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Correio Braziliense

Maestro cubano Joaquín Betancourt faz concerto hoje em Brasília

Para 2020, Betancourt está com agenda lotada. Por isso, as aulas no Curso de Verão são um luxo para quem conseguiu se matricular


postado em 19/02/2020 07:00 / atualizado em 19/02/2020 10:02





Na classe de Joaquín Betancourt não há barreiras de idioma. A linguagem da música supera qualquer tropeço entre o espanhol e o português. Em uma das salas ao fundo do bloco H da Escola de Música de Brasília (EMB), o número de alunos não passa de 40, mas volta e meia entra alguém com um instrumento perguntando se pode tocar também. E nessa big band montada para o Curso Internacional de Verão da EMB, sempre cabe mais um. O maestro rege a big band do curso na sexta-feira. Cubano de Camaguey, um município na parte central da ilha, Betancourt é concorrido. A explicação está no currículo: formado em violino, é arranjador requisitado e maestro cobiçado por nomes como Chucho Valdés, Cesaria Evora e Omara Portuondo.

Para 2020, Betancourt está com agenda lotada. Por isso, as aulas no Curso de Verão são um luxo para quem conseguiu se matricular. Ele prepara um disco de cantos folclóricos afro-cubanos com tônica eletroacústica de Zunilda Remigio, com quem é casado, concertos em vários festivais com sua própria banda, um DVD com a Orquestra Sinfônica Nacional de Cuba dedicado à música do crooner Benny Moré e outro da cantora Anabell López, irmã do compositor Silvio Rodrigues.

Na sala de aula da EMB, no entanto, Betancourt se renova. “Mesmo em pouco tempo, se passa algo, mas não tudo o que eu queria. Mas vale a intenção e o desejo. A ideia é mostrar a qualidade da música cubana, que é uma das músicas, como a brasileira e a norte-americana, mais importantes do mundo, sobretudo no campo popular”, avisa. É, também, um universo um tanto desconhecido para a maioria dos alunos. “A maior parte do meu estudo foi de música erudita; então, aqui é uma oportunidade de ter mais contato com música popular e com big band. Fora que o maestro é renomado, ganhou prêmios e não facilita: se você quer aprender a música, aprende como ela é, no jeito certo, na harmonia dela”, conta a saxofonista Marina Vaneli, 27 anos, ao lembrar que Betancourt ganhou o Grammy Latino em 2001.

No repertório do concerto, o maestro incluiu músicas como Sueños del pequeño Quin, uma composição própria, e Como el arrullo de palma, um clássico de Ernesto Lecuona. Durante a aula, os alunos aprenderam a lidar com ritmos como o danzón, típico da música cubana, e a salsa. Um compasso aqui, outro ali, vai, volta, repete. Há algo de mágico em assistir ao maestro dar forma à música até então desconhecida dos 40 alunos. A diferença entre os acordes executados durante os primeiros minutos da aula e o produto final é sempre impressionante. Algo que o saxofonista João Gabriel Joshua, 22, admira muito.




É a segunda vez que Joshua faz aulas com o maestro. “A música brasileira e a cubana são muito interligadas e as culturas são muito parecidas. O maestro trabalhou com uma série de músicos importantes e as aulas servem para perceber que posso ter uma área de atuação e um viés de estudo, já que aqui a gente tem oportunidade de tirar dúvidas e aprender esse estilo”, explica o músico.

Joaquín Betancourt reconhece que a verdadeira música cubana, feita na ilha, é pouco difundida no resto do mundo, inclusive no Brasil, embora seja pulsante. “Lamentavelmente, não chega à América Latina. A música cubana sofre há muito tempo de um isolamento, produto do fato de não termos uma relação normal com os Estados Unidos, que é a fonte de praticamente todo o comércio da música no mundo. As esferas cubanas têm pouca relação com as esferas internacionais da música”, lamenta. Participar de festivais e cursos como o da EMB é uma maneira, também, de difundir essa produção. “É uma oportunidade de conhecer uma das músicas mais importantes do continente e do mundo. E, para mim, é uma grande oportunidade de entrar no mundo de vocês. Mesmo que não esteja eu mesmo tendo aulas, recebo também informações da música brasileira, que gosto muito. E isso é essencial a todos”, acredita.



Concerto da big band
Regência: Joaquín Betancourt. Sexta-feira, 21 de fevereiro, às 18h30, no Teatro da Escola de Música de Brasília (602 Sul)



Entrevista/ Joaquin Betancourt

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

O senhor é um maestro premiado, trabalhou com os músicos mais importantes de Cuba e da música latina. Por que segue dando aulas?
A aula é importante para o músico. É uma reciclagem de informação importante. Ajuda a estar atualizado.


Sabemos pouquíssimo da música cubana? 
A música que desenvolvemos fica praticamente na ilha, salvo algumas exceções, como a Europa, onde a música cubana tem maior promoção, mas não na América Latina. Há quem faça música cubana que não esteja em Cuba. Por exemplo em Miami, no México, em Porto Rico, na República Dominicana, na Venezuela, na Colômbia. Mas falo da música cubana que se faz em Cuba.


E o que o senhor acha da música cubana que não é feita em Cuba?
É bem-feita, mas sofre de não ter a fonte direta de comunicação com a terra, que é importante. Se nota a diferença da música que é feita em Cuba, que é muito atualizada do que acontece em Cuba, e da música que se faz em outro país, como na Espanha, por exemplo, onde se faz muita música cubana


E o que é hoje a música cubana? Porque no Brasil, nos encantamos com o Buena Vista Social Club, mas praticamente paramos por aí?
O Buena Vista Social Clube nem sequer é a música cubana toda, é uma parte da música cubana do tempo do início do século 20. E a música que se faz hoje em Cuba é filha dessa música, mas feita por outros músicos mais jovens, com outra informação musical, com outra informação científica, com domínio técnico de todas as coisas, mas que não deixa de alimentar-se dessa tradição, só que com outra perspectiva.


E o que há de novo nessa perspectiva?
A sonoridade de hoje no mundo contemporâneo. A música cubana hoje soa com os timbres e influências que estão no mundo contemporâneo. E boa parte dela tem muita poesia. Segue sendo poesia. Não perdeu isso.


E como é a formação? Há um sistema educacional para isso?
Há mais de 50 anos há um sistema de estudo da música no qual pode estudar qualquer pessoa. Um agricultor ou uma pessoa que vive em Havana. A única coisa que se exige é que tenha vontade. E isso propiciou um desenvolvimento grande na música e no ensino da música. Se elevou muito o nível. Temos 16 províncias e 13 têm orquestras sinfônicas. Todas as províncias têm coro. Todas. Não um coro, mas dois, três, quatro. Todas as províncias têm banda sinfônica.


Quais as maiores fontes da música cubana?
Para mim, há algumas que são importantes. Uma é a música tradicional cubana e a música folclórica. O folclore é muito importante na música cubana, é o que nos define e nos diferencia. Esse folclore veio da África, há séculos, com os escravos que foram arrancados de sua terra natal e que sempre conservaram sua cultura e a foram desenvolvendo. Gerações de filhos dos escravos assimilaram a música de seus pais e avós e foram desenvolvendo. Ao criar-se a nação cubana, essa música era muito forte. Há muito ritmo.



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