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Correio Braziliense

Novo disco de Ligiana Costa traz a voz como único instrumento

Cantora de Brasília fala de mulheres em seu terceiro disco, EVA


postado em 25/02/2020 06:30 / atualizado em 24/02/2020 18:25

(foto: EVA- José Hollanda)
(foto: EVA- José Hollanda)
Quando começou a imaginar o seu terceiro trabalho solo, a cantora e compositora Ligiana Costa queria investir em algo diferente. “Não consegui imaginar muito uma estética tradicional de música popular brasileira, com baixo, bateria e guitarra, porque já tinha ido para o universo experimental”, conta a artista, que investiu na música eletrônica nos dois álbuns anteriores. Agora, com EVA, ela apostou exclusivamente nas vozes. 

O novo trabalho é inteiramente vocal e contou com a direção musical de Dan Maia, com quem Ligiana havia feito uma parceria para a trilha da peça A língua em pedaços. “Me lembrei desse trabalho com ele, fiquei muito orgulhosa do resultado e pensei na ideia de fazer um disco vocal e também baseado em referências minhas como Björk e a cantora francesa Camille, que também trabalham os vocais. Pensei em usar a voz como instrumento, mas não imitando o instrumento. Esse era o pulo do gato. Durou um ano o processo. Eu não queria que as vozes estivessem imitando guitarras ou baixo, são vozes fazendo papéis vocais com acompanhamento do canto principal, que é o meu”, explica a artista. 

Para dar forma sonora às oito faixas do disco, Ligiana contou com a participação de São Yantó, Bruna Lucchesi, Marina Decourt, Pedro Iaco e Lívia Nestrovski. Esta última, para a cantora, tem a voz mais bonita do Brasil. “Começamos a convidar cantores na mesma linha de experimentação vocal, que não fossem fechados no padrão. Então eles vinham e propunham coisas”, conta. As músicas foram compostas ao longo do processo. Radicada em São Paulo, mas brasiliense de coração — Ligiana nasceu na capital paulista e foi criada em Brasília —, ela compôs as músicas enquanto trabalhava no disco.

Todas as faixas têm nomes de mulheres e o próprio título, EVA, embora seja o acrônimo de Errante Voz Ativa, remete ao mito bíblico da mulher expulsa do paraíso por comer a maçã. Em Nice, primeira faixa do disco, Ligiana homenageia a companheira. Composta no momento em que as eleições polarizavam o Brasil, a canção pede um “consolo” para um mundo em destruição. “É sobre a tensão do que estava por acontecer e a preocupação de se a gente ia poder continuar andando nas ruas de mãos dadas”, lembra. “A partir daí, falei ‘cara, vou fazer cada canção com o nome de uma mulher'. Foi muito natural, parece que elas foram se apresentando para mim. Gosto muito dessa ideia de voz como arma, do canto como potência de batalha, é uma coisa barroca, porque venho dessa linhagem do canto antigo.” 

A tristeza com o incêndio do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, levou a Luzia, uma homenagem às mulheres de forma geral, mas também um canto de dor, um lamento que se encerra no coro cantando “só uma mulher queimada, só mais uma”. , com participação de Lívia Nestrovski, celebra a cantora e compositora Ná Ozzetti, e Lilith e Eva volta à mitologia em uma releitura particular: Lilith seria a serpente que oferece a maçã e salva Eva. Ligiana é encantada pelo mito bíblico desde a infância porque enxerga em Eva a primeira curiosa da história, figura que acabou carregando uma culpa para o resto dos tempos por querer descobrir o desconhecido. Na música, Lilith e Eva se colocam como irmãs. 

Outra homenagem forte está em Nesrin, novamente com participação de Lívia Nestrovski. Ligiana queria falar de guerreiras e encontrou em Nasrin Abdalla, uma curda que hoje está à frente da luta pela proteção das mulheres curdas na Síria, uma personagem de peso. “É uma mulher num país destroçado, que poderia ser vários países, é uma pessoa que existe, uma das líderes da revolução de mulheres curdas”, conta Ligiana, que gravou o disco em parceria com a YB Music, de São Paulo, e contou com a pós-produção do baiano Gilberto Monte, responsável pela finalização vocal. 

EVA
YB Music, 8 faixas. R$ 15,20

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