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Correio Braziliense

Blocos de Brasília representam a diversidade do carnaval brasileiro

Tem axé, samba, frevo, pífano, carimbó e outros ritmos de várias regiões do país


postado em 22/02/2020 06:30 / atualizado em 22/02/2020 15:16

Emília Monteiro: a pega sonora do Norte do país é destaque no bloco Bora coisar(foto: Fabiano Mesquita/FMS Digital/Divulgação)
Emília Monteiro: a pega sonora do Norte do país é destaque no bloco Bora coisar (foto: Fabiano Mesquita/FMS Digital/Divulgação)
Se Brasília representa o Brasil, com moradores que vieram de todos os estados para construir a capital e nela se instalar, o carnaval brasiliense representa a diversidade musical do país. O frevo de Olinda? Temos. Os bonecos? Temos. O samba do Rio? Temos. O pífano pernambucano? Aqui mesmo. O carimbó e o marabaixo do Norte? Também temos. Axé, MPB, rock, funk, eletrônico e todos os estilos tocados de norte a sul passam por Brasília no carnaval. O Correio fez um apanhado dos blocos que trabalham com gêneros musicais típicos das regiões brasileiras para você fazer uma programação diversificada.

Amazônia musical
Emília Monteiro representa o Amapá, terra dos pais, e o Pará, onde tem parte da família. Por isso, foi beber na fonte musical do Norte para montar o repertório do bloco Bora coisar, que vai pra rua na terça-feira. Carimbó, lundu, brega, lambada e o pouco conhecido marabaixo não podem faltar. “O Norte tem uma gama gigantesca de ritmos, essa questão da ancestralidade negra africana, indígena e branca operou de maneira que resultou em vários ritmos característicos de cada região da Amazônia”, explica Emília. “E a MPB tradicional não influenciou praticamente a musicalidade dessa Amazônia à qual me refiro. A influência sempre foi muito mais do Caribe.”
O Bora coisar estreou no carnaval brasiliense em 2015 e, desde então, Emília segue difundindo os ritmos do Norte. Como madrinha, ela tem a figura de Dona Onete, com quem cantou como convidada durante apresentação do bloco Virgens da Asa Norte. A cantora e compositora paraense também gravou com Emília a música Veneno de cobra. “Ninguém cantava isso aqui e não existia um movimento paraense como existe hoje. Na época, entrei em contato com Dona Onete e queria cantar música dela. E acabou que houve uma identificação de uma com a outra e ela me mandou duas músicas. Gravei, e uma virou clipe. É uma emoção muito grande, porque é mesmo uma das minhas maiores referências”, conta.

O Nordeste é aqui

Foi em 2004 que a Ventoinha de Canudo começou a tomar forma, por iniciativa da atriz e musicista Dani Neri, que queria montar uma banda de pífanos na capital. Deu tão certo que hoje o Ventoinha espalha a sonoridade da flautinha transversal (o pífano) típica da cultura nordestina pelos eixos de Brasília. “A cidade tem essa coisa, que até virou clichê, de ser um caldeirão cultural, e a influência nordestina é muito grande. Mas Brasília não tinha esse envolvimento de banda de pífano”, conta Mariana Baeta, coordenadora e fundadora do bloco, que saía depois do Galinho e, entre 2007 e 2017, acompanhou o bloco Tesourinhas da Asa Norte. Agora independente e como bloco, o Ventoinha desfila na comercial da 205/206 Norte.
A referência do Ventoinha, que completa 17 anos neste carnaval, está nos cearenses do Cabaçal dos irmãos Aniceto, um grupo familiar que remonta ao final do século 19, naquele estado, e que ainda hoje está ativo, ao manter uma tradição passada de pai para filho. “A gente teve a possibilidade de cantar com eles num encontro de pífanos, em 2017”, conta Mariana. “O pífano é um elemento forte da cultura nordestina e desse brinquedo popular de rua. E a cultura nordestina tem uma influência muito grande em Brasília. Nosso repertório é de autores muitas vezes desconhecidos, mas que trazem essa identidade da música popular brasileira”, diz. Mesmo assim, o Ventoinha mescla clássicos de Jackson do Pandeiro, Hermeto Paschoal e Luiz Gonzaga com outros autores menos conhecidos em um repertório de xotes e baiões.

Axé
Êaêaôô Axé 90: a Bahia como referência musical. “Por que as pessoas ficam mentindo dizendo que não gostam de axé?”, questiona aos risos a artista Claudia Daibert. Ela integra o projeto  Êaêaôô Axé 90, que revisita os grandes sucessos do gênero que embalaram uma geração de foliões. “A ideia surgiu com a banda Móveis Coloniais de Acaju. Quando a banda se desfez, eles queriam manter o projeto vivo, então outras pessoas entraram”, explica Claudia. Atualmente, participam da formação ela, André Gonzales, Esdras Nogueira, músicos do Muntchako, Passo Largo.

Apesar do palco ter um “bando de rockeiro”, como Claudia descreve, os sons do Chiclete com Banana, Banda Eva, Olodum, Asa de Águia, Banda Beijo e Luiz Caldas tomam conta. “Estamos falando de carnaval e esse lado não pode faltar. É reviver um momento histórico da música brasileira”, afirma a artista. Fora do projeto nenhum deles tem a vertente do axé como característica principal do trabalho artístico, mas, de certo modo, todos têm um pé na Bahia. “Por três ou quatro anos, trabalhei no carnaval de Salvador. No começo, estava detestando. No final dos cinco dias, eu sabia todas as músicas, não queria ir embora. É uma energia contagiante, e é isso que trazemos para Brasília. Um show ousado e divertido”.   

O samba
No Balbúrdia, que sai pela primeira vez este ano, a diversidade do carnaval brasiliense está representada em uma programação variada que inclui o tradicional samba. Nest sábado, único dia da apresentação do bloco, no Canteiro Central, tocam os Acadêmicos da Asa Norte, a Aruc e o grupo 7 na Roda. “É uma programação bem diversificada. O samba passa pela festa, mas temos também Praga de Baiano, para trazer uma coisa mais do carnaval de Salvador; Pé De cerrado, uma experiência riquíssima do DF que dialoga com o Brasil de forma geral”, avisa um dos organizadores, Kleytton Morais. “O samba é uma linguagem artística cultural importante, permeia o imaginário do brasileiro e do estrangeiro. A preocupação que a gente teve foi com a diversidade. E, por sermos um bloco de rua, essas manifestações mais genuinamente reconhecidas pelo imaginário coletivo, como a escola de samba e o bloco de rua, estão com a gente.”
Ventoinha: a folia no ritmo nordestino, com um balanço todo especial(foto: Davi Melo/Divulgação)
Ventoinha: a folia no ritmo nordestino, com um balanço todo especial (foto: Davi Melo/Divulgação)
 
Marchinhas

Um bloco para resgatar as marchinhas de carnaval e promover uma festa ao som de Mamãe eu quero, Touradas em Madri e Saca-Rolha. Uma volta ao século 20. Assim surgiu o Lagartixa Chorosa, criado em 2016 por um grupo de amigos, que se conheceu na Escola de Choro Raphael Rabello. “Começamos a sair juntos no carnaval e a fazer música por nossa própria conta. Como é um grupo de pessoas mais velhas, uma parte de aposentados, é um repertório que a maior parte dos integrantes curtia e todo mundo tinha interesse. Queríamos trazer essas músicas para as ruas de Brasília, pois não existe quase nenhum grupo especializado. Hoje em dia, tudo é carnaval, é típico da festa, mas a gente sente falta da preservação da cultura antiga e a gente não quer que isso seja esquecido”, conta a percussionista Luciana Campos.

Ao todo são 32 músicos colorindo e revivendo canções antigas, ainda assim animadas. “O pessoal adora. São músicas que estão gravadas na memória do brasileiro. É só começar a tocar que, com 10 minutos as pessoas começam a vibrar junto”, comenta Luciana. Entram na folia adultos, idosos e muitas crianças e, no quinto ano de carnaval, o Lagartixa Chorosa percebeu a vocação: promover um carnaval familiar, apresentando às gerações mais jovens uma pequena amostra dos carnavais de antigamente. Além disso, todos os anos procuram apoiar iniciativas de inclusão social. 

Banda Ventoinha de Canudo
Ventoinha na Tesourinha – 17 Anos Fazendo o Carnaval de Rua de Brasília. Domingo e terça-feira, a partir de 16h20, na Comercial da 205/206 Norte. Entrada franca

Bloco Balbúrdia
Neste sábado, às 16h, no Setor Comercial Sul (Quadra 3, Bloco A - Espaço Cultural Canteiro Central).
Classificação: Livre
Entrada franca

Bloco Bora Coisar
Com Emília Monteiro, Thábata Lorena e do DJ Pablo Peligro. Terça-feira, 25 de fevereiro, das 20h às 23h, no Setor Carnavalesco Sul (SCS – QD 4). Entrada gratuita. Não recomendado para menores de 18 anos

Êaêaôô Axé 90
Segunda-feira, 24 de fevereiro, às 19h, no Outro Calaf. Entrada: R$ 30 terceiro lote (sujeito a alteração sem prévio aviso). À venda no Sympla. Não recomendado para menores de 18 anos

Lagartixa Chorosa no carnaval
Segunda-feira, 24 de fevereiro, às 10h. No Setor Carnavalesco Sul. Terça-feira, 25 de fevereiro, às 10h, na Praça do Índio. Entrada gratuita. Livre para todos os públicos. 

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