Diversão e Arte

Bong Joon Ho obriga Hollywood a ver a diversidade

A quebra de padrões e o reajuste à realidade contemporânea nortearam a vitória do sul-coreano Parasita, que invadiu uma cadeia produtiva de entretenimento em crise

Ricardo Daehn
postado em 11/02/2020 07:43

Conquistas inesperadas: quatro prêmios Oscar vieram para a produção do sul-coreano Bong Joon Ho, que esteve bem incrédulo, no palco da cerimônia

Uma manobra de política interna da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que vota vencedores do Oscar, trouxe impacto imediato nos resultados da entrega das estatuetas para os melhores do cinema, como indicou a consagração do filme sul-coreano Parasita. Dada a chuva de críticas a aspectos da falta de representatividade, e depois do limpa feito junto a empresários protagonistas de casos de assédio sexual, o novo foco foi aumentar diversidade na indústria, e que, no Oscar, alcança a casa dos 8.000 integrantes com direito a voto. O avanço trouxe incremento de representatividade. Em 2019, 400 mulheres foram convidadas para a nova composição, e, em 2018, 840 membros refletiram o dobro de negros no quadro da Academia, e uma nova disparada no número de mulheres, com a inclusão de votantes como as diretoras brasileiras Petra Costa e a brasiliense Maria Augusta Ramos.

Na onda de uma nova perspectiva de globalização, o Oscar (antes, reservado à categoria de produção estrangeira ou ainda tachada de filmes de língua não-inglesa), agora, foi renomeado e chegou ao patamar de filme internacional. Curiosamente, o longa Parasita (que rendeu também os prêmios de melhor direção e de roteiro original para Bong Joon), que trata de contraste econômico e duelo de classes sociais, desembocou na premiação, depois de ensaios ousados da Academia em termos de premiações. Desde o longa Babel (2006), os votantes demonstravam maior boa vontade com os cineastas estrangeiros que futuramente obtiveram prêmios. Na lista, Alejandro Gonzáles Iñárritu, Alfonso Cuarón (que comandou o mexicano Roma) e Guillermo del Toro.

[SAIBAMAIS]

Mas, a consagração de Bong Joon Ho traz patente o acesso das minorias a uma fatia mais polpuda do prêmio. Traça quase uma metáfora com o conteúdo de seu filme ; tentáculos sedentos (e desprivilegiados) alcançam o Santo Graal. Na sexta oportunidade, em 92 anos de Oscar, uma produção simultaneamente indicada a melhor filme internacional e melhor longa-metragem carregou os dois Oscar. No todo, apenas 11 filmes ;de fora; (com legendas) chegaram perto de cruzar a fita de vitória de melhor filme, e alguns assinados por artistas consagrados como Ingmar Bergman (Gritos e sussurros), Clint Eastwood (Cartas de Iwo Jima) e Costa-Gavras (Z).

Banindo a alvura hegemônica atrelada ao Oscar, o diretor Bong Joon Ho, no discurso de agradecimento, disse ter apostado na ideia de que ;o mais pessoal é o mais criativo; ; algo como cantar a sua aldeia. O ensinamento veio do gigante Martin Scorsese, que viu as 10 indicações de O irlandês naufragarem. O apoio de Quentin Tarantino (diretor do concorrente Era uma vez em... Hollywood) também foi ressaltado por Joon Ho, lembrando a época em que não gozava de tanta popularidade nos Estados Unidos, mas era reconhecido por Tarantino.

De certa maneira, ainda que a indústria norte-americana tenha registrado gigantesca arrecadação de US$ 1,07 bilhão para o hit Coringa, as bilheterias acusam o esgotamento na lógica do pagamento de ingressos. Parasita teve bilheteria de US$ 165 milhões (sendo que US$ 130 milhões vieram longe do território americano). A modesta renda foi próxima à de Adoráveis mulheres (US$ 177 milhões) e ao dobro dos ganhos de Jojo Rabbit. Coletando US$ 287 milhões, o filme de guerra 1917 (virtual vencedor em todos os bolões) não engordou status para o filme de estúdio.

Posto à prova o sistema da Netflix, na artimanha do streaming que emplacou 24 indicações, surtiu apenas dois prêmios. Não adiantou nem a renda de O irlandês (estimada em US$ 961 milhões) e o pedigree do cinema de Scorsese. Num tubo de ensaio, a vitória de Parasita ; que invadiu a festa, depois de inúmeras conquistas de prêmios, entre os quais a Palma de Ouro em Cannes 2019 ; pareceu ainda um último recurso para frear o avanço do streaming, num apego ao modelo que emplacou reconhecimento para Ford vs. Ferrari (com renda de US$ 222 milhões) e Era uma vez em... Hollywood (que arrecadou US$ 374 milhões).


Bilheteria dos últimos

vencedores do Oscar

Green book, o guia (2019) US$ 329 milhões

A forma da água (2018) US$ 195 milhões

Moonlight (2017) US$ 65 milhões

Spotlight (2016) US$ 99 milhões

Birdman (2015) US$ 103 milhões

12 anos de escravidão (2014) US$ 187 milhões

Argo (2013) US$ 232 milhões

O artista (2012) US$ 133 milhões

O discurso do rei (2011) US$ 427 milhões

Guerra ao terror (2010) US$ 49 milhões

Debate social na telona

Com a ressalva da falta de indicações para os atores do grande vencedor de trama asiática Parasita (a exemplo da mesma desconsideração presente, no passado, junto a O último imperador, Quem quer ser um milionário? e O tigre e o dragão), o longa realmente fincou novidade no plano do Oscar. Todos os casos anteriores de cinco filmes estrangeiros indicados em ambas as categorias de melhor filme e produção internacional (Amor, Roma, O tigre e o dragão, Z e A vida é bela) resultaram em vitória relativa ; sem o prêmio central.

Inflamando discussões sociais, o cinema de Bong Joon Ho segue a tradição de outro sul-coreano celebrado por Quentin Tarantino: Chan-wook Park, do premiado Old Boy (Cannes, em 2004, tendo Tarantino por presidente do júri). Violência e vingança, na cartilha de Park, fazem parte das tramas de Bong Joon Ho, à frente de filmes como Expresso do amanhã (2013), Mother: a busca pela verdade (2009) e Cão que ladra não morde (2000).

Sucessos

Em 26 anos de carreira, o diretor coleciona êxitos. Confira:

Okja (2017)

Os meandros de uma revolução na alimentação em escala global dão o mote da trama que cerca a vida da delicada Okja (de uma espécie geneticamente modificada). A trajetória do improvável animal de estimação concorreu à Palma de Ouro (Festival de Cannes).

O hospedeiro (2006)

Monstro gigante, às margens do rio Han, coloca em risco a vida de uma menina. O resgate familiar envolve todos. Considerado um dos 10 melhores filmes do ano, pela influente Cahiers du Cinéma.

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