente se conscientiza da violência que ocorreu e ocorre e se propõe a identificação em nós mesmos, passamos a lutar por um país melhor. A religião é a necessidade que o ser humano tem de se encontrar com algo melhor, seja ela qual for”, acrescenta Costa.

 

Exposição Orixás 

De Josafá Neves com curadoria de Marcus de Lontra Costa. Abertura nesta terça-feira (28/1), às 18h30. Visitação até 29 de março. Segunda, das 14h às 18h30 e de terça a domingo, das 9h às 18h30. Acesso livre. 

 

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