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Correio Braziliense

Selo brasiliense aposta em formatos inusitados como fita cassete e mini-cd

O Tudo Muda Music foi fundado em 2015 para garimpar artistas e editar material em formatos pouco comuns


postado em 24/02/2020 06:30 / atualizado em 24/02/2020 14:01

Selo Tudo Muda Music: estilos musicais variados, mas inovadores(foto: Fotos: Tudo Muda Music/Divulgação)
Selo Tudo Muda Music: estilos musicais variados, mas inovadores (foto: Fotos: Tudo Muda Music/Divulgação)
Imagine que você está tocando com sua banda no Conic e, ao final do show, um sujeito se apresenta como proprietário de um selo musical que quer lançar seu disco em fita cassete, vinil, e outros formatos. Você logo pergunta “quanto custa?”. E ele te diz que a produtora arcará com todos os custos de produção, mas você tem que arcar com uma parte da tiragem, a quantidade estratosfericamente pequena de 20 cópias — 2 mil vezes menos do que um disco de ouro.

 

A cena descrita não seria tão estranha nos anos 1980 ou 1990, quando a internet ainda engatinhava, as tecnologias eram bem mais caras, o vinil e o cassete estavam em voga e o CD começava a se consolidar. Em geral, a única maneira de colocar algum material na praça era ser contratado por uma gravadora ou um selo. Agora, no início da terceira década do século 21, a cena poderia soar no mínimo estapafúrdia, mas, acredite, pode acontecer em Brasília.

 

Fundado em 2015, o selo Tudo Muda Music se dedica a garimpar artistas talentosos e lançá-los em formatos praticamente obsoletos, mas que ainda despertam interesse. “Eu, como ouvinte, acho que um arquivo digital tem pouco valor. Você não está vendendo nada, apenas o direito de a pessoa ouvir sua música, vendendo ar. O formato físico é um bem, há um custo de produção e um prazer tátil e visual que você não vai ter se só tiver o arquivinho lá”, constata Mauro Rocha, dono do selo.

 

Também conhecido como Rochinha, o dono do selo, como na abertura do texto, aborda os artistas que ele considera interessantes — a banda de um amigo ou conhecido da cena, alguém que ele viu num show ou que conheceu pela internet — e oferece a parceria. Em geral, os artistas topam na hora. Rochinha coloca à disposição da banda o know how, insumos, técnica, contatos, e arca com os custos iniciais de produção. A banda entra com a música e adquire uma porcentagem dos produtos, para revender.

 

Deste modo, a banda pula um monte de etapas, principalmente burocráticas, e sai com um material de grande qualidade que pode ser vendido como merch e divulgar o projeto. O selo adquire um bom artista para o catálogo e também lucra com a venda do material. É o que Mauro chama de “gasta-gasta, ganha-ganha”, mas ressalta: “Essa parte do ‘gasta-gasta’ eu acrescentei, mas o que interessa mesmo é o ganha-ganha. Todos se beneficiam”, explica.

 

Selo mutante

 

Tudo começou porque Mauro tem uma banda, a Transistorm, queriam lançar o primeiro álbum. “Não tinha selo pra me lançar, e, a exemplo de vários artistas que eu curto, pensei: ‘vou fazer eu mesmo. Faça você mesmo, do it yourself”. Com as tecnologias de gravação, reprodução e distribuição mais acessíveis, Mauro começou a distribuir o material pela internet, de forma independente.

 

Resolveu prensar o material em vinil compacto de sete polegadas na Polysom, empresa carioca que, em meados dos anos 2000, era a única fábrica de vinis em atividade na América Latina. Várias informações eram exigidas, entre elas, a assinatura de um selo oficial. Mauro teve que correr atrás de um CNPJ, e, o pior, dar um nome para o empreendimento. “Não é nada muito semântico nem filosófico. Eu acho a sonoridade legal. É uma verdade filosófica que todo mundo que lê concorda”, explica.

 

Fácil de ser pronunciado em outros idiomas, a universalidade conceitual e sonora do selo reflete o anseio de romper fronteiras. Após uma série de lançamentos da Transistorm, e de outros projetos pessoais de Rochinha, a necessidade de lançar o material no exterior, em 2018, fez com que Mauro vencesse novas burocracias. “Agora eu posso falar com a indústria com um CNPJ e lançar discos fora do país”, comemora.

 

Foi um ponto de virada na história do selo. “Tá meio monótono esse negócio de lançar coisa minha. Já sei lançar fita cassete, mini-cd, formatos diferentes. Podia convidar alguns artistas amigos”, pensou. “Eu não consigo fazer um disco, por mês, mas eu consigo produzir um disco por mês.” Primeiro, convidou a Abismo, banda de doom metal da cidade, e o STVZ, gaúcho radicado em São Paulo que faz experimentações eletrônicas, em junho de 2019.

 

Em setembro, o selo lançou material da banda Frank Sidharta. Em novembro, Trajetos, outro projeto de Mauro. Em dezembro, Signo XIII. Em janeiro, experimentações eletrônicas de Rafael Lamim. Depois de amanhã, sai o disco Swing Manifesto, novo d’Os Gatunos. Em março, o primeiro EP da Vox Lugosi e um split das bandas ARD e Rattus, ícones do punk brasiliense e finlandÊs, estão entre os lançamentos previstos.

 

E não se trata de uma primazia do formato analógico sobre o digital. “Hoje em dia, todo lançamento analógico passa em algum momento pelo digital”, explica Mauro, que produz as fitas de duas maneiras: Via Polyssom, com tiragens e valores maiores; ou com um gravador de fitas que adquiriu e que grava as músicas direto do computador dele, em fitas encomendadas da Inglaterra e do Canadá com a duração exata do lançamento. Ao adquirir as fitas (ou mini-cds, ou vinis), o comprador recebe no encarte um código que possibilita baixar o disco digital gratuitamente.

 

*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco 

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