Publicidade

Correio Braziliense

'Jojo Rabbit' e 'Aves de Rapina' são as principais estreias da semana

Com seis indicações ao Oscar, filme do neozelandês Taika Waititi 'Jojo Rabbit' traz inusitada mensagem pacifista em meio à bizarra atmosfera nazista


postado em 06/02/2020 06:02

'Jojo Rabbit': comédia com alto teor subversivo(foto: Piki Films/Divulgação)
'Jojo Rabbit': comédia com alto teor subversivo (foto: Piki Films/Divulgação)
Entre uma série de premiações, a consagração reservada ao longa-metragem Jojo Rabbit, que estreia nesta quinta-feira (6/2) (com seis indicações ao Oscar), não chega de modo suave para o diretor Taika Waititi. Quando da exibição do filme para os votantes do Sindicato dos roteiristas norte-americanos, por exemplo, o cineasta confessou a apreensão, na hora em que foi abordado por uma filha de sobreviventes de Auschwitz. Waititi confessou que esperava por uma espécie de reprimenda, ao passo que a mulher deu o veredito, no lugar dos pais: “Eles teriam amado o filme”, contou ele à reportagem do Los Angeles Times. Na era do incremento da extrema-direita, mundo afora, o enredo que trata da ascensão do nazismo, sob a ótica inocente de um menino, se vale do apelo da atualidade.

“A comédia sempre foi, por milhares e milhares de anos, uma maneira de conectar o público e transmitir mensagens mais profundas, desarmando e criando abertura para o recebimento de mensagens”, comentou o cineasta para o The Guardian. No longa, o próprio diretor — que acumula qualidades de escritor e ator — interpreta uma versão muito abrandada de Hitler. Diante dos sucessivos elogios para a performance, ele comentou que não sabe se deveria se “sentir insultado”.

Waititi, no filme, mais do que mentor, serve de guru para o personagem Jojo Betzler, um menino de 12 anos, em interpretação a cargo de Roman Griffin Davis (estreante em cinema e, de cara, indicado ao Globo de Ouro). Reclamando ser mais “belo” do que Hitler, o diretor neozelandês (conhecido pelo êxito no universo Marvel, com Thor: Ragnarok) parece inclinado a motivar polêmicas.

Ele aplaca o ódio com uma sátira brotada da leitura de um livro publicado por Christine Leunens. Em muitas ocasiões (em especial no âmbito das recorrentes premiações), Waititi celebra o estímulo assegurado pelos cuidados da mãe, uma judia de sobrenome Cohen. Fugir de culpas e de pesadas parcelas de depressão, corriqueiras na cadência de narrativas dramáticas, levou o diretor a optar pela “poderosa ferramenta” da comédia. Exorcizar traumas, na percepção dele, pode vir por meio do bullying contra ditaduras em que preconceitos e ódios arraigados voam pelos ares. Fundada por Steven Spielberg, a entidade de fundo educativo contra ações genocidas Shoah Foundation (que remete, em hebraico, ao Holocausto) se posicionou favorável à fita.

Candidato ao Oscar, nas categorias de melhor filme, roteiro, atriz coadjuvante (Scarlett Johansson), figurino, edição e desenho de produção, Jojo Rabbit foi o preferido pelo público do Festival Internacional de Cinema de Toronto (Canadá). Numa série de sistemáticas provas em acampamento de ensinamentos nazistas, o protagonista afunila a identificação com o colega Yorki (Archie Yates) e, já em casa, tem mais novidades: enquanto a mãe (Johansson) se torna algo ausente (e o pai sequer aparece), Jojo fica ainda mais desnorteado pelo súbito aparecimento de Elsa (Thomasin McKenzil), uma menina de origem judaica e que tem como morada o lar do revoltado menino.

Na análise da produção envolvida no filme que teve orçamento de restrito a US$ 14 milhões, pesa na trama a devolução de um poder roubado de empoderamento dos judeus. Vencedor de melhor roteiro adaptado pelo British Academy of Film and Television Awards (o famoso Bafta inglês), o diretor não deixou barato: “Isto (de vencer) é muito legal para mim, até porque vim de uma colônia (britânica)”; e ainda sublinhou, de modo jocoso, a importância de parte da “devolução do ouro” (fundido ao troféu) “para onde ele pertence originalmente (a Nova Zelândia)”. Vale a lembrança de que, há 16 anos, o neozelandês Peter Jackson foi o grande vencedor, com 11 prêmios Oscar reservados para O Senhor dos Anéis: O retorno do rei. Em 2020, somente um título está qualificado para vitória semelhante: Coringa.

'Aves de Rapina (Arlequina e sua emancipação fantabulosa)': mulheres em ação(foto: Warner Bros./Divulgação)
'Aves de Rapina (Arlequina e sua emancipação fantabulosa)': mulheres em ação (foto: Warner Bros./Divulgação)

De lebres e aves


Dois anos depois da estreia de Mulher-Maravilha, uma espécie de abre-alas para toda a sorte de filmes de super-heroínas possíveis, a partir do universo da DC (a concorrente da Marvel), um outro longa, de nome interminável, está a postos para expandir as possibilidades de feminismo atrelado às adaptações de histórias em quadrinhos: Aves de Rapina (Arlequina e sua emancipação fantabulosa).

Apesar de a direção do filme estar a cargo de Cathy Yan (de Dead pigs), um dos elementos chaves, nas primeiras discussões que circundaram o longa, está no trabalho da figurinista Erin Benach (Nasce uma estrela). Tudo porque houve, acatando escolhas conceituais da produção, abrandamento do excesso de sensualidade da personagem central (Arlequina), interpretada por Margot Robbie, e que já havia explodido na telona, quando da estreia de Esquadrão suicida (o fiasco da DC, em 2016).

A partir do roteiro de Christina Hodson (Bumblebee), um time de mulheres poderosas é arregimentado para preservar a integridade da personagem Cassandra Cass Cain (papel da estreante Ella Jay Basco). Sem caráter muito confiável, Arlequina assume a narração de como ela se aliou à Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), à encantadora Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell) e à policial Renee Montoya (Rosie Perez). Juntas, todas querem liquidar a possibilidade de que o vilão Roman Sionis (Ewan McGregor) coloque as mãos em Cassandra. Todos os acontecimentos narrados transcorrem em Gotham City, e outro personagem perigoso é o braço direito de Sions chamado Victor Zsasz (papel de Chris Messina).



Outras estreias


A chance de Fahim 

• De Pierre-François Martin-Laval. Com Gérard Depardieu, filme é baseado em dados verídicos e apresenta a luta de um jovem imigrante indiano que busca se afirmar, na França, como jogador de xadrez.

Quem me ama, me segue! 

• De José Alcala. Comédia francesa estrelada por Daniel Auteuil e Catherine Frot aposta no destino de um amor desencontrado: amante do vizinho, uma aposentada não aguenta mais o sufoco da convivência com o exigente marido.

Inferninho 

• De Guto Parente e Pedro Diógenes. Com première mundial na Holanda, e integrante (em 2017) da mostra paralela do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chamada Futuro Brasil, a comédia mostra um amor brotado entre tipos diversos que animam uma eclética boate.
 
 
 
 
 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade