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Correio Braziliense

A diretora Dácia Ibiapina é a representante do DF na Mostra de Tiradentes

O documentário 'Cadê Edson?', estreia hoje, no evento, sob a temática A Imaginação como Potência


postado em 29/01/2020 07:00

(foto: Trotoar/Divulgação)
(foto: Trotoar/Divulgação)

Prédios ainda sem nenhum destino certo, no Distrito Federal,  que, desocupados, permanecem como esqueletos estruturais numa capital que expurga e desqualifica a atuação de alguns movimentos sociais. Com olhar inquieto e diante da intranquilidade desse fatores, a cineasta Dácia Ibiapina agiu, com a câmera na mão e a mentalidade voltada para os efeitos da injustiça. “Viver requer ter opinião e lutar pelo direito de expressar essa opinião. A liberdade de expressão é essencial à democracia. Não abro mão de ter opinião e de expressar a visão nos filmes. A mídia faz isso. Só que muitas vezes não assume que lado tem”, observa a diretora, representante do Distrito Federal, no segmento Aurora, integrado à 23ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes (Minas Gerais). O filme que ela criou, o documentário Cadê Edson?, estreia hoje, dando continuidade à seleção do evento, sob a temática A Imaginação como Potência, defendida pelos curadores Lila Foster e Francis Vogner.

“Brasília me afetou e me afeta muito. É onde moro e trabalho. É um mirante privilegiado para olhar o país e o mundo. Daqui, dá pra enxergar o Piauí”, brinca a diretora, piauiense de São João do Piauí, e que está estabelecida na cidade desde 1989. Foi por meio dos integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) que a diretora despertou para a ação de Cadê Edson? “Escolho temas e personagens em função de quanto e como eles me tocam como pessoa. Quanto e como posso aprender com os processos de construção dos filmes. Ao interagir com os temas e com os personagens, descubro que a primeira impressão dificilmente prevalece. Não costumo julgar os personagens, até porque são parceiros pelos quais sinto empatia e respeito”, comenta a diretora, formada em cineclubes e com conhecimento aperfeiçoado na Escola de Cinema e TV de San Antonio de los Baños (Cuba).

Uma trilha sonora composta por Henrique Laterza, e a inclusão de La Belle de Jour (por Alceu Valença), Africadeus (Naná Vasconcelos) e Ordem (Enema Noise) dão o tom à trajetória de Edson Ferreira da Silva, protagonista do documentário. Na coordenação nacional do MTST, em 2010, ele organizou ocupações, entre as quais a de Novo Pinheirinho (Ceilândia) e a ocupação Jarjour (Taguatinga). “Tenho lado em relação aos conflitos abordados no filme Cadê Edson?, sim. A luta das famílias e dos militantes do Movimento Resistência Popular (MRP, grupo dissidente, criado em 2015) é por moradia digna e eu espero que eles consigam isso”, comenta a mesma diretora de filmes como O gigante nunca dorme (2015) e Ressurgentes: um filme de ação direta (2014).

Vindo de família nordestina de imigrantes, o paulistano Edson da Silva encarou prisão em regime fechado, por oito meses, no Complexo Penitenciário da Papuda. Cumpre, atualmente, pena sob regime aberto — com trabalho durante o dia e, à noite, deve ficar recolhido em casa.

O título do filme despontou, em 2015, motivado por uma das detenções, três anos depois de Dácia acompanhar as metas dos integrantes do MTST. Ela acompanhou, atenta, a desocupação feita pela Polícia Militar do DF, em junho de 2016, no Torre Palace, que fez parte da trama de lutas de Edson da Silva, instalado por oito meses no local. Outra ocupação, no Plano Piloto, ocorreu no hotel abandonado St. Peter.




Três perguntas / Dácia Ibiapina 


Como percebe atitudes e consequente sufocamento dos movimentos sociais?
É um erro sufocar os movimentos sociais; venham de onde vierem os movimentos e os sufocamentos. A diversidade de pensamento é fundamental em uma democracia. Em vários países, no momento, as manifestações e protestos estão nas ruas. O novo secretário de Cultura retomou os editais do Fundo de Apoio à Cultura do DF. Começou destravando o Edital Áreas Culturais e espero que lance novos editais, amplos e acessíveis a todas e todos os contribuintes do DF, sem proselitismos, direcionamentos ou censuras. Nós, cineastas de Brasília, precisamos filmar o momento político que estamos vivendo. Muitos dizem: para que filmar se já tem tanta gente/câmera filmando? Eu respondo: ninguém está filmando para você ou por você. Geralmente, estão filmando contra você. Pense nisso.

Onde está o crime maior: tentar viver vida digna, agir na ilegalidade, usar de violência (policial, e com respaldo)?
Prefiro falar do que o filme revela: os personagens ali têm um ponto de vista sobre o país, sobre a política. Ao mostrar como vivem os militantes e as famílias nas ocupações e como o Estado age nas desocupações, se percebe a criminalização de quem luta pelo direito à moradia. As últimas enchentes em Minas Gerais, no Espírito Santo e em outros estados brasileiros, com centenas de mortos, desaparecidos ou desabrigados; às vezes famílias inteiras, morrendo soterradas pela lama dos deslizamentos, mostram a urgência de políticas públicas de ocupação do solo e construção de moradias para pessoas de baixa renda. Os atingidos pelas cheias não precisam só de ajuda humanitária. Eles precisam de moradia. Não é crime lutar para ter uma casa.

O cinema que você produz é politizado? Fala, por vezes, do “cinema dentro de cinema”. Celebrar personalidades é facil?
Os filmes, documentários ou ficções, são uma ampla construção de relações e, naturalmente, envolvem diálogos e também embates. Biografias parecem fáceis para quem está na condição privilegiada de observador. Já para quem está na frente ou atrás das câmeras não é tão simples assim. É um exercício de se voltar sobre si mesmo e sobre os outros. É delicado. Ninguém é uma ilha. Todo ser humano afeta e é afetado por vários coletivos. Uma pessoa é ela, suas crenças, seus medos, sua coragem, seu tempo. Meu cinema é político. Acho um erro fazer cara de paisagem para as questões políticas. A omissão pode parecer confortável, mas pode ser decisiva contra você mesmo. Tome partido, tome tento, tome coragem.
 
 
 
 
 

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